largo dos correios

09-saudade-a

Tenho a sorte, cada vez mais rara, de uma família inexcedível em carinho e de amigos pródigos em manifestação da mais autêntica e reconfortante solidariedade. Se à família me dispenso de agradecer, já aos amigos devo aqui confirmar o profundo sentimento de gratidão a todos devido. É-me impossível dirigir a cada um, em particular, o testemunho pessoal de quanto tem sido para mim significativo senti-lo ao meu lado. Por isso, aqui fica o registo do íntimo reconhecimento aos que, presentes, me falaram de viva voz, me telefonaram e enviaram mensagens pelo telemóvel ou pelas diversas modalidades informáticas a isso vocacionadas.
Conheço, infelizmente, a receita pessoal que permite resistir (ou sobreviver!?) à inenarrável adversidade de perder alguém que se ama. Aplico-a em permanência desde há muito e isso explica o que a alguns pode surpreender. Quando exijo de mim, em projectos ou em sonhos, uma aplicação quase sem limites e a ocupação motivada do tempo útil e da energia disponível, praticamente na totalidade, deixo muito pouco espaço ou energia sobrantes para a memória que desgasta e para a lembrança que dói até ao indizível. Sinto, porém, que a receita experimentada não está agora a funcionar. Iludi-me, ou fingi-o, durante alguns dias, numa falsa e fácil aparência…
O blog Largo dos Correios nasceu nos domínios dessa estratégia pessoal. A sua mais recente continuidade cumpriu os prévios desígnios traçados, até quando por amor deixámos o querido torrão natal e emigrámos para estas terras, belas, dominadas pelo mar, como uma espécie de prolongamento pessoal, sobretudo, da minha circunstância e das suas incidências. Mas, antes de comunicar através dele com os outros, preciso agora de comunicar comigo próprio, de tentar arrumar em mim mesmo a tremenda confusão de sentimentos que me domina, de ensaiar o preenchimento dos vazios que me assustam, de aceitar, afinal, o irremediável, brutalmente definitivo. Ninguém, nisto, me pode valer.
Devo por isso interromper o passeio quotidiano pelo Largo dos Correios. Tenho de parar, ainda que tal pareça contraditório. Um dia voltarei aqui ao vosso convívio – eis a promessa que quero cumprir, o mais cedo possível.
Obrigado a todos, os que quiserem ou puderem esperar.

António Martinó de Azevedo Coutinho

6 thoughts on “largo dos correios

    • Foi com grande pesar que recebi a triste notícia. Recordarei a Adrilete como sempre a conheci e estou com o Martinó, na sua dor. A escrita vai ajudá-lo. Um beijinho para o Tó Zé e um grande abraço, desta amiga, para si. Maria Margarida Romão

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