O sustentável peso de Tintin

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O sustentável peso de Tintin significa, para mim, a consagração da teoria da insustentável leveza do ser. Não quero entrar em concorrência com o fabuloso romance que Milan Kundera imortalizou. Trinta e tal anos depois isso seria um perfeito disparate, mas a imagem e o suporte servem.

A filosofia original do pré-socrático Parménides permanece. Jogando em torno das dualidades ontológicas do Ser, o sábio grego justificou-a numa lógica extremamente simples, que a “intelectual” Lili Caneças aproveitaria à sua maneira, quando disse que estar vivo é o contrário de estar morto.

Assim, a dualidade de Parménides assenta na presença e na ausência de uma entidade. Neste sentido, o frio é apenas a ausência de calor, isto é, significa o não-calor; as trevas são a ausência de luz, a não-luz.

É numa perspectiva mais existencial e menos filosófica, mesmo objectivamente física, que aqui refiro o sustentável peso de Tintin.19-70-tt-a

São três mil e seiscentos gramas este peso, o peso do grosso volume de 777 páginas (mais uma, para completar o número par no verso da folha derradeira) que há pouco me veio parar às mãos.

O pretexto dos 60 anos do início da publicação de Tintin, Le Journal des Jeunes de 7 a 77 Ans tem sido oportunidade para a divulgação e inúmeros estudos, recensões e volumes diversos sobre o tema, obras onde a qualidade tem imperado, numa justíssima homenagem à festiva efeméride.

Estou igualmente a fazer a colecção do Feuilleton Intégral, nos anunciados 12 volumes dos quais já 3 foram publicados. Obra incontornável, distingue-se não apenas pela sua dimensão física mas sobretudo pelo seu conteúdo, onde a totalidade de obra de Hergé tem lugar. Pois La Grande Aventure du Journal Tintin 1946-1988 ultrapassa em dimensões cada um dos grossíssimos volumes agora citados, apresentando-se quase descomunal  no registo retrospectivo anual da invulgar publicação. Nas suas simbólicas 777 páginas numeradas (o 7 e os 77 em sequência) encontra-se tudo o que cada ano registou, no mundo real e na ficção desenhada, semana a semana, no Journal Tintin. Cada aventura, cada personagem, cada autor, tudo ali tem um lugar, enciclopédico, como incontornável catálogo e insubstituível obra de referência e memória futuras.

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Regressarei, naturalmente, ao tema.

Para já, aqui fica o registo do sustentável peso de Tintin, sustentável e sustentado numa obra imortal, herança que merece ficar classificada entre os maiores legados do génio criador da Humanidade, neste caso personalizado em Hergé.  

António Martinó de Azevedo Coutinho

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