mil novecentos e sessenta e um – dia 360

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Este dia de hoje, logo a seguir ao Natal, foi qualquer coisa de insólito. Confesso que não estava preparado para isso e agora, ao rabiscar estas linhas algumas horas depois, ainda estou muito confuso. E preocupado. Vou tentar relatar o acontecido.

Logo pela manhã, veio aqui a casa uma contínua do Magistério com o recado de que o senhor director me solicitava que passasse pela escola na parte da tarde, sem falta. Lá fui, com alguma curiosidade.

Esperei largos minutos à porta do seu gabinete depois de anunciado. A certa altura, disse-me lá de dentro que entrasse, o que fiz. Não se levantou e não me estendeu a mão. Nem me convidou a sentar, perguntando-me logo de onde vinha, ao que lhe respondi: – Da tropa.

– E que te ensinaram lá quando chegas a um quartel?

_ Que me apresente e foi o que fiz.

– Não te disseram que tinhas de te apresentar ao comandante?

– Não, era o que faltava! Basta um papel na secretaria.

– Mas era o que devias ter feito e não fizeste!!!

Confesso que não me lembro bem das palavras exactas com que lhe respondi, mas foi mais ou menos que se o comandante fosse um tipo injusto, como é o caso, nunca faria tal. Como é evidente, atirei-lha à cara a injustiça da classificação final que ele praticara, há meses, com a Adrilete. Ainda não tivera antes essa oportunidade…

Colérico, em fúria, levantou-se e correu para mim. Peguei num pesado pesa-papéis de vidro que estava sobre a secretária. Acho que seria capaz de lho atirar à cabeça se ele não tivesse voltado atrás, sentando-se outra vez, lívido de raiva.

Pousei o pesa-papéis, virei-lhe as costas e saí sem uma palavra. Nem fechei a porta…

Este episódio, perfeitamente surrealista, parece ficção. Mas aconteceu, assim, hoje à tarde. Agora, temo pelas consequências. O director é um homem poderoso, porque embora vulgar está muito bem situado nas políticas do regime e eu sou um zé-ninguém. E é o meu director…

A Adrilete apoia inteiramente o meu comportamento e a minha mãe nem sonha o que aconteceu. Como é óbvio, por mim também ninguém mais saberá o que aconteceu. Nem sequer os amigos.

Não há testemunhas do que aconteceu, mas a palavra de um chefe vale sempre mais, muito mais, do que a de um simples subordinado. Na tropa também é assim, pois são estas as regras da nossa sociedade. Ponto final.

Fica aqui o meu desabafo e hoje, como é natural, não me apetece escrever mais nada. Espero estar amanhã com melhor disposição.

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