1917 – há 100 anos – dezoito

O Distrito de Portalegre” publica, na sua edição de 15 de Abril, um texto patriótico a toda a largura da primeira página, assinado por Armando Neves. Sob o título “Em Combate” e o sub-título “O Nosso Dever”, o texto termina com os habituais vivas: “Viva a Pátria! Por Portugal! Viva a República! Vivam as Nações Aliadas!” Do seu conteúdo, destacam-se alguns excertos: “Segundo informações do Ministério da Guerra, o ministro sr. Norton de Matos recebeu na passada terça-feira um telegrama do general comandante do Corpo Expedicionário a França, comunicando-lhe que uma parte das forças portuguesas entrou já na grande luta ao lado das tropas inglesas, sendo, por todas as formas, merecidamente elogiada. O moral dos nossos homens, garantiu-o o general sr. Tamagnini, é excelente e sobremaneira animador. (…) Todos, absolutamente todos, têm a obrigação e o cumprimento inauferíveis de concorrerem para a Vitória. Não é só ao soldado impávido e destemido que vai humildemente sacrificar a sua vida pela Causa que nos é querida, que cumpre a defesa da Pátria. É também aos que cá ficam. Aos homens que estão isentos, pela idade, do serviço militar, aos velhos e também às mulheres e até mesmo às crianças. Todos têm a sua respectiva tarefa a executar; e ai daquele que a não executa! A defesa dum país reside dentro e fora dele. Todos me entendem, sem dúvida. (…) Sobre a incorporação do sacerdócio no exército, direi que nada há de mais justo e razoável. Para a frente é que é o caminho; o caminho da Honra e do Dever. Um padre é um cidadão como outro qualquer e, por isso mesmo, deve estar sujeito às leis militares”.

16 de Abril – “França. O tempo continua péssimo. Que coisa tão aborrecida com tal tempo. Ou chuva ou então muita neve e frio“.

4 de Abril – Postal de Portalegre, de Aurora, para J. M.: “Igualmente lhe desejo umas festas alegres e boa saúde para daqui a um ano as passar junto da sua filhinha. Já estou de férias. As da Benvinda começam amanhã, 5.ª feira“.

5 de Abril – Portalegre: “(no final) N. B. Os cartões que tenho recebido seus vêm todos bem fechados, mas com a marca da censura“.

Entre 16 e 19 de Abril de 1917, acontece na frente a 2.ª Batalha de Aisne, onde os alemães conseguiram deter o avanço francês.

17 de Abril – “França. Amanhã continuo com as minhas viagens circulatórias. Três vezes por semana tenho esta espiga, afora outros bicos de obra; o que me vale é eu ser bom andarilho e o tirocínio de Paulona. O tempo continua chuvoso e muito frio“.

18 de Abril – (com uma bela aguarela, original, publicada no anterior “capítulo”) “França. O Alferes Pereira, que tu conheces de casa da S.a D. Ema, passa o tempo a fazer bonecos. Hoje consegui apanhar um que te envio“.

18 de Abril – “França. Os rapazes durante o tempo que têm de estar na escola têm muitos intervalos para recreio e lanche, mas de todas as vezes que saem da escola, durante cinco minutos, fazem exercícios militares dirigidos pelo professor“.

8 de Abril – Postal de Portalegre para J. C., com carimbo de Censura: “Os seus a quem vejo quase todos os dias especialmente seu pai e a sua interessante filhinha estão de perfeita saúde. Desejo que volte depressa, pedindo-lhe que traga uma orelha de um alemão.  E. Alvarrão“.

Eleutério Mariano da Rosa Alvarrão (Elvas, 1866-Portalegre, 1931), vizinho de JCM na Rua da Mouraria, foi um conhecido e apreciado jornalista, caricaturista e autor dramático.

9 de Abril – Portalegre: “Como estava um pouco constipada retirei-me mais cedo que me doía bastante a cabeça. Logo que cheguei o Avozinho deu-me uma pastilha das bichas – metade logo e metade hoje de manhã – passado algum tempo tomei um calmante. (…) No sábado de Aleluia fomos comprar um cabritinho muito bonito, escolhido por mim, e que foi servido no jantar de Domingo, com a competente sobremesa“.

19 de Abril – (três  postais) “França. Antes de conhecer a França fazia uma ideia muito diferente de tudo isto. Cada vez me convenço mais da derrota da Alemanha, mas a França é uma nação liquidada. Não se vê um homem válido. Só a Inglaterra poderá salvar a raça francesa. Tudo isto está muito atrasado. Em frente da minha casa faleceu há pouco tempo uma criança de 18 meses. Tinha uma bronquite que a família curava com vinho, cerveja e cognac; quando estava quase morta é que vieram chamar o médico do regimento, pois por estas paragens não há médicos nem farmácias. Muito pouca civilização e humanidade; sobretudo muitíssima porcaria, não podes fazer ideia da higiene de tal gente. Esquecia-me de dizer que a pobre criança esteve cinco dias em casa, fazendo-lhe à porta a tal cruz com muitos raminhos de murta. (…) Ainda a propósito do tal passeio de automóvel com a filha do “maire”, qualquer criada de servir em Portugal teria sido mais delicada e correcta que a tal menina. É casada e tem o marido na guerra, mas apareceu toda decotada e muito bem posta apesar de estar muito frio. (…) O tenente Maltez já regressou e perdeu o medo; já está um pouco mais civilizado e menos bruto“.

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