mil novecentos e sessenta e um e finalmente.

1961

Como sobrevivi ao ódio do “chefe” é talvez o ponto mais curioso e interessante. O director da Escola do Magistério, durante quase uma eternidade, ignorou-me pura e simplesmente. Talvez ele pensasse que me ofendia quando cumprimentava toda a gente e passava por mim como por uma parede… Isso apenas se tornou estranho para os outros que sempre quiseram saber, sem qualquer explicação da minha parte, o que teria acontecido.

Certo dia, quando eu ardia em febre por causa de uma séria amigdalite, a contínua do Magistério levou-me a casa o recado de que precisavam lá de mim. Tinham uma récita escolar e só eu sabia desenhar e pintar um cenário que fazia falta. Devo ter deixado uns litros de suor misturados com a tinta usada na pintura do imenso papel estendido no chão do vasto salão de festas da Escola, mas dei conta do recado em duas ou três intensas sessões de trabalho, tendo depois regressado à cama.

Na primeira oportunidade pública posterior, o director elogiou o meu espírito de doação e de sacrifício e daí por diante tratou-me como se nada tivesse acontecido, perante a minha ostensiva indiferença. Tempos depois, a desmedida ambição política do fulano levou-o a um duro confronto com alguns dos seus pares locais, mais poderosos, e acabou escorraçado para Leiria.

O único comentário que isso me mereceu  foi o de  que, morrendo o bicho, acabou-se a peçonha…

Empenhei-me no projecto pessoal de valorização e concluí em 1962, com muito trabalho e aplicação, o Latim e o Alemão. Ainda me matriculei na Faculdade de Direito, em Lisboa, mas fiquei-me pela aquisição das sebentas do primeiro semestre…

Pela Câmara, cumpri o melhor que fui capaz os restantes anos do mandato. O presidente, entretanto, foi promovido a capitão médico veterinário e enviado para Angola, em Agosto de 1963, sendo substituído pelo vereador mais idoso, José Moreira Baptista. Todos os do elenco autárquico que me acompanhou nesses anos já faleceram. A edilidade seguinte foi, segundo creio, uma das melhores que alguma vez governou Portalegre. Liderada pelo prof. Silva Mendes, que não era doutor e tinha nascido em Elvas -duas inaceitáveis “ofensas” para a época, em Portalegre- conseguiu para o concelho uma invulgar era de prosperidade, com a cúmplice aliança do governador civil, eng. Tovar Faro, que substituíra o meu primo Martinho. Apenas aponto uma falha ao governo de Silva Mendes, a de ter deixado cair o projecto da Quinta da Saúde. Até hoje ainda mais ninguém foi capaz, a sério, de entender a Serra como o maior potencial da região de Portalegre!

O meu primo Martinho, governador civil, faleceu inesperadamente em 6 de Agosto de 1962, vitimado por um fulminante ataque cardíaco. Fiz parte do Conselho de Família que orientou o futuro dos seus dois filhos menores, António José e João Luís. O seu irmão deputado, o primo Luís, chegaria entretanto a subsecretário de Estado da Agricultura, cargo que exerceu com competência.

O meu grande amigo Carlos Caprichoso casaria com a Clara, em 1963, e eu com a Adrilete, no ano seguinte. Mantivemos e reforçámos a fraterna amizade que nos ligava, tornando-se ele mais tarde padrinho da nossa filha Paula Cristina. Mas perdemo-lo precocemente, vítima de um tumor cerebral, quando ele já se tornara um industrial hoteleiro de grande sucesso, em Lisboa. A morte do Carlos Alberto de Oliveira Caprichoso foi por mim sentida e chorada como a de um irmão de sangue.

Quanto ao tenente Vaz Serra, tendo casado em Portalegre, continuou a ser por lá um companheiro ocasional. Nos últimos anos, por duas ou três vezes nos temos encontrado num convívio regular de malta de Portalegre e relembramos esses tempos comuns. Quanto ao tenente António Afonso da Silva Vigário, meu comandante de pelotão, morreria combatendo em Angola, no dia 21 de Julho de 1964. Lamentei profundamente a sua perda.

Os três jornais que me acompanharam na gesta de 1961 também se extinguiram, embora por distintos motivos. De A Voz Portalegrense, O Distrito de Portalegre e A Rabeca ficaram os ecos de algumas época de glória e drama, cumplicidade e resistência, sobretudo em tempos do Estado Novo.

Apenas voltei a Mafra de raspão. Não me deixou saudades o período doloroso ali vivido. Agora, recordá-lo foi como o arranhar ritual de uma antiga cicatriz. Aqui e ali ainda doeu…

Orgulhosamente sós, politicamente, fomos sendo envolvidos no turbilhão das sucessivas guerras de independência nas nossas colónias. Nem vale a pena falar nisso, porque teria sido escusado.

Internamente, ainda que o diário não possa tê-lo contemplado, a noite derradeira de 1961 assistiu ao episódio da dramática tentativa de revolta militar no quartel de Beja, onde foi abatido a tiro um membro do Governo. 

mil novecentos e sessenta e um, o ano que quase colocou o país de pernas para o ar – assim lhe chamei. Foi há mais de meio século mas a memória não me atraiçoou, porque me lembro bem de que eu próprio pratiquei, então, não sei quantos pinos e outras tantas cambalhotas.

Mas fiquei sempre em pé e de cabeça para cima.

António Martinó de Azevedo Coutinho

PS – Como recordação final de mil novecentos e sessenta e um, aqui fica a reprodução de duas páginas quase “históricas” sobre a Portalegre desses tempos. Trata-se de uma edição do saudoso diário O Século, de 15 de Agosto de 1961.
Projectava-se então uma cidade que não aconteceu.
Afinal foi esta que ficou de pernas para o ar.
Até hoje…

0-portalegre-1961-a-copia0-portalegre-1961-b-copia

One thought on “mil novecentos e sessenta e um e finalmente.

  1. Parabéns pela forma lúcida e expressiva como estes pedaços de historio nos são oferecidos.
    Um pedaço de história que envolve de forma simples mas sábia, história de um país, história de uma cidade e história do próprio e de alguns familiares e amigos.
    Por último uma interrogação: como foi possível passar de uma cidade industrializada para o atual estado de paragem no tempo?
    Joaquim Chagas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s