Nos 75 anos do regresso de um herói – 04

19-jac-75

Para obra de tal  monta, de pouco se dispunha, além do muito que era a coragem dos homens. Deu-lhe Coutinho a valentia e toda a resistência da sua juventude, a decisão segura e a prudência do seu carácter forte, o bem senso e o saber, e, além do mais, a modéstia e a bondade que tanto o impuseram a amigos e inimigos.

Dele disse Serpa Pinto em relatório enviado ao Ministro:

… sendo rigorosíssimo no castigo e fazendo-se amar de tal modo dos pretos que qualquer arrisca a sua vida por ele. Eu atrevo-me a chamar a atenção de V. Ex.ª para este heróico oficial, que tem apenas vinte e quatro anos de idade.

E, sobre a tomada de Chilomo, informou nestes termos:

Serviu debaixo das minhas ordens o tenente da armada real João de Azevedo Coutinho; se todos os oficiais que tive a honra de comandar foram dignos de elogio, nenhum se igualou ao tenente Coutinho em bravura e coragem. À frente da tripulação do vapor Cherim tomou a povoação fortificada de Chilomo, que era defendida por quatro mil macololos, pondo-os em debandada completa. A ele confiei o comando de uma coluna que submeteu o país até às cataratas, missão que desempenhou com a sua habitual coragem  e ainda com prudência superior a todo o elogio, porque conseguiu pacificar o país, convertendo os vencidos em amigos.

Só inteiro desinteresse de si próprio e inexcedível devoção ao serviço da Pátria podiam permitir levar a cabo quanto Coutinho fez em Moçambique. Nele concorreram, no mais alto grau, os grandes predicados dos que primeiro entraram no sertão africano e o desbravaram, cujo entusiasmo não era de ceder às privações e a quem o saber das coisas e dos mistérios de África dava força e prestígio para lutar e vencer.

Desse saber se armou em todas as campanhas; não menos que a bravura lhe serviu uma visão equilibrada e clara.

Sobre o ataque a Mafunda, em que, mal ferido já, seguia combatendo, escreveu Aires de Ornelas:

… experimenta-se um profundo sentimento de respeito por tamanha energia. Não fica mal mesmo se a compararmos à de D. Lourenço de Almeida, sentado no chapitéu da nau, com as pernas partidas e comandando tranquilamente o combate naval contra os rumes.

Mas o militar esforçado e valoroso das guerras da Zambézia não só em Moçambique vincou a sua acção. A pouca permanência por Angola não impediu que firmasse domínio entre povos do Zaire. Nem na vida do mar faltou a evidência, em provas repetidas do seu ser animoso e pleno de recursos.

E não se vá esquecer, por ver o militar, como continuou em seus governos a obra que pelas armas encetara. Fala Mouzinho do seu forte prestígio quando por duas vezes governou a Zambézia. Governador Geral e mais tarde Ministro, juntou por seu saber sucessos novos aos muitos conquistados, dos combates do Chire à campanha do Barué.

Não há que provar a justiça do projecto. Atestam-na os chefes junto de quem serviu Azevedo Coutinho e o apreço do Rei, do Povo e do Governo por quem com tal denodo soube servir a Pátria.

Informa este parecer a folha dos serviços que prestou. Não há comentário a acrescentar. O ilustre Ministro da Marinha, com sua autoridade, assim julgou também quando escreveu a carta que vem junta ao projecto.

Com promulgar a lei se enaltece a Nação. E com distinguir o heróico marinheiro se dignifica a Armada, por ser ele um dos seus, e porque se escolheu, para distinção, restituir-lhe a farda da Marinha.

Também, como o Ministro, a Câmara Corporativa, dando parecer favorável ao projecto, o faz com caloroso aplauso.

Palácio de S. Bento e Sala das Sessões da Secção de Defesa Nacional, 10 de Fevereiro de 1942.

Eduardo Augusto Marques (general)
João Baptista de Almeida Arez (general)
José de Almada (D.)
José Filipe de Barros Rodrigues (coronel)
Vasco Lopes Alves(capitão de mar e guerra) relator.”

A carta do ministro da Marinha, Ortins de Bettencourt, citada no parecer, é do seguinte teor:

Ex.mo Sr. Dr. Vasco Borges, ilustre deputado:

– Estou certo de que a Armada Portuguesa, orgulhosa de ter contribuído para a formação e consolidação do Império, verá com satisfação reaparecer na lista dos seus oficiais o nome glorioso de João de Azevedo Coutinho que, mercê de altos feitos praticados em terras de África foi então proclamado Benemérito da Pátria.

Restituir a farda a quem tão bem soube honrá-la, além de acto de justiça, é homenagem que não atinge somente o homem mas ainda a própria Armada em que serviu e que agora é meio através do qual a Nação procura distingui-lo.

Por mim, se em vez de ser Ministro ocupasse neste momento a minha cadeira de deputado, daria à proposta de V. Ex.ª não apenas o meu voto mas caloroso aplauso.

De V., etc.                                          20-1-942               

a) Ortins de Bettencourt

parecer-11-fev-42-b

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