Nos 75 anos do regresso de um herói – 06

Uma das raras entrevistas que João de Azevedo Coutinho concede em toda a sua longa vida é agora apresentada nas páginas do Diário de Lisboa. Foi no dia 27 de Fevereiro de 1942 e, pelo seu interesse, a seguir se transcreve:

 UM MARINHEIRO E SOLDADO DE ÁFRICA
JOÃO DE AZEVEDO COUTINHO, Benemérito da Pátria aos 24 anos,
falou-nos a propósito da sua promoção a vice-almirante honorário

João de Azevedo Coutinho está na “ordem do dia”. Lugar-tenente de D. Manuel II, é hoje o representante do descendente varão dos Braganças – o príncipe D. Duarte, actualmente na Suíça. Publicou um grande livro com este título eloquente na sua simplicidade: “Memórias de um velho marinheiro e soldado de África”. E, há pouco tempo, o Dr. Vasco Borges lançou no “Diário de Lisboa” e propôs na Assembleia Nacional a ideia da sua reintegração na Armada que tanto honrou e da sua promoção a “vice-almirante honorário” que não pode defender devido à sua morte prematura. Coube essa honrosa tarefa a um ilustre oficial da nossa Marinha: o comandante Álvaro de Freitas Morna, há pouco nomeado governador geral de Angola.

João de Azevedo Coutinho é agora o português que mais autorizadamente pode representar o passado, o presente – e quem sabe se o futuro? Soldado desde os 15 anos de idade, “benemérito da Pátria” proclamado oficialmente aos 24, herói de África, governador geral de Moçambique, duas vezes ministro da Marinha e do Ultramar, colonial distinto, chefe político que tudo arriscou, representante de dois príncipes – conseguiu obter a unanimidade dos votos da Assembleia Nacional e das opiniões dos portugueses.

O “Diário de Lisboa” – que se honra de ter sido o jornal em que tão interessante e justificada ideia foi lançada – quis recolher nas suas colunas as impressões do heróico militar.

João de Azevedo Coutinho recebeu-nos no seu gabinete da Companhia do Comércio de Moçambique, com um sorriso:

  Que hei-de dizer-lhe? Que fiquei muito satisfeito – e que não esperava…

E veio a história do acontecimento:

– Conheci o Dr. Vasco Borges quando ele era ministro dos Negócios Estrangeiros e eu senador monárquico, com D. Tomás de Vilhena, o conde de Nova Goa e outros amigos queridos. Falei várias vezes do Império Britânico, afirmando a minha convicção de que, independentemente de qualquer outro acontecimento de ordem exterior, a sua unidade e a sua conservação dependiam da sua monarquia. Ocupei-me várias vezes, com conhecimento de causa, da África do Sul e das suas relações com Portugal. O Dr. Vasco Borges, como ministro, ouviu-me sempre com atenção – e daí nasceram as nossas relações. Quando publiquei o meu livro “Memórias de um velho marinheiro e soldado de África”, enviei-lhe um exemplar. E creio que foi a leitura do meu trabalho que lhe inspirou o artigo no “Diário de Lisboa” e o projecto de lei, apresentado à Assembleia. Infelizmente, a sua morte não lhe permitiu ver a sua ideia realizada. Quanto ao meu ilustre camarada Freitas Morna, ainda não consegui, apesar dos meus esforços, agradecer-lhe as suas carinhosas palavras. Que fique registado no seu jornal o meu agradecimento, bem como a manifestação da minha esperança de que as suas altas qualidades lhe permitam realizar em Angola uma obra notável – a obra necessária- depois da que o Dr. Marques Mano tão brilhantemente iniciou.

E explicou a razão porque não conseguiu ainda avistar-se com o Sr. comandante Morna:

– É que eu não posso subir escadas. A cabeça, porém, ainda regula bem, graças a Deus. E eu faço o possível por durar o maior número de anos. Nisso, estou com o saudoso conde de Bretiandos: “Como católico, desejo ir para o céu -mas o mais tarde possível…”.

João de Azevedo Coutinho recebeu uma interessante carta do Sr. almirante Almeida Henriques, que foi comandante dos submersíveis, a propósito do seu livro, na qual o saúda como o ministro da Marinha que mandou construir o primeiro submarino português: o “Espadarte”.

Falando sobre este assunto, Azevedo Coutinho disse, modestamente, que, como ministro, se limitou a fazer o que lhe aconselhou um grande técnico: Morais e Sousa. E recordou um sonho – que disso não passou:

– Como nação colonial, Portugal necessitava duma boa Armada. Quis construí-la com o produto duma “cédula pessoal” (como muito mais tarde se criou em Espanha). Mas o tempo era pouco para tricas políticas e antes que eu pudesse efectivar tal propósito… caiu o governo.

– Como nasceu a ideia da publicação do seu trabalho?

– Em casa do Dr. Oliveira Salazar, após um jantar em honra dos professores da Universidade de Oxford, o Dr. Marcello Caetano sugeriu-me a publicação dum livro com os artigos insertos na revista “O Mundo Português” e outros elementos que pudessem ter curiosidade. Estava presente Júlio Cayolla, que manifestou grande interesse pelo assunto, mas que nada pode resolver, devido a ter de partir para o Brasil. Foi Artur Brandão – membro do Conselho de Administração da Companhia de Moçambique, a que tenho a honra de presidir – que tomou a iniciativa da edição que obteve um êxito que eu não esperava.

É interessante recordar a ida do nosso entrevistado para Moçambique, em 1884:

– Eu tinha 19 anos. E nessa altura não havia jovem oficial que não desejasse ir a Macau – que era um verdadeiro sonho, com os seus aspectos orientais, as suas comodidades, as suas simples comissões de serviço a Timor, a Xangai, a Singapura… Ao ser nomeado para Moçambique, pedi ao ministro da Marinha e Ultramar, Manuel Pinheiro Chagas, para me enviar antes para Macau. O ministro respondeu-me que assim faria se eu insistisse, declarando-me, porém, que, para um oficial de 19 anos, deveria ser mais interessante seguir para Moçambique, onde se tornavam necessárias operações militares, devido a uma revolta que tinha custado a vida a um oficial português e aos seus três filhos “assados” diante do pai. Não hesitei e fui. No ano seguinte comandei em operações consideradas perigosas, dois iates à vela. E como cumpri o meu dever e tive sorte, a minha carreira foi rápida, de tal forma que vinte anos depois era governador geral de Moçambique.

À despedida, tratámos João de Azevedo Coutinho por “almirante”. E ele protestou:

– Julgamos que lhe assenta melhor este nome que o de “conselheiro”…

Resposta:

– Quando eu governava Moçambique determinei que só me tratassem por “governador”. Os militares obedeceram mas os civis continuaram a tratar-me por “conselheiro”. Que eu, na verdade, o que fui, toda a vida, foi soldado e marinheiro…

– Por isso, tem de aceitar: Muito boa tarde, Sr. almirante!”.

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