mil novecentos e sessenta e um – dia 361

1961361-quarta-27

Estou, de facto, com melhor disposição. Estou receoso mas não arrependido. Foi tudo muito rápido e inesperado, pelo que actuei mais pelo instinto do que pelo raciocínio. Provavelmente, se tivesse pensado antes, não teria ameaçado o director com o pesa-papéis. Aliás, ele é que provocou a situação e creio que lhe enfiaria mesmo aquilo nas trombas, apetece-me escrever assim. Que se lixe, porque o que está feito está feito e não tem remédio.

Hoje não aconteceu nada. Tenho de dar tempo ao tempo e o que for soará. Mudo de assunto e regresso à Índia, de onde estive ontem arredado, entretido com a minha própria “guerra privada”.

Há por lá alguns portugueses refugiados em navios estrangeiros e muitos internados civis e militares. Afirmou o núncio apostólico que há quatro soldados feridos, em estado satisfatório, e que os mortos são poucos, não detalhando quantos.

O embaixador português nos Estados Unidos garante que Portugal nunca aceitará o princípio de que Goa está perdida. Parece-me uma posição corajosa e bem intencionada, mas infelizmente apenas romântica…

Voltou a falar-se de Angola, o que confirma os meus receios de que apenas a urgência da Índia tivesse abafado tudo o mais. O título do Diário de Lisboa de hoje diz: Emboscadas a patrulhas no Norte de Angola prontamente eliminadas. Enfim, esperemos que isto seja apenas esporádico.

No Katanga a guerra continua no mato, depois das cidades. Aquilo não tem fim à vista.

Só hoje é que soube que na passada semana, e eu já cá estava, foi homenageado o prof. Casimiro Mourato, na Cooperativa Operária, onde ele foi mais de 20 anos competente e interessado presidente da Assembleia Geral. Tenho pena de não ter sabido a tempo, pois teria ido lá com todo o gosto.

Quero terminar este diário, por hoje, com uma boa notícia que adiei para o final. Nem tudo é mau.

Chegou hoje no correio uma carta do Carlos Caprichoso, com uma surpresa de que ele não falara. Recebeu de Mafra, por via de um sargento de Viseu seu amigo que é escriturário, a cópia de uma Ordem de Serviço do Regimento. Trata-se de um louvor, imagine-se!, que me foi atribuído. Diz exactamente assim:

“Louvado pelo Ex.mo Comandante da E.P.I. por proposta do Ex.mo Major Director do C.O.M. e C.S.M., porque durante o tempo em que serviu como monitor do C.I.M., se conduziu de modo a constituir um exemplo a seguir pelos instruendos, pelo seu aprumo e presença pontual nos locais onde as suas funções o exigiam. Sempre atento ao serviço e pronto a desempenhar qualquer missão, impôs-se como um bom auxiliar do instrutor e do Comandante da Companhia”.

Num instante fiquei todo vaidoso mas, pensando bem, acho um perfeito exagero, porque me limitei a fazer discretamente os mínimos.

No entanto, isto parece-me oportuno. Numa próxima oportunidade, em vez de espetar o pesa-papéis na cabeça do estafermo do director, atiro-lhe com o louvor. Deve magoá-lo muito mais!

Já telefonei ao Caprichoso para lhe agradecer. Ele disse-me que lhe calhou um louvor rigorosamente igual.

Concluo que isto, afinal, deve ter sido uma espécie de prémio de consolação pelo pedaço de vida que nos foi roubado.

A vaidade pessoal ficou algo abalada…

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