mil novecentos e sessenta e um – dia 356

1961356-sexta-22

Parece mesmo um milagre mas aconteceu. Hoje pelo final da manhã o Caprichoso telefonou de Mafra. O recado dele parecia música celestial, porque tinha recebido em Lisboa a notícia de que tínhamos sido dispensados. Definitivamente. Meteu-se logo no carro da Clara e foi lá direito, entregar o material distribuído. Arranjou maneira de abrir o meu cacifo e entregou capacete, arreios, coldre, cartucheira e outras bugigangas bélicas que tinha na minha posse, libertando-me do encargo de fazer pessoalmente a entrega desse espólio. Grande amigo!

Ainda nem estou em mim, precisando de me beliscar para acreditar nisto. Acho que vou levar algum tempo para ter a certeza de que é mesmo verdade.

Fui logo ao Magistério para me apresentar, porque ainda me lembro das recomendações da D. Maria Teresa quando abalei para Mafra, a de não perder um dia sequer de serviço. O Caprichoso já meteu no correio o documento militar da minha passagem ou devolução à condição de civil, ou seja, à disponibilidade.  Depois é só entregá-lo na Secretaria da Escola do Magistério, mas já ficou tudo tratado. Após as férias apresento-me no meu lugar nas Anexas, na Escola da Estrada da Serra. Uma novidade profissional.

Noutro sítio onde fui dar a novidade, a Câmara Municipal, pediram-me para reassumir o cargo de vereador só na próxima semana, para tratarem devidamente da substituição. É claro que concordei.

Agora saio desta excelente boa nova e entro noutra realidade, bem menos agradável.

Os líderes internacionais discutem e comentam o caso da Índia Portuguesa e toda a nossa reacção se limita a manifestações pacíficas de protesto.

O Diário de Lisboa diz que o Governo português tem feito bastantes diligências para obter informações seguras sobre o Estado da Índia. Acredito que assim tenha acontecido, pelas naturais dificuldades quer técnicas quer sobretudo derivadas da própria guerra.

Tenho verificado que o espírito de Natal está a ser perturbado por todos estes acontecimentos. Nota-se isso nas ruas e até a própria comunicação social reflecte a inquietação que reina no íntimo da cada um de nós.

Mas achei curioso que o DL continue a insistir na questão do 13.º mês que levantou há umas semanas. No jornal de hoje dedica-lhe mesmo a Nota do Dia, na primeira página. Acho que coloca o problema com bastante rigor, pois lembra que este pagamento nem sequer é uma novidade absoluta por ser já praticado em empresas privadas, nas autarquias locais e em certos organismos corporativos. Reconhecendo que a situação actual do País está sobrecarregada com o esforço de guerra, conclui o jornal que não pode ser inventado um novo imposto para suportar a eventual despesa com o 13.º mês, pelo que se aguarda uma solução melhor, capaz de ajudar a resolver as dificuldades de muitas famílias nesta quadra de Natal. Enfim, como remata o artigo: De esperanças vive o homem – pelo menos aquele que não tem processo de viver melhor.

Uma novidade que há tempos não acontecia: o Diário de Lisboa publicou mais um desenho teatral de Fernando Bento, por acaso excelente, a fazer lembrar o seu melhor sobretudo nas páginas do saudoso Diabrete. Vai ficar aqui colado! 

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Assim termina em beleza esta página do diário, que começou muito bem!

Ainda tudo isto me parece um sonho…

One thought on “mil novecentos e sessenta e um – dia 356

  1. Aleluia! Finalmente viu-se livre da tropa!!!
    O leitor que segue este seu diário com interesse, prazer e até emoção, deve ter sentido o mesmo contentamento que eu ao tomar conhecimento desta boa notícia! A verdade, amigo Martinó, é que com a forma como descreve, tão aliciantemente, as experiências por que passou nesse ano de 1961, sobretudo as da tropa, em Mafra, consegue mergulhar os leitores no âmago dos acontecimentos, como se estivessem a seguir um filme em episódios ou a ler uma espécie de folhetim capaz de os deixar em permanente suspense.
    Como leitor fiel e assíduo, espero que esse “folhetim” real prossiga nos próximos tempos, prolongando-se também pelo ano de 1962… embora este talvez menos pródigo em factos tão relevantes para a sua vida particular como foram os desse ano marcado pela guerra em Angola, pelas eleições, pela invasão de Goa, Damão e Diu.
    Um ano que, de facto, pôs o país em polvorosa e que também me afectou profundamente, pois vi o meu pai embarcar para Luanda com um dos primeiros contingentes militares e eu próprio, casado há pouco mais de ano e meio, segui o mesmo caminho alguns meses depois, na qualidade de funcionário do recém criado Instituto do Café de Angola (extinta Junta de Exportação do Café, para onde tinha entrado no início desse ano). Era isso ou ficar no desemprego…
    Felizmente correu tudo bem e nunca sentimos a guerra perto de nós, durante o tempo que passámos em Luanda. Mais tarde, até fiz viagens de camião ao norte da província, acompanhado pela família, com a maior tranquilidade.
    Um grande abraço,
    JM

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