1917 – há cem anos – dezassete

A data de 7 de Abril de 1917 está aposta na “Despedida” divulgada em “O Distrito de Portalegre” publicado no dia seguinte: “Júlio Augusto Meira Serra, sargento músico, estando há dois meses em Lisboa e tendo de partir dali para França, despede-se de sua família e amigos. Fá-lo por este meio, pelo motivo de já não poder vir a esta terra”.
Eram frequentes estas mensagens públicas, e publicadas, de despedida de militares expedicionários.

8 de Abril – “França. É hoje Domingo de Páscoa, dia de festa que eu passo muito longe de ti. Julgo estar resolvido que hoje haja uma grande revista. (…) Ontem, já depois de te ter escrito, vieram à nossa Mess um grupo de rapazes cantar às Aleluias, e a pedir os Ovos da Páscoa. Traziam matracas com que faziam muito barulho“.

28 de Março – Portalegre: “Está muitíssimo frio; mais frio do que no mês de Janeiro“.

… de Abril – Postal de Portalegre para J. C. (com carimbo: Censurado): “Aqui morreu o Caetano. Tinha libras por toda a casa. 2.300 libras no cofre. B. Brito“.
Caetano, aqui citado, é o “importante proprietário Caetano José Ribeiro, falecido ontem nesta cidade”, nota do “Obituário” publicado em “O Distrito de Portalegre” de 22 de Abril de 1917.

3 de Abril – Postal de Portalegre para J. C. M.: “Bastas vezes me recordo com saudade das pessoas que me têm dispensado a sua dedicação de que estou reconhecido. Todos os seus bem. A sua filhinha está muito bonita.  Rosado“.

4 de Abril – Postal de Portalegre para J. C. M.: “Queira V. Ex. receber muitos beijos da menina Benvinda que continua muito bem de saúde e satisfeita; vai bem nos seus estudos.  Maria Joana Dias Gonçalves“.
Maria Joana Dias Gonçalves é a professora de Benvinda, sendo muito conceituada na cidade de Portalegre pela sua reconhecida competência pedagógica.

30 de Março – Postal de Aurora, Portalegre: “Meu querido Padrinho. (…) A Benvinda está muito bonita mas muito traquina. Tudo quer saber. Está bastante adiantada e já sabe muitas coisas do 2.º grau. Ainda ontem ao deitar-se começou a conjugar verbos duma forma tal que eu fiquei completamente admirada. (…) Por aqui nada se tem passado de importante a não ser a morte do sr. Lourinho; fizeram-lhe um funeral imponente em que se incorporaram todas as Escolas e entre estas a Escola Normal com a sua nova bandeira que ficou muito bonita. Estimo as melhoras do Joaquim. Sua afilhada m.º amiga. Aurora M“.

9 de Abril – “França. Ontem foi um dia de grande trabalho, até o almoço de festa teve de ser comido à pressa. Envio-te o “menu”; com este já lá deves ter três menus artísticos. Daqui para o futuro principiam as grandes maçadas. Pela nota que o Avozinho mandou da data dos postais que te tenho enviado, julgo que poucos se têm extraviado“.

31 de Março – Portalegre: “Ontem confessei-me e comunguei na igreja de S. Lourenço, na companhia da S.ra D. Ema“.

10 de Abril – (dois postais) “França.”; “ França. A correspondência que envio não é lançada na caixa do correio, é entregue na secretaria, donde é censurada, e depois segue para várias entidades onde é novamente censurada, para só então seguir o seu destino. (…) Ainda não vi o alferes Fino“.

O alferes Fino, bastante citado nesta correspondência, é única personalidade verdadeiramente digna de nota, pelo seu trágico destino. Com efeito, o então já tenente Afonso Fino Bento de Sousa morrerá em combate, no fatídico dia 9 de Abril de 1918, em La Lys. Está sepultado no cemitério militar de Richebourg, em Boulogne-sur-Mer, tendo sido condecorado a título póstumo pelo presidente Óscar Carmona, em 30 de Setembro de 1927, com o oficialato da Ordem Militar da Torre e Espada.
Os  alferes Correia, Santos Lima e Pereira (autor inspirado de desenhos e pinturas, desde Tancos à Flandres, de que se reproduz aqui um postal da sua autoria) assim como os tenentes José Faustino,  Maltês, Tavares e Luís Lello, os capitães Minde de Oliveira e José Faria, o veterinário militar Raposo, o médico militar Basso Marques, o coronel Adriano Trigo (qualificado comandante do 22), o soldado Joaquim Candeias (o desastrado impedido !) e tantos outros, serão apenas figuras que preenchem o cenário quotidiano da guerra, camaradas de armas e companheiros de desdita de José Cândido, sem qualquer significado ou intervenção especial para além do que fica expresso nas referências deste.

11 de Abril – “França. Como já te disse as povoações são muito próximas e muito semelhantes. Numa marcha que ontem fizemos, dumas 4 ou 5 léguas, atravessámos nada menos de 6 villages. Em geral as mulheres quando ouvem a música não vêm para a rua ou abrem a janela; espreitam com olhos de gente desconfiada. As crianças saltam para a rua ver as tropas mas sempre muito porcas; não lavam a cara, isto apesar de por aqui haver muita água. Até à idade de 15 a 18 anos tudo usa bibes“.

12 de Abril – “França. Em geral, nas marchas que temos feito, acontece muitas vezes durante uma ou mais horas cair neve. O horizonte que a nossa vista abrange, e que parece não ter limites, é completamente branco; isto juntamente com o cair da neve, dando também a cor branca ao céu, forma um conjunto dum efeito encantador”.

13 de Abril – “ França. No passeio militar de ontem, atravessámos mais 5 “villages”, mas já eram minhas conhecidas”.

14 de Abril – “ França. Fui ontem dar um passeio de automóvel a uma cidade lindíssima e que eu ainda não tinha visto. [A cidade é Saint-Omer, a norte, pois essa visita fica registada e datada numa colecção de postais] A demora foi muito curta, porque na nossa companhia – eu e mais dois oficiais – também ia a filha do maire, de maneira que pouco tive ocasião de ver e admirar, porque a tal menina estava com muita pressa e não havia tempo a perder. Fiquei deveras arreliado com o caso. Caso possa, tenciono lá voltar para então ver tudo à minha vontade”.

15 de Abril – “França. A dona da casa onde estou é tão miserável que, da roupa que se lhe entrega para mandar lavar, cobra uma percentagem para ela. Por  isto podes ajuizar da força de tal menina! “.

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