Nos 75 anos do regresso de um herói – 02

19-jac-75

Na sessão de 21 de Janeiro de 1942, o presidente da Assembleia Nacional informara os parlamentares que se encontravam na mesa diversos decretos-leis para ratificação e as contas gerais da Junta de Crédito Público referentes a 1940. O deputado Sr. Dr. Vasco Borges pede a palavra, que lhe é concedida. Declara então o orador que vai apresentar o projecto de lei que lerá de seguida, com verdadeira e justificada emoção:

A Marinha de Guerra Portuguesa ostenta nos seus navios esta velha legenda:

A Pátria honrai que a Pátria vos contempla!

João de Azevedo Coutinho pertenceu à Armada e, enquanto marinheiro, serviu e honrou a Pátria como a bem poucos tem sido dado servi-la e honrá-la. A Nação, agradecida e nesta hora, como sempre, altiva e zelosa do Império Colonial que ele, com sacrifício do seu sangue e da sua carne, e o seu heroísmo inexcedível, ajudou a engrandecer e firmar, deseja, por isso, que o pacificador insigne da Zambézia volte a envergar a gloriosa farda dos marinheiros de Portugal.21-vasco_borges-1

E, assim, tenho a honra de enviar para a Mesa o seguinte projecto de lei:

Artigo único – É concedida, a título honorário, ao ex-oficial da Armada João António de Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, a patente de vice-almirante“.

Das bancadas sobem espontâneas vozes de apoio e de aplauso e a proposta, aceite, sobe para apreciação por parte da Câmara Corporativa.

No dia seguinte, o Diário de Lisboa publica um crónica alusiva, onde se pode ler:

Escusado é dizer que estamos de acordo. Mal conhecemos o ilustre português que serviu a Pátria, sem pedir a conta dos seus duros trabalhos. Em todo o caso, a dívida existe; se ele não estende a mão para a receber, visto ser nobre por instinto, cabe-nos a nós a obrigação moral e patriótica de a pagar, com o dever à altura da honra. O antigo oficial da nossa Armada andou por terras de África, cobrindo de glória o seu nome e todo o nome português.

A política um dia levou-o a uma grave resolução – separar-se da sua farda. Sofreu muito com isso, porque deixava a carreira que era todo o seu orgulho – o seu vasto campo de acção.com o tempo, as paixões acalmaram, sem destruir as convicções firmes.

João de Azevedo Coutinho continua monárquico, tantos, tantíssimos outros mantêm-se republicanos, de antes quebrar que torcer – fiéis às ideias da sua mocidade. Adversários, batem-se sem ódios nem rancores.

Como o amor da Pátria não é um privilégio de ninguém, mas uma virtude comum, não tem Portugal mais que um sentimento e uma opinião, quando se trata de dizer a João de Azevedo Coutinho:

– Pela grandeza que conquistaste, a gratidão que mereces“.

O jornal Correio de Portalegre, fazendo-se eco do seu colega da capital, A Voz, divulga a boa nova na região do Norte Alentejano através do seu número 17, I ano, em 4 de Fevereiro:

Conselheiro Azevedo Coutinho

O Sr. Dr. Vasco Borges propôs ontem na Assembleia Nacional que ao glorioso marinheiro João de Azevedo Coutinho, um dos construtores do Império português, seja concedida a patente de vice-almirante.21-manuel_ortins_de_bettencourt-1

Honra-se o Estado português, honra-se a Armada com este acto de justíssima homenagem ao herói da Zambézia, que o Parlamento um dia declarou ‘benemérito da Pátria’.

“Restituir a farda a quem tão bem soube honrá-la, além de acto de justiça, é homenagem, que não atinge somente o homenageado, mas ainda a própria Armada em que serviu” – escreveu o Sr. Ministro da Marinha, Ortins de Bettencourt, ao Sr. Dr. Vasco Borges.

Na verdade, Azevedo Coutinho é um desses homens extraordinários que honram a sua Pátria com a vida heróica e generosa que levaram ao serviço da Nação, desses homens que fazem parte do património moral dos povos. As honras que se lhes tributam revertem para a Comunidade, como a luz que se faz incidir sobre as estátuas dos heróis, que devolvem à cidade o clarão que recebem”.

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