1917 – há cem anos – dez

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O trajecto até à zona de operações, na Flandres francesa, vai ser efectuado pelo caminho de ferro. O itinerário Brest, Morlaix, Saint Brieve, Rennes, Laval, Caen, Rouen, Amiens, Abbeville, Étaples, Boulogne-sur-Mer, Saint Omer, Aire-sur-la-Lys, num total de 853 quilómetros, cumpridos em 3 intermináveis dias, será efectuado no início desse gelado mês de Fevereiro de 1917, em pleno rigor de um inverno a que os portugueses não estavam minimamente habituados. Basta lembrar que as temperaturas verificadas durante a viagem atingiram os 20º negativos!

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O sector que é entregue ao C. E. P. localiza-se no Sul da Flandres, precisamente no vale do rio Lys, entre Armentière a La Bassée e Merville a Bethune, estendendo-se por uma longa frente, que oscilará entre uma dimensão máxima de 11 Km e uma mínima de 4 Km, de acordo com a evolução e as incidências da campanha militar em curso.

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Os futuros combatentes são acolhidos por uma Proclamação dirigida pelo Serviço da República ao Corpo Expedicionário Português, assinada pelo seu comandante, general Fernando Tamagnini. A “guerra psicológica” instalava-se…

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Outras publicações fundamentais esperavam os combatentes. Com o respectivo equipamento, um cartão anexo (S. S. 535. P.) intitulado “A Defeza contra o Gaz“, recomendando expressamente que seja guardado na caderneta: “Lembre-se que, com excepção das suas armas, não há nada mais importante que o seu Respirador e Capuz. Conserve-os, pois, em perfeita condição. A SEGURANÇA DA SUA VIDA PODERÁ DEPENDER D’ELLES.” Numa edição de Lisboa, Imprensa Nacional, 1916, já encimada pelo “endereço” Corpo Expedicionário Português – Quartel General, o volume “Notas sobre a Guerra de Trincheira” ostentava na capa, em caixa destacada, um claro aviso: “Publicação reservada. É expressamente proibido divulgar à imprensa ou a qualquer indivíduo estranho ao exército as informações contidas neste livro. Igualmente não é permitido levá-lo para as trincheiras, a fim de evitar a sua apreensão pelo inimigo. Finalmente, numa edição de “Army Printing and Stationery Services” (a mesma do cartão anti-gás), há ainda um caderno intitulado “Extratos das Ordens de Execução Permanente distribuídas aos Exércitos  Britânicos em França“, pelo General Sir Douglas Haig, datado de Grande Quartel General, 31 de Dezembro de 1916. É interessantíssimo o conteúdo desta brochura com 40 densas páginas recheadas da mais diversa informação sobre aeroplanos, disciplina, censura, higiene, reclamações, serviço postal, aboletamento, transportes, informações, relações com o inimigo, etc.10-4-gas

No dia 1 de Fevereiro de 1917, “O Distrito de Portalegre” divulga a realização de missas dedicadas aos expedicionários, todos os sábados em S. Tiago e todos os domingos na Sé Catedral, “endereçando fervorosas preces à excelsa padroeira dos portugueses, pedindo o seu amparo para os nossos bravos soldados que marcham para a guerra“.

Entre José Cândido e a sua filha Benvinda vai então iniciar-se uma longa troca epistolar, de que o episódio de Tancos fora um simples prelúdio. Quase sempre envolvendo postais ilustrados, estes constituirão um fascinante conjunto de diversos temas onde a guerra assume natural predominância. Para além dos enviados por si da “frente”, o pai fornecerá à filha algumas outras colecções de bilhetes ilustrados que esta lhe irá devolver, devidamente preenchidos, numa sequência que se vai prolongar por tempos de paz…

O espólio que integra a correspondência enviada de França está quase completo, com algumas centenas de postais (cerca de 500), pois jornadas houve em que José Cândido repartiu os seus registos (quase quotidianos) por dois, três, quatro e até cinco desses bilhetes! Quanto às cartas e postais enviados de Portalegre por Benvinda, já o balanço não se revelará tão exacto, pois por diversas vezes as incidências do conflito produziram estragos e extravios no património acumulado em França por José Cândido.

A seguir se reproduzirá, mês a mês, a relação cronológica dos excertos considerados mais interessantes, sob os diversos e complementares pontos de vista desta relação epistolar entre um pai e uma filha preocupados com a dramática situação que vivem. Porque José Cândido permanentemente se procura manter informado sobre o que se passa em Portalegre e em Portugal, vai receber em França “O Século” e “A Plebe“, garantindo também as assinaturas das revistas e outras publicações de índole musical a que se tinha habituado, as quais continuarão a chegar à sua residência.

Na relação cronológica que se seguirá, procurou-se respeitar uma sequência tão rigorosa quanto foi possível, reproduzindo a ordem e o ritmo intercalares que teriam sido vividos por José Cândido, não só como emissor mas, também, como receptor de correspondência. Não se fará referência aos exemplares postais donde não conste qualquer conteúdo considerado relevante, à luz dos critérios seleccionados: relação pai/filha, nomeadamente sobre os estudos e a saúde, a vida quotidiana em Portalegre e em Portugal, comentários sobre a França, a Guerra, a Música, a política, as pessoas, os costumes e os factos.

Alguns apontamentos, datados, das “histórias” paralelas de Portalegre e suas gentes, da Guerra, do País e do Mundo pontuarão os registos epistolares.

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