Hergé, Tintin e a Medicina – quatro

Continuando a análise da tese do dr. Guillermo Calatayud vamos encontrar, ainda na descrição do material por este abordado, uma súmula dos álbuns de Tintin.
Ainda que -no meu entendimento- não contenha esta abordagem qualquer novidade significativa, não deixa de se revestir de um certo interesse, por conter personalizadas e curiosas apreciações críticas. Por isso, devidamente traduzidas, aqui ficam as opiniões do médico pediatra sobre esta obra de Hergé.

SÚMULA BIBLIOGRÁFICA DOS ÁLBUNS  

1. Tintin au pays des Soviets

Esta é a primeira das aventuras de Tintin. Originalmente foi publicada no suplemento juvenil Le Petit Vingtième entre 10 de Janeiro de 1929 e 8 de Maio de 1930, e mais tarde foi reproduzida no formato de álbum em 1930. Criada para servir como propaganda anti-marxista para as crianças, a história foi encomendada pelo patrão de Hergé, o abade Wallez, que dirigiu o jornal católico belga Le Vingtième Siècle, onde aquele suplemento juvenil era publicado.

Argumento: Gira em torno do jornalista belga Tintin e do seu cachorro Milou que viajam até Moscovo via Berlim, para fazerem uma reportagem sobre as políticas instituídas pelo presidente comunista Stalin. No entanto, um agente do serviço secreto soviético, a OGPU, tenta que Tintin não a faça, colocando sucessivas armadilhas para se livrar dele. No entanto, o jovem jornalista irá gradualmente descobrindo os segredos do bolcheviques e como estes estão roubando comida aos cidadãos soviéticos, manipulando as eleições e assassinando os seus opositores. No final, Tintin e Milou regressaram a Bruxelas perante uma enorme recepção popular.

Comentário: É o única das aventuras des Tintin, não adaptada posteriormente à cor (excepto Tintin e a Alpha-Arte que não chegou a ser concluído). O autor disse que pensou pouco na realização do álbum ao considerá-lo “apenas um jogo” e classificou-o simplesmente como “uma transgressão” baseada da sua juventude. Por isso, sempre Hergé se opôs à sua publicação mas, com o aumento da produção de edições piratas vendidos entre tintinólogos, finalmente permitiria uma reedição oficial em 1973.

NOTA – Como é óbvio, à data da elaboração deste trabalho, o seu autor não poderia supor que a edição colorida deste álbum seria uma realidade a partir de Janeiro de 2017.

2. Tintin au Congo

Foi publicado por páginas, a preto e branco,  no Le Petit Vingtième, entre 5 de Junho de 1930 e 11 de Junho de 1931. A primeira edição em álbum, também a preto e branco, foi publicado neste mesmo ano. O álbum foi completamente redesenhado por Hergé para uma edição colorida em 1946, passando das 110 pranchas originais para 62. As mudanças tenderam a atenuar os aspectos controversos da obra e desapareceram todas as referências ao colonialismo belga no Congo. Ainda assim, o tema desta controvérsia permanece frequentemente na perspectiva político de que reflecte uma visão claramente colonialista e racista do mundo, além de um entendimento excessivo da caça, classificada como matança de muitos animais ameaçados de extinção.

Argumento: Tintin viaja para o Congo, onde conhece os nativos africanos e os animais exóticos e selvagens da África. Uma série de episódios vão levá-lo ao reino de Babaoróm onde ele se torna o chefe da tribo. Por acaso, encontra um bando de gangsters ligados a Al Capone que tenta controlar a produção de diamantes no Congo. Tintín consegue detê-los e parte para o seu próximo destino: a América.

Comentário: A sugestão de que a segunda aventura de Tintin tenha como cenário o  Congo Belga pertence ao director do jornal e protector de Hergé, o abade Wallez, segundo declarações do próprio autor. Como na história anterior, o objectivo era puramente propagandístico, tentando agora suscitar vocações coloniais. Diferentemente da maioria dos álbuns seguintes, Hergé não se preocuparia muito com a documentação. O álbum abunda em preconceitos sobre o continente africano.

3. Tintin en Amérique

Embora a primeira parte da história se passe em Chicago, onde o protagonista enfrenta gangsters e assassinos, a trama também gira em torno do povo índio (peles-vermelhas) que tanto fascinara o autor na sua infância. É o único álbum de Tintin em que uma personagem real aparece com o seu próprio nome: Al Capone. A aventura começou a ser publicada na edição de 3 de Setembro de 1931 em Le Petit Vingtième, estendendo-se por mais de um ano, em duas pranchas por semana. A versão colorida do álbum, inteiramente redesenhado em 1945, é bastante fiel ao original embora o autor tenha chegado a inverter algumas vinhetas para facilitar a sua compreensão por parte do leitor.

Argumento: A história narra as aventuras de Tintin na América. Na sua chegada ao país, é sequestrado por bandidos de Al Capone, que considerara o jornalista como perigoso. Pouco depois ele escapa e irá enfrentar outros grupos criminosos. Na segunda parte da história, Tintin, no mais puro estilo de “Far West”, vive vários episódios com os índios que finalmente são expulsos das suas terras após a descoberta de um poço de petróleo por soldados americanos.

Comentário: Tal como nos outros primeiros álbuns de Tintin, este trabalho revela uma evidente falta de documentação significativa sobre os temas abordados em comparação com as obras posteriores do autor, que supre esta falha com os mitos presentes na Europa na década de 30 sobre os Estados Unidos (gangsters, índios e cowboys). O álbum parece uma fusão do western com o cinema negro. Está cheio de gags e de elementos que reflectem bastante ingenuidade, embora ali encontremos uma crítica à situação de que padecem os índios nos Estados Unidos assim como a alguns aspectos do capitalismo.

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