1917 – há 100 anos – catorze

14 de Março – “França. Ontem, depois da revista, houve exercício e quando chegámos tocou a música no pátio das escolas. A petizada dos dois sexos formou com os professores à frente e prestou toda a atenção ao que se executou, tendo gostado muito da música popular portuguesa“.

15 de Março – “ França. Com os bilhetes que te mandei de Tancos, com os que daqui já tenho remetido e com aqueles que ainda espero mandar, hás-de coleccioná-los para fazer um álbum, que não deverá ficar feio e que tu apreciarás daqui a alguns anos, e muito principalmente se tos puder explicar”.

8 de Março – Portalegre: “Também anteontem vi na Ilustração Portuguesa uma fotografia onde estava a Música do 22, o Papá lá estava entre eles, que eu conheci muito bem. Na terça feira estive, junto com o Avozinho e outros oficiais em casa do Sr. Alferes Fino, na ocasião em que ele ia partir para França; dei-lhe muitos beijos para ele entregar ao meu bom Papá. (…) O tempo tem estado muito invernoso“.

16 de Março – “França. A correspondência gasta 7 a 8 dias da França para Portugal. De lá para cá gastará o mesmo tempo. Diz ao Avozinho que guarde a Ilustração Portuguesa que publica a fotografia da Banda do 22. (…) Ainda cá não chegou o Alferes Fino. (…) Não quero que falte nada em casa; se o dinheiro não chegou manda dizer“.

17 de Março – “França. A secretaria do regimento está instalada no gabinete do professor da escola. Geralmente, ao serão, reunimo-nos na secretaria onde o professor aparece algumas vezes. Como é muito bonzinho  e gosta muito da pinga, oferecemos-lhe vinho, mas a certa altura fica como um órgão e principia então a dizer coisas muito interessantes e engraçadíssimas. É natural que brevemente tenhamos que sair. [Neste dia, J. C. desloca-se à vizinha vila de Coyecques]”.

No dia 18 de Março, o general Tamagnini, comandante em chefe do C. E. P., sai de Paris para o sector da frente de batalha, onde as nossas tropas se encontram ao lado dos Aliados.

A Rabeca em França” dá título a uma coluna no jornal portalegrense nesse mesmo 18 de Março: “Temos recebido muitas cartas e postais dos nossos prezados compatriotas, a que não temos dado publicidade por absoluta falta de espaço. A seguir publicamos uma dessas cartas e nos próximos números continuaremos a publicação das demais cartas. ‘França, 3/3.º/917. Meus caros amigos. Estimo que estejam bons. Eu e todos os rapazes amigos vamos de perfeita saúde. Francesas muitas, boas e muito amáveis. Novidades nenhumas lhes posso dar, porque a D. Censura não deixa. E por aí, há muitas?(*) … Coto’

Da Redacção – (*) Por aqui há muitas, mas… cá e lá, más fadas há; o que, trocado por miúdos, quer dizer que a comadre Censura também não nos deixa piar, porque… Etc.

18 de Março – “França. Continuo bem e tudo vai decorrendo o melhor possível, apesar dos meus artistas continuarem a dar-me que fazer. Ontem houve uma pequena festa a fim de solenizar o nascimento dum menino do tenente Maltez. Tenho notado que as mulheres francesas, mesmo de condição humilde, são ilustradas e sobretudo muito inteligentes; com uma palavra acompanhada dum simples gesto compreendem aquilo que para a maioria das mulheres portuguesas seria necessário gastar centenas de palavras. As crianças são muito bem educadas. O Joaquim tem estado doente, devido às vacinas; desanima como qualquer. O meu sub-chefe desmaiou quando foi vacinado. Hás de dizer à D. Ema que o alferes Pereira já tem pau novo e lanças para a bandeira. Hoje também tivemos festa, no nosso acantonamento, feita em honra da nossa bandeira“.

19 de Março – “França. Ontem, quando nos íamos sentar à mesa para o jantar, ouvi grande algazarra na rua; cheguei à janela e pareceu-me estar vendo o desfile duma mascarada. Uns doze ou quinze pares com umas toiletes e chapéus muito estapafúrdios encaminhavam-se para a Mairie. À frente caminhava a noiva dando o braço a um velhote que por procuração representava um soldado que se encontra nas trincheiras. Na Mairie ainda não tinham a papelada em ordem, de maneira que os noivos e convidados vieram para o nosso estaminet e abancaram a uma mesa ao lado da nossa e desatou tudo a beber cerveja e fazer brindes até que os vieram chamar, já noite cerrada, para realizarem o acto civil, que teve lugar na escola, onde o professor já os esperava com uma grande grossura“.

20 de Março – “França. Foi ontem o 1.º dia de vento que tive em França“.

21 de Março – (dois postais) “França. Cheguei bem apesar de ter apanhado bastante neve. No dia de Primavera fiquei na Villa das flores”; “França. Há três dias que tem havido um grande temporal; chuva, vento e frio não têm faltado. (…) O Joaquim piorou; tem estado muito mal com a tal vacina. O alferes Fino ainda não apareceu, apesar de já terem chegado muitos oficiais para o regimento“.

One thought on “1917 – há 100 anos – catorze

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s