DÉJÀ VU

Uma intervenção, considerada como acto artístico, destruiu ritualmente sete embarcações de pesca artesanal na sala oval do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, em Lisboa.

Foi na passada quarta-feira, há precisamente uma semana. A iniciativa pertenceu ao artista plástico mexicano Héctor Zamora e contou com 30 trabalhadores negros, fardados com macacos cinzentos e alvos capacetes. A frenética actividade destruidora durou duas horas e foi aplaudida pelo público presente. Por qualquer motivo que me escapa, o trabalho foi baptizado de Ordem e Progresso.

Como “explicação”, terá confidenciado o autor da ideia que aquele trabalho é arte e que acha mais bonitas as ruínas do que os farrapos, embora os farrapos sejam bonitos. Uma outra opinião publicamente divulgada, acrescentou que aquilo foi como aplicar o óleo na tela, sendo preciso que as técnicas e os procedimentos estivessem adaptados à matriz conceptual do trabalho. Foi necessário pensar seriamente em tudo e ao detalhe. O cheiro a madeira e a petróleo assim como toda a perfomance foram as componentes sensoriais, onde houve um batimento, quase uma música…

Foi a terceira vez que Héctor Zamora levou a cabo uma obra similar. A primeira vez foi em Lima, no Peru, em 2012. Então usou apenas um barco, destruído no centro da cidade por 8 trabalhadores, durante 12 dias.

Em 2016, repetiu a iniciativa no Palais de Tokio, em Paris, usando então vários barcos.

Comecei a perceber quase tudo quando meditei mais seriamente nas suas motivações de natureza política, social e cultural. Ao que parece, para além de toda a discutível parafernália “artística”, há  qualquer coisa bem mais séria. Em Lima, tratou-se de um protesto contra o abate de barcos de pesca artesanal depois do governo peruano assinar um acordo de pesca industrial com os EUA e o Japão. Em Paris, onde a equipa foi toda negra, pretendeu-se evocar os recentes e dramáticos desastres migratórios.

Agora, em Portugal, foi muito difícil reunir barcos para abater. É que, quando entrámos na Comunidade Europeia e nos subordinámos às suas imposições económicas, fizemos isso aos nossos barcos e tractores…

Passei então a achar muito mais coerente a metáfora. Porém, aquela “escultura” sobrante, feita de destroços, não é novidade.

Há umas décadas, um tipo que nos desgovernou e que agora anda por aí a espalhar memórias “escavacou” os nossos barcos pesqueiros. E foram muitos mais, sem qualquer perfomance artística e espectacular envolvente. Com custos pesados que ainda pagamos… e pagaremos.

Em conclusão, Héctor Zamora não foi nada original.
E quanto a reflexão colectiva estamos conversados.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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