1917 – há 100 anos – dezanove

20 de Abril – “França. Vou hoje dar um passeio de carro. O tempo continua péssimo. Ontem, quando cheguei da minha passeata, trazia mais de 2 quilos de lama agarrados às botas e às grevas”. 

21 de Abril – (5 postais, com vistas de jardins) “França. Fiquei encantado com o passeio que ontem dei. A cidade onde fui é minha conhecida, pois vou lá amiudadas vezes. [Fruges?] Vi o desfile de um batalhão inglês. A música ia ao centro do batalhão; mas uma música muitíssimo original: 4 flautins, 8 flautas, 3 cornetins, ferrinhos, caixas, um par de pratos e um bombo enorme tocado com duas macetas. À frente da música ia o tambor mor com o bastão dirigindo a música, fazendo muitas piruetas com a moca. O conjunto musical de tal instrumental é tudo quanto há de mais interessante e original. O bombo e as caixas iam muito bem pintadas com vários emblemas e arabescos. Já tinha ouvido falar neste género de bandas inglesas, mas ainda não tinha tido a dita de apreciar tais artistas. Quando me preparava para a retirada, vi uma banda em direcção para o coreto. Já não pensei em partida. Uma banda de marinha inglesa deu um primoroso concerto das 3 às 4. Fiquei satisfeitíssimo. É a 2.ª banda da Inglaterra. É um primor. Tocaram um lindíssimo ordinário, uma fantasia da Carmen, uma outra fantasia, uma rapsódia inglesa, uma valsa e dois hinos. A execução foi magistral. 40 ou 50 figuras tinha a banda. Flautins, 2 flautas, requinta, oboé, 12 clarinetes, 1 saxofone, 3 fagotes, 5 cornetins, 4 trompas de mão, 2 trombones de vara, 2 trombones de pistons, 2 barítonos, 2 c. baixos em mi b, 3 contrabaixos em si b, bombo e pratos e 1 caixa. O sub-chefe conduz a banda ao coreto, destina os lugares e, ao aproximar-se a hora de principiar o concerto, desce do coreto e vai participar ao chefe que tudo está a postos; o qual se dirige para o coreto com toda a pose; quando entra no coreto, das partes dos músicos não há o mais leve sinal de respeito. O sub-chefe fica passeando. Quando terminou o concerto o chefe retira com a mesma pose e o sub-chefe toma conta da banda que conduz para onde está alojada. E assim terminou o mais belo dia que tenho passado em França“.

Por esta altura, acumulou-se diversa correspondência de amigos portalegrenses para o capitão Martinó.

12 de Abril – Postal de Portalegre para J. C.: “Tem-se sentido aqui muito a sua falta. As meninas freguesas do passeio público requerem a sua presença. Portanto venha depressa para as consolar com as suas harmonias musicais. Vale Fernandes“.

14 de Abril – Postal de Portalegre para J. C., com carimbo de Censura: “Todos os seus estão de perfeita saúde. Aí vai essa linda dama (ilustração) já que não lhe posso mandar uma de carne e osso. Mas aí deve haver muitas. Um abraço para o Pestana de Vasconcelos. António Ribeiro“.

14 de Abril – Postal de Portalegre para J. C., com carimbo de Censura: “Dei, há dois dias, um beijo na sua filhita, que vai bem. João Augusto da Costa“.

15 de Abril – Postal de Portalegre para J. C., com carimbo de Censura: “Sinceramente lhe desejo saúde e coragem para animar os nossos soldados no cumprimento dum dever cívico. Vejo amiudadas vezes sua filhinha com o avô, sempre bons. A. Charais“.

Entre 19 e 29 de Abril verificou-se uma grande ofensiva do general Nivelle contra as linhas alemãs no Chemin des Dames. Os ganhos franceses foram escassos e seguiram-se alguns motins entre esses militares.

Entretanto, nestas datas, completou-se a instalação do Quartel General da 1.ª Divisão portuguesa, chefiado pelo general graduado Gomes da Costa, em Thérouanne, enquanto o Q. G. do C. E. P. ficava em Roquetoire. Marthes, por sua vez, albergava o campo de instrução geral.

22 de Abril – “França. Ontem foi um dia de grande maçada; apanhei uma estopada de 5 léguas. Nas escolas há um pequeno órgão a fim de facilitar o ensino do canto coral e orfeónico aos rapazes e raparigas. O tempo continua mau.“.

23 de Abril – “França. Não acreditem em qualquer notícia que os jornais portugueses dêem a nosso respeito, porque é tudo um amontoado de mentiras. Nos jornais portugueses que ontem li só vi disparates, e custa a crer que permitam a publicação de tantas asneiras“.

23 de Abril – “França. Ontem tivemos música. Do sítio onde estávamos, via um campo de aviação. Era lindo ver os aeroplanos subir, descer e deslizar pelo campo fazendo várias evoluções. A música agradou muito. Na 4.ª feira damos um concerto oferecido ao Maire. O tempo parece que quer melhorar. Só em Agosto é que a primavera nos cumprimentará“.

24 de Abril – “França. Depois que vim para França, readquiri o hábito de me barbear e andar em bicicleta. Alguma coisa tenho aproveitado com isso. Amanhã há baile de roda. Três vezes por semana se repete esta brincadeira. 3.as, 5.as e sábados“.

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