Hergé, Tintin e a Medicina – um

A banda desenhada ganhou direitos de cidade. Hoje já se usa com tal naturalidade que quase ninguém estranha. Como Pessoa diria, a BD entranhou-se.

Como é óbvio, haverá sempre detractores do género, sobreviventes ainda de antigos tempos em que psiquiatras, professores, escritores e políticos se uniram em ferozes e santas cruzadas contra os quadradinhos, inimigos por excelência da sociedade e da moral pública. Mas já quase não contam, ainda que exijam ou mereçam alguma discreta “vigilância”.

Os sectores mais atentos, cultos e inteligentes da sociedade, entre os quais se contam alguns meios de comunicação e certas estruturas pedagógicas, defendem e usam a banda desenhada com absoluta naturalidade.

Nas últimas semanas assim aconteceu. A capa de um jornal diário e a divulgação científica empregaram a linguagem e a “mitologia” dos quadradinhos na transmissão de distintas notícias. Assim irá acontecer, invariavelmente, no vulgar quotidiano.

Há uns tempos, pela mão de amigos que partilham idêntico apreço pela BD, chegou-me mais um argumento, valioso argumento, em confirmação destas convicções. Trata-se de uma tese de doutoramento em Medicina, concretizada em 2015 na Universidade Complutense de Madrid. Foi seu autor o dr. Guillermo Álvarez Calatayud, médico pediatra especialista em gastroenterologia e nutrição, que exerce no Hospital Universitário de Moncloa e no Hospital Materno Infantil Gregório Marañon, além de ser presidente da Sociedad Española de Probiótica y Prebiótica. Foi orientador do trabalho da tese o catedrático Prof. D. Andrés Bodas Pinedo.

O tema da investigação e sua tese final foi Hergé, Tintin e a Medicina.

A metodologia utilizada é particularmente interessante, pois consistiu numa profunda análise observacional e numa revisão sistemática de todas as histórias que compõem a série As Aventuras de Tintin, a fim de daí serem destacados todos os eventos relacionados com aspectos da saúde, doença ou, genericamente, com o mundo da medicina.

Assim foram colectadas as seguintes variáveis principais: as doenças descritas ou referenciadas como situações de perda de consciência devidas a lesões ou outros motivos, os acidentes sofridos pelas personagens (lesões diversas, tráfego, queimaduras, intoxicação, afogamento, mordidas, picadas, explosões, tiroteios, ataques por animais, ferimentos por electricidade ou por corpos estranhos, etc.), os médicos que figuram (nomeados e não nomeados), pessoal e equipamentos de saúde, hospitais e instituições sanitárias, medicamentos e drogas, condições ambientais extremas (mar, espaço, deserto, frio ou calor excessivos…), alusões a medicinas primitivas e alternativas assim como à pseudociência, medicamentos naturais, aspectos relacionados com alimentação, hábitos de vida saudáveis, consumo ou referências a álcool e drogas, brinquedos e episódios de abuso de crianças, referências à morte, suicídios, estados fisiológicos (medo, lágrimas, risos…).

Foi aplicada particular ênfase ao estudo das três personagens principais, Tintin, Capitão Haddock e Milou, sempre respectivamente correlacionada com o álbum relativo aos episódios em causa. Para efeitos de uma melhor compreensão, os álbuns foram distribuídos por três grupos, de acordo com o ano em que foram elaborados: álbuns a preto e branco (1929-1941), álbuns da “Idade de Ouro” (1942-1953) e álbuns do período final (1954-2004).

A análise descritiva dos dados foi realizada utilizando frequências absolutas e percentagens segundo testes estatísticos para comparação das amostras independentes com as variáveis categóricas.

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