A banalização do horror

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Quando há escassos dias o Diário de Notícias quase pediu desculpa por publicar a fotografia do jovem Mohammed Shohaet, de bruços, afogado num charco de lama, imediatamente me ocorreram dois pensamentos quase contraditórios.

O primeiro, instantâneo, foi o de que a ética jornalística não se esgotou. Somos confrontados, no quotidiano, com evidentes exemplos de despudor informativo explicitamente patente em alguns órgãos da imprensa nacional. Nem preciso de repetir, aqui e agora, a revolta que me causa a especulação meramente comercial que leva alguns jornais à deliberada escolha dos temas, dos títulos e das imagens mais chocantes para vender, apenas para vender.

O Diário de Notícias segue uma linha editorial pautada pela decência. Ao classificar a fotografia como chocante diz tudo. Ao reconhecer que, mesmo assim, sente obrigação moral de a divulgar o jornal aceita o elevado preço da pedagogia nela implícita. E daqui decorre o outro meu mais preocupante pensamento.

É que receio a banalização do horror.

Entre o Aylan Kurdi, afogado em Setembro de 2015 numa praia turca, e o Mohammed Shohayet, afogado em Janeiro de 2017 num rio birmanês, há um universo de indizíveis laços que os liga no tempo e no espaço. Todo o drama da crise dos refugiados, em qualquer época e em qualquer lugar, está ali patente nas imagens de dois inocentes que são, apenas, um exemplo. Há milhares, largos milhares, de Aylans e de Mohammeds.

As imagens são um símbolo e pouco mais. Incomodam no momento e depois passam… A nossa simples aceitação de uma instantânea repulsa é o sinal da vulgaridade pessoal que assumimos enquanto espectadores. O que deve preocupar-nos é a nossa responsabilidade enquanto seres humanos, perante a tragédia que aconteceu àquela gente cujo destino está a ser traçado por terem nascido no sítio errado e num época inconveniente. Podia ter-nos acontecido, na incontrolável lotaria  universal, esse azar.

Aylan e Mohammed poderiam ser nossos filhos.

O horror daquelas imagens que chocam poderia ter sido o da nossa própria realidade. Vivida a sério.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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