Velhos são os trapos mas os papéis não! – vinte e quatro

Um Homem do Futebol é a frase mais correcta que encontramos para, em três palavras, definir Cândido de Oliveira – com a mesma simplicidade que ele adoptou como seu estatuto de vida, iniciada nos bancos da Casa Pia de Lisboa, com a bola a brincar nos seus pés a todas as horas do recreio, até ao trágico desenlace final, a morte, quando, já bem identificado com o desporto que sempre amou, fazia a cobertura para o seu jornal “A Bola” do Mundial 58, na Suécia.

Nesse longo espaço de 72 anos de vida, abruptamente interrompida, Cândido de Oliveira, a par de outras actividades profissionais, esteve sempre ligado ao futebol, primeiro como jogador, sendo internacional e capitão da primeira selecção de Portugal, em 1921, depois como jornalista, dirigente, seleccionador e treinador, em todas essas missões com muita competência e enorme prestígio, assentando-lhe, como uma luva, ser tratado por “Mestre Cândido”, pois era assim que todos viam e justamente o reconheciam sempre que com ele contactavam.

Um exemplo notável dos muitos homens que partiram para a vida dos bancos escolares da Casa Pia de Lisboa, figurando o seu nome na primeira linha dos que juntaram aos ensinamentos colhidos a componente futebol. Assim se lhe abriram as portas, de par em par, para o trabalho, atingindo a categoria de funcionário superior da Administração dos Correios e, na outra apaixonante área da sua vida, o jornalismo – aqui com as naturais ramificações ligadas ao futebol.

Mais por paixão do que por necessidade, alem de seleccionador nacional foi, também, treinador de vários clubes – e treinador campeão – daí a justiça do breve registo que aqui deixamos sobre a sua actividade nesse sector.

Nada mais verdadeiras são as palavras gravadas no mausoléu em que são guardados os restos mortais de “Cândido de Oliveira – Homem Bom – Mestre de Futebol”. Bem reveladoras da sua personalidade quando, em 1936, foi chamado a substituir o treinador do Belenenses e seu amigo Artur José Pereira. Aderiu de imediato com uma condição – «treino a equipa sem nada receber, mas o ordenado do Artur é intocável… continua a ser dele».

Depois do Belenenses, Cândido treinou o Sporting, durante três épocas, sendo campeão em duas delas, e ganhando duas Taças de Portugal, depois, sempre muito solicitado, foi treinar o F. C. do Porto, duas épocas, tendo numa delas sido finalista vencido pelo Benfica na Taça de Portugal, e na outra vice-campeão da prova rainha da 1.ª Divisão.

Noutra ocasião, visitou o Brasil e não resistiu a um convite para treinar o Flamengo. 
Logo que pôde… libertou-se dessa missão e regressou a Portugal, deixando a equipa carioca bem orientada e preparada para continuar o campeonato do Brasil. Insistiram para que continuasse, mas… bem vistas as coisas ser treinador nunca foi um modo de vida para Cândido de Oliveira. Outras responsabilidades o chamavam a Lisboa – deixando, porém, no Brasil, especialmente no Flamengo, as melhores impressões como mestre de futebol que sempre foi.

Em Portugal, fazia-se sempre acompanhar por um adjunto – sendo Fernando Vaz, também casapiano, o escolhido para essa função no Sporting. Depois, resolveu “soltar” Fernando Vaz, dando-lhe o melhor apoio, sobretudo nos primeiros anos em que Vaz, com a sua recomendação se assumiu como treinador principal de vários clubes. 
A última paixão de Cândido como treinador foi a Académica de Coimbra. Nela, teve como adjunto Mário Wilson. Encontrando em Coimbra jogadores de nível intelectual fora do comum… gostava imenso de conversar com os jovens estudantes e transmitir-lhes os seus ensinamentos no futebol.

Quando a morte o surpreendeu na Suécia, a Académica era a equipa que Cândido estava a treinar – sendo recebida em Coimbra a notícia do infausto acontecimento com profundo pesar.

Em Coimbra… e em todo o país foi muito chorado o inesperado desaparecimento do Mestre Cândido de Oliveira, um Homem do Futebol, treinador-campeão e jornalista que encontrou a morte no seu último momento de trabalho… na mais importante prova do mundo do futebol.

Revista Record – Treinadores Campeões

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