1917 – há cem anos – dezasseis

Findo o mês de Março de 1917, era possível fazer um balanço da correspondência trocada entre o capitão José Cândido Martinó, em França, e a sua filhita Benvinda, em Portalegre. De França: 30 postais, entre os quais (dia 3) um retrato; 11 são de tema infantil, 3 de costumes regionais franceses, 2 patrióticos e os restantes 13 de tipo romântico. Os dos dias 23 e 24 são particularmente curiosos: uma filha escreve ao pai, na Guerra! De Portalegre: quatro cartas e três postais, estes do tipo romântico.

Começara o mês de Abril…

1 de Abril – “França. Fui ontem à tal revista, ficando conhecendo mais duas terriolas. Fui convidado pelo comandante do batalhão para almoçar. Na terra onde a revista teve lugar, há um costume muito patusco. No dia 27 faleceu um velhote, pois só no dia 31 lhe fizeram o enterro. Durante os dias 27 a 31 as pessoas conhecidas e amigas do falecido iam colocar à porta do morto molhos de palha com que formavam cruzes. Cada cruz representa um ano; como o morto tivesse 77 anos, fizeram 77 cruzes de palha. Depois do enterro, homens e mulheres foram para o estaminet embebedarem-se e folgar. Os sinos, durante os 5 dias, fizeram um barulho terrível”.

No dia 2 de Abril de 1917, a Câmara Municipal de Portalegre cedera, para serem incorporados na parada do Quartel de Infantaria 22, 410 m2 de terreno da cerca do Convento de S. Bernardo.

2 de Abril – “França. Hoje está um dia frigidíssimo, pois ontem à noite caiu um grande nevão. Ontem, 1 de Abril, tivemos festa na Mess, veio jantar connosco o Coronel Trigo, que é uma verdadeira joia; é muito bondoso. O ajudante, Capitão Faria, fez um Menu muito artístico que te envio para tu veres que, por enquanto, a campanha tem sido Gastronómica e Digestiva. Está a acabar; pois o que é bom dura pouco tempo. Os ingleses fazem a barba diariamente, mas estão uma ou mais semanas sem lavar a cara. Em França todas as casas têm um pátio onde fazem estrumeira. Há por cá muita porcaria“.

24 de Março – Portalegre: “Em França também há amêndoas? Por cá já vão aparecendo, brancas, azuis e cor de rosa“.

3 de Abril – “França. Fiquei deveras impressionado com a notícia do falecimento do teu amiguinho e Sr. Lourinho. Hás-de juntar o nome dele, nas tuas oraçõezinhas infantis; nunca esquecendo o da tua querida Mamãzinha. Quando hoje me levantei da cama, vi o mais formidável nevão que tenho presenciado. Não calculas o pesar que tenho de não poder mandar-te as amêndoas. Diz ao Avozinho que te compre aquilo de que mais gostares“.

O referido sr. Lourinho é António José Lourinho, ao tempo presidente da Câmara Municipal de Portalegre e senador pelo distrito, além de director de “A Plebe”, que morrera por doença, em Lisboa. O seu funeral, muito concorrido, tivera lugar em Portalegre no dia 25 de Março de 1917.

4 de Abril – “França. Ontem, depois do meio dia, apareceu o sol, mas – como já te disse – um sol muito diferente do nosso e principalmente o azul celeste; mas apesar disso o tempo continua frigidíssimo e bastante agreste“.

5 de Abril – (dois postais) “França.”; “ França. Os ingleses têm tal culto pelo hino nacional, que nem permitem que ninguém o assobie ou mesmo cante, a não ser em actos muito solenes. Não calculas a maneira marcial e imponente como os ingleses marcham, mesmo nas marchas de estrada e à vontade; nunca saem do seu lugar; cantam canções nacionais – mas nunca o hino – e assobiam. Não calculas o efeito do que seja um ou mais milhar de homens assobiando todos a mesma coisa. Quando vão à missa, entoam cânticos lindíssimos muito afinados e geralmente em oitavas. O conjunto de 5 ou 6 mil homens entoando um cântico é dum efeito surpreendente“.

6 de Abril – “França. O alferes Pereira, que tu conheces de casa da S.a D. Ema, e a quem já arranjaram pau e lança para a bandeira, de regresso… conta coisas interessantes e mirabolantes. Os tenentes Maltez e Faustino cada vez estão mais rabugentos. Na casa de jantar da nossa “Mess” há uma parte ocupada pelos piadistas, conhecida pelo Sol. O veterinário Raposo está sempre a chorar, que ganha muito pouco, que está para casar – porque os veterinários não morrem – pedindo a todos que lhe cedam a parte que lhes pertence dos artigos de menage para montar a casa à noiva. O Capitão Minde de Oliveira fez umas quadras muito bonitas para o Fado do Ganga e que dedicou ao tenente Faustino“.

Entre os papéis manuscritos por J. C. M. existe a letra do “Fado do Estaminet“, com a indicação “Música do Ganga“. O texto é algo “pornográfico”, começando por “Esta agora tem piada; Camarada; O nosso Faustino, o Zé; Arranjou de namorada; Uma velha desdentada…”, com uma nota final sugerindo “Ó Zé Faustino;  Toma-me tino…”.

7 de Abril – “França. Tenho notado que em França não há faixa de terreno, por muito pequena que seja, que não esteja cultivada, pois tudo trabalha nos serviços agrícolas; velhos, mulheres e crianças, e até os próprios soldados quando no gozo de qualquer pequena licença. Tudo isto é muito povoado, não se encontrando casas isoladas como em Portugal, principalmente no Alentejo, mas sim povoações muito próximas umas das outras. Pedi ao tenente Maltez para mandar imprimir 100 envelopes e o idiota fez a encomenda de 1.000; anda esparvoado de todo, principalmente depois que viu o resultado da 1.ª experiência, e como no dia 9… ninguém o atura“.

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