Hergé, Tintin e a Medicina – três

A certa altura da sua interessante dissertação, o autor dedica natural atenção à linha clara, o estilo estético-narrativo usado por Hergé. Porque se trata de uma questão da maior importância, aqui se transcreve essa parte do trabalho de Guillermo Calatayud:

A linha clara é um estilo da banda desenhada com origem franco-belga que se  caracteriza, como o próprio nome sugere, pela definição exacta da linha, bem como pelo cultivo da narrativa clássica e do género cómico.

Do ponto de vista de Hergé, o termo “linha clara” não é apenas um estilo gráfico, mas também se refere ao próprio argumento, de modo a que todos os elementos dos quadradinhos (desenhos, quadros, diálogos, sinais) possam contribuir para a consecução da máxima compreensão da história.

Juan d’Ors, na sua apaixonada obra Tintin, Hergé e os outros conclui: “Fazer linha clara é contar uma história de forma legível, onde o desenho está assente naquilo que se conta“. O quadro final mostra as características principais que geralmente predominam na linha clara.

A principal referência da linha clara é o próprio Hergé, mas a Escola de Bruxelas ou Escola de Tornai é composta por outros autores como Edgar P. Jacobs, Jacques Martin e Bob de Moor. Na década de oitenta, a linha clara ressurgiu e transformou-se graças a autores como Joost Swarte ou Ted Benoit. Os autores espanhóis Gabriel Arnao ou Miguel Calatayud também pode ser adstritos à mesma. A forma hispânica da clara linha nasceu com o culto de Tintin e isso foi reflectido não apenas nos aspectos narrativos gráficos mas também em arranjos narrativos com alguma conexão ao mercado francófono dos álbuns para o nível etário infanto-juvenil.

A revista de historietas Cairo (1981), editada por Rafael Martínez e Joan Navarro, apareceu como defensora desta tendência estética, reunindo em torno dela um grande grupo de autores, herdeiros tanto da chamada Escola Bruguera como da Escola Valenciana.

Mas rapidamente a linha clara ultrapassou os limites do campo da narrativa desenhada e a crítica que isso gerou conduziu a uma grande controvérsia com defensores e detractores da sua temática e, principalmente, do seu maior expoente, Hergé.

Em 1984, foi realizada em Barcelona a exposição Tintin, ​​na Fundação Joan Miró, contra a qual um grupo de críticos (Jordi Bernet, Jesús Blasco, Javier Coma, Juan Cueto, Román Gubern, Victor Mora, Ricardo Muñoz, Enric Sió, Suay, Maruja Torres e Josep Toutain) tinha deposto no Manifesto publicado no jornal El Pais, e, por extensão, também contra a linha clara.

Isto levou outro grupo de especialistas como Ludolfo Paramio e Juan d’Ors a defendê-los, contagiando durante alguns anos as editoras Norma, Complot, Arrebato e La General, pelo que os leitores continuaram a apostar neste estilo.

 

Porque o autor alude a um episódio muito pouco conhecido, mas fundamental, tanto na biografia de Hergé como na discussão da linha clara, pareceu-nos significativo dedicar-lhe alguma importância, complementar, detalhando com mais pormenor o que sucedeu a este propósito.

Um grupo de artistas e intelectuais elaborou um Manifesto contra a Fundação Miró, quando esta organizou no Parc de Montjuic em Barcelona, entre 23 de Setembro e 25 de Novembro de 1984, um evento de homenagem a Tintin e ao seu autor, o desenhador Hergé. O texto foi assinado, entre outros, por Juan Cueto, Maruja Torres, Jordi Bernet, Jesús Blasco, Javier Coma, Román Gubern, Victor Mora, Ricardo Muñoz Suay, Enric Sió e Josep Toutain.

Os signatários recordaram, no início do Manifesto, que apoiaram durante muito tempo a reivindicação da banda desenhada como uma forma de arte adulta, pelo que expressavam publicamente a sua preocupação em virtude da confusão a que poderia induzir a citado exposição.

Não discutindo a importância do “fenómeno” Tintin, os autores da declaração afirmaram que nas nossas latitudes, onde os quadradinhos ainda não alcançaram o merecido prestígio oficial e popular que conquistaram noutros países cultos, era extremamente perigoso para o reconhecimento adulto da Nona Arte que a Fundação Miró tivesse escolhido, para a sua primeira exposição monográfica de BD, um trabalho cujos destinatários são as crianças, sem dimensão estética bastante para ser anfitrião de uma entidade com um tão ilustre patrono.

O Manifesto recordou que o prestígio cultural dos quadradinhos não foi alcançado graças a Tintin. E acrescentaram os autores que, em países com uma forte cultura de BD -ou onde Tintin é considerado uma herança nacionalista- tal exposição deixaria automaticamente de ser problemática, porque as coisas estão ali muito claras desde o princípio. Pelo contrário, e de acordo com o texto, o patrocínio da Fundação Miró a Tintin “dilata a imagem infantilóide de que sofre essa narrativa desenhada“. O Manifesto concluiu lamentando o dispêndio envolvido na organização em face do escasso apoio recebido pelos quadradinhos em Espanha.

Um representante da Fundação Miró disse que a exposição seria acompanhada por uma homenagem a Hergé, que envolveria 70 artistas de todo o mundo e, particularmente, espanhóis como Joan Bofill, Pere Torrent, Cescepe, Hortelano, Daniel Huidobro, Ops, Perico, Pastor Roger, Julio Vivas…. A exposição era composta por uma apresentação de vinhetas acompanhadas de todos os objectos que nelas apareciam, principalmente fornecidos pelo Museu Etnológico da cidade.

Javier Coma, um dos promotores do Manifesto, declarou ao jornal El País que Tintin foi um sucesso editorial infantil, mas não pode ser comparado com outras propostas no domínio dos quadradinhos. “Trata-se de um desenho fácil e, portanto, susceptível de ser imitado. O auge espanhol de Tintin está ligado, em parte, a uma operação editorial destinada a dar consistência à denominada linha clara, na estética da banda desenhada. O Manifesto não tem a intenção de criar uma polémica nesta área, mas apenas situar adequadamente a importância de Hergé. Ninguém parece lembrar-se de que o artista foi acusado de colaborar com os nazis e que passou dois anos sem poder publicar. A sua redenção cultural veio da França, há cerca de 10 anos, quando Paris descobriu o comic americano e procurou um homólogo na área francófona. Em parte, tudo isto é uma promoção da nova Direita francesa“.

Este artigo surgiu na edição impressa de El País, em 14 de Setembro de 1984.

Após esta deriva, considerada necessária, retomar-se-á a dissertação.

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