Velhos são os trapos mas os papéis não! – vinte e dois

Em 1947, vão setenta anos passados, foi editado entre nós um volume de 350 páginas dedicado ao futebol. A iniciativa pertenceu ao jornal A Bola e o autor foi um conhecido homem do desporto chamado Cândido de Oliveira.

O título era, e é, aliciante: Os Segredos do Futebol. O seu subtítulo esclarecia mais rigorosamente o conteúdo: Técnica do jogo * Aprendizagem e treino * Tática do jogo. Este termo “Tática” não corresponde a uma precoce subordinação ao actual e disparatado “acordo ortográfico”, pois foi uma gralha imperdoável que escapou às revisões. Todas as centenas de utilizações do termo que se encontram no volume estão correctamente grafadas: Táctica.

Esse livro é hoje uma relíquia e tenho por ele um especial carinho, pois adquiri-o e li-o com sofreguidão. Tinha então 12 anos e apenas jogava futebol com bola de trapos no pátio do velho Liceu. Jogava quando não havia mais ninguém disponível, porque o meu jeito para o jogo era, e é, praticamente nulo…

Em rápida conclusão, não lucrei com a leitura do livro, nada dele tendo absorvido de técnica, aprendizagem, treino ou táctica. A absoluta carência de qualquer vocação pessoal mínima para o pontapé na bola manter-me-ia como simples adepto -não praticante- do futebol e sobretudo do Sporting.

Porém, relendo hoje o livro, sou capaz de entender o seu pioneirismo, sobretudo no país atrasado que éramos nesses tempos do Estado Novo, no seio de um desporto-rei com real significado indígena, porém de modesta dimensão, limitados objectivos e escassos horizontes. Os conceitos e o pensamento dominante patentes na obra podem ser transpostos para a nossa actual realidade futebolística. Cândido de Oliveira, personalidade nacional marcante em diversos níveis de actuação cívica, cultural e desportiva, dispunha de um notável perfil de estudioso e divulgador do futebol em Portugal, assumindo-se como um autêntico investigador da modalidade. No duro contexto da ditadura que viveu, e contra a qual corajosamente lutou e sofreu, ele revelou sempre uma louvável preocupação desportiva aos mais diversos níveis, da prática à teorização.

Creio que nunca será excessivo relembrar a personalidade e a obra de Cândido de Oliveira, um norte alentejano de invulgar dimensão, projectadas num país que vivia então nas sombras de um regime autoritário e censório.

Entre muito material disponível escolhi dois textos que, com a devida vénia, aqui transcreverei. O primeiro é da autoria de Miguel Barros, retirado do seu interessante blog “Museu Virtual do Futebol”.

Virá a seguir…

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