Velhos são os trapos mas os papéis não! – vinte e seis

As preocupações da vida quotidiana de Cândido de Oliveira dedicada ao futebol, não devem ser vistam em separado da sua actividade cívica e política no contexto da ditadura.

O futebol, nesse tempo, era um jogo onde se procurava a vitória a todo o custo e onde cada dirigente ou treinador devia perceber a melhor forma de alcançar tal objectivo, limitando-se a propor aos jogadores a forma mais adequada para isso.

Um desafio de futebol era portanto um acto comunicativo onde os valores pedagógicos e morais não eram muito questionados, pois a busca do triunfo submergia quase tudo o mais.

Cândido de Oliveira sempre quis ir para além de tais limitações, procurando explicar os fundamentos racionais do jogo e a sua beleza, assim construindo as bases de uma pedagogia específica. Portanto, no essencial, as suas ideias contrariavam o modelo de práticas físicas do regime em vigor.

Na sociedade portuguesa da época, grande parte dos desportistas que praticavam o futebol pertencia a classes populares, pouco ou nada alfabetizadas, precisamente as mesmas que as instituições estatais queriam regulamentar e incluir na moral vigente. O lugar das classes e dos indivíduos na sociedade portuguesa da época abarcava a profissão, o lazer e o desporto, numa lógica corporativa onde era concedido um papel quase exclusivo aos homens.

Em alternativa, os ideais preconizados por Cândido de Oliveira implicavam uma pedagogia positiva, onde o prazer substituía a rígida disciplina rígida e onde o praticante deveria ser tratado como um igual no quadro das hierarquias instituídas.

Ao contrário do que anteriormente sucedia nos exercícios treinados e executados de forma rígida e uniforme, ele pretendia que cada praticante ajustasse os seus conhecimentos a todo e cada momento vivido. Para isso ele devia conhecer as leis, dominar a técnica mas também monitorizar competentemente o movimento do seu corpo no espaço, o que implicava dominar a lógica das tácticas. Este processo, complexo, ia contra as representações mais imediatas e normativas do comportamento “oficial” em uso.

No futebol moderno que Cândido de Oliveira defendia, a autonomia do jogador, longe de ser um valor absoluto, estava dependente da sua relação com a dinâmica colectiva da equipa. Foi uma revolução!

Porém, estes princípios não nasceram em Cândido de Oliveira por intermédio de uma revelação divina ou por geração espontânea. Para além das suas ideias próprias, ele tivera uma rara oportunidade de aprendizagem. O desenvolvimento do seu conhecimento sobre os fundamentos do futebol moderno beneficiou do estágio para treinadores que efectuou em 1935, em Londres e na Escócia, sob a direcção da Football Association. Nessa oportunidade treinou com o Arsenal e observou alguns jogos do campeonato escocês. A equipa londrina vivia então a herança do sucesso da passagem do treinador Herbert Chapman, que falecera em 1934. Este excepcional técnico atingira enorme sucesso ao conseguir reajustar as posições e movimentos dos jogadores em campo após a radical alteração da regra do fora-de-jogo, tornando famoso o sistema táctico então conhecido por WM.

Quando regressou a Lisboa, Cândido de Oliveira publicou um livro onde se propôs divulgar o que aprendera em Londres. Assim surgiu Football, Técnica e Táctica, um volume repleto de análises dos diversos componentes do treino e do jogo, acompanhado de fotografias e gráficos onde se decompõem movimentos e posições.

Mas o que o treino permitia, guiado por princípios de conhecimento científico, era o domínio desta experiência para a aperfeiçoar, ensinando os atletas a gerirem melhor o seu corpo. Os jogadores não tinham necessariamente de compreender a lógica colectiva na totalidade, embora o ideal era que a percebessem de modo intuitivo. Eles deviam sobretudo sentir, aprender pelo corpo, transformá-lo numa entidade inteligente, um administrador perspicaz do reportório motor disponível.  Neste contexto os olhos eram elementos fundamentais na criação de uma “experiência prática do espaço”. O treino táctico exigia o apuramento das capacidades dos jogadores em lerem o jogo e decidirem da melhor forma. Esta inteligência particular afastava-se do modelo de aprendizagem oferecido pela escola em Portugal, um país -lembra-se- com altos níveis de analfabetismo.

Mas a alfabetização do corpo do jogador, insistia Cândido de Oliveira, não se assemelhava à alfabetização escolar. Por isso afirmou: “Em football, apenas se requer inteligência prática (…) Tenho conhecido muitos jogadores perfeitamente analfabetos e que, sem embargo disso, na apreciação do jogo, da sua técnica, se revelam verdadeiramente inteligentes e, até, com subtileza de espírito pouco vulgar em alguns letrados…

O aperfeiçoamento destas competências corporais exigia, porém, condições de treino e isso, como Cândido defendeu durante muito tempo, só se alcançava com a profissionalização. O treinador não iria ter a oportunidade de assistir ao reconhecimento estatal do profissionalismo do futebol em Portugal. Mas contribuiu decisivamente para isso.

Passemos ao livro esquecido…

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