Velhos são os trapos mas os papéis não! – vinte e sete

Quando Cândido de Oliveira em 1935 publicou Football: – Técnica e Táctica, desde logo prometeu para breve um segundo volume no qual tencionava tratar das questões práticas do treino, desenvolvendo as teorias então expostas.

Porém, destas intenções à sua concretização mediou um largo espaço temporal, nada mais nada menos do que uma dúzia de anos. Ainda assim, chegou em 1947 a anunciada obra, Segredos do Futebol.

Trata-se de uma obra ainda hoje muito interessante, sobretudo se atentarmos ter sido pensada e escrita há setenta anos. A frescura e profundidade dos conceitos expostos ainda nos causa admiração, embora provoque alguma nostalgia observar as imagens ilustrativas da época, todas de origem inglesa, ou não fosse essa a principal escola futebolística de mestre Cândido.

As fotografias, onde avulta a imagem do lendário treinador britânico James Hogan (1882-1974), merecem a dignidade de um autêntico arquivo histórico, assim como as ilustrações e os esquemas desenhados.

A obra tem um profundo sentido pedagógico e didáctico, dividindo-se em quatro partes: A Técnica do Ensino, Os Rudimentos do Futebol, O Treino dos Jogadores e A Táctica do Jogo.

A primeira parte é essencialmente dedicada à figura do treinador, salientando a importância da personalidade, do poder de insinuação, da paciência para ensinar, da boa disposição, do saber comandar e possuir boa capacidade de demonstração, terminando com a competência técnica.

A segunda parte diz sobretudo respeito à aprendizagem, virando-se agora para o praticante. Aborda diversas questões como: correr com e sem a bola, conduzir esta com o pé, chutar, dominar a bola e passá-la, jogar de cabeça, driblar, carregar, obstruir e desarmar, marcar, desmarcar e antecipar, lançar a bola em jogo e executar castigos (cantos, pontapés e grandes penalidades) e desenvolver espírito de cooperação com os restantes jogadores.

A seguir, na terceira parte, é o treino propriamente dito que ressalta como objectivo principal. Assim, aborda a aquisição e manutenção da forma física e o aperfeiçoamento técnico dos praticantes. Por isso, são considerados de forma distinta as suas diversas e específicas posições na equipa: o guarda-redes, o defesa, o médio e o avançado (extremo, interior e avançado-centro). Estas designações podem fazer-nos hoje sorrir, mas -lembra-se!- devem ser lidas segundo os conceitos desportivos da época…

O capítulo final é muito interessante, pelas generalidades que abarca. Aqui, Cândido de Oliveira dá vazão ao seu sentido jornalístico e sente-se muito à vontade na explanação do entendimento pessoal quanto a escolas e tipos de futebol, assim como a modernas concepções técnico-tácticas então em voga, como as escolas inglesa (passe largo) e escocesa (passe curto), a formação clássica (cinco avançados quase em linha, três médios com o central em apoio ao ataque e dois defesas em frente da rede) ou a formação em WM. Alguns exemplos são aqui detalhados, como a formação Arsenal, a austríaca, a Belenenses-Scopelli e outras.

Segue-se uma fundada crítica à formação WM, terminando o volume com o sub-capítulo que pessoalmente me parece entre todos o mais curioso, por diversas razões: Uma Experiência no Sporting – Quatro Avançados em Linha e um Interior-Médio de Ataque. As quase cinco dezenas da páginas finais da obra de Cândido de Oliveira são dedicadas a uma sua vivência desportiva então em curso, precisamente a direcção técnica da equipa do Sporting Clube de Portugal, que assegurou entre 1946 e 1949. Já vencera, com a inesquecível formação dos “cinco violinos“, a Taça de Portugal em 1946, e iria conquistar o Campeonato Nacional na época de 47/48, bem como essa Taça e ainda o campeonato do ano seguinte.

Por isso, escolhi este testemunho para seguidamente aqui reproduzir, concluindo este dossier. Pode por ele perceber-se como aquela incomparável equipa leonina se tornou mais apta à conquista de inúmeros troféus, com particular destaque para o maior e mais completo avançado-centro (ou ponta-de-lança, como hoje se diz!) do futebol nacional de todos os tempos: Fernando Peyroteo.

Ficou recordado Cândido de Oliveira, um norte alentejano a quem o futebol nacional e a Democracia muito ficaram a dever…

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