Nos 75 anos do regresso de um herói – 05

Inesperadamente, a 17 de Fevereiro de 1942, morre o deputado Dr. Vasco Borges, cujo último grande gesto parlamentar fora a apresentação da proposta de reintegração de João de Azevedo Coutinho na Armada. O Diário de Lisboa do dia seguinte, com uma destacada referência ao infausto e brutal desenlace, cita palavras do próprio:

Se conseguir isto, eu que tanto admiro o valente soldado de África, reputar-me-ei bem pago de quantos dissabores tenho sofrido”.

No dia 20 deste mês, João Coutinho torna a abordar a ida de D. Duarte ao Brasil e, a 25, como presidente da Sociedade de Geografia -cargo que será reafirmado por novo mandato a partir de 21 de Março desse mesmo ano de 1942-, comunica que a Direcção daquela instituição vai reunir nesse dia para se ocupar da violação dos nossos direitos de soberania em Timor.

De facto, no outro extremo do mundo onde se falava e ainda fala o português, o exército imperial japonês bombardeara e invadira o território de Timor-Leste, provocando inúmeras vítimas entre os seus habitantes. Os cuidados prévios de australianos e holandeses de nada tinham servido. Eram os “efeitos secundários” da II Guerra Mundial a atingir-nos…

No dia 21 de Fevereiro de 1942, a sessão da Assembleia Nacional é dedicada a vários temas, como estes acontecimentos de Timor, a situação económico-social da Madeira, a necessidade de uma eficaz protecção à Família, ao estado de abandono em que se encontra a sepultura de Alves Roçadas e a morosidade com que algumas repartições oficiais fornecem esclarecimentos requeridos por deputados.

A “ordem do dia” abre depois com a discussão do projecto de lei da autoria do malogrado parlamentar Dr. Vasco Borges sobre a concessão, a título honorário, da patente de vice-almirante a João de Azevedo Coutinho.

Usando da palavra, o Sr. comandante Álvaro de Freitas Morna prestou homenagem à memória do autor do projecto, lamentando que a sua iniciativa não fosse por ele justificada, como era merecido.

Depois, louvou a proposta com evidente e explícito apoio da assembleia de parlamentares. E disse, entre outras afirmações:

É preciso ler-se a folha gloriosa de serviços, como outra não houve, por certo, maior nem mais bela na história da Marinha e meditar na série contínua de triunfos que é toda a sua vida de oficial – a campanha do Chire e a do M’lolo, as do Barué, Namarrais, Zambézia, Maganja da Costa e tantas mais!

Os honrosíssimos louvores, as mais altas condecorações a atestarem-lhe a invulgar personalidade, devotados sacrifícios, heroicidade!

Cobrem-lhe o peito, entre tantas da maior valia, a medalha de ouro de serviços distintos e relevantes no Ultramar, em campanha, e a medalha de ouro do valor militar. Bem diz a digna Câmara Corporativa, no seu primoroso parecer: Azevedo Coutinho foi verdadeiramente um dos construtores da História Nacional”.

Em virtude do adiantado da hora, e tendo desistido por isso da palavra os Srs. Drs. Juvenal de Araújo e António de Almeida, foi o debate dado por concluído a requerimento do Sr. Dr. Ângelo César.

O presidente pôs o artigo único a votação, que foi feita solenemente de pé e por unanimidade.

Para além da ampla e justa divulgação que toda a grande imprensa nacional logicamente dedicou ao assunto, com reportagens e crónicas alusivas, destaque-se a repercussão sentida pelas terras de origem de Azevedo Coutinho.

O jornal Correio de Portalegre, na sua edição de 25 de Fevereiro de 1942, insere uma curta mas significativa nota:

Conselheiro Azevedo Coutinho

É jubilosamente que Correio de Portalegre se associa à justíssima homenagem prestada pela Assembleia Nacional a essa grande figura de português, ao benemérito da Pátria, ao construtor de história que é João de Azevedo Coutinho.
De facto não se admitia que uma das mais gloriosas figuras, entre as de todos os tempos, da nossa Armada, a ela não pertencesse.
Justíssima foi, pois, a resolução da Assembleia e como português e filho de Portalegre, terra a que João de Azevedo Coutinho está ligado por fortes laços, a aplaudimos”.

O Distrito de Portalegre, que sempre se distinguira pela atenção prestada a João de Azevedo Coutinho mantém-se estranhamente mudo em toda esta feliz circunstância…

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