Falta cumprir Peniche!

O dia de ontem pode e deve ser uma grande data para Peniche.
Creio que o Governo, complementando com eficácia o simbolismo da sua reunião de trabalho na Fortaleza, correspondeu  à expectativa e respondeu às legítimas dúvidas de que há pouco o Largo dos Correios se fizera eco. Com efeito, era necessário um compromisso mais claro que envolvesse planos, prazos e verbas. E isso finalmente avançou.
A reticência pessoal com que abro este texto tem a ver com a dúvida sobre o comportamento da futura autarquia penichense, a sair das próximas eleições. Se esta assumir as evidências com realismo, se aceitar que a actual oferta museológica local é modestíssima e que esta oportunidade tem de ser encarada com rigorosa lucidez e com bastante audácia, então Peniche poderá iniciar o planeamento e a concretização de um autêntico Museu do Mar que há muito merece.
Os visitantes, que serão muitos, do futuro Museu Nacional da Resistência (ou da Repressão, ou da Liberdade, tanto faz!) ver-se-ão “obrigados” a apreciar, logo ao lado, o Museu do Mar, progressivamente instalado, que revele a riquíssima e ignorada memória histórica, cultural, científica, social e humana desta comunidade, um património único e original, até agora desprezado.
O dia de ontem pode e deve ser uma grande data para Peniche. Sê-lo-á, como todos os de boa vontade aspiramos, se os próximos autarcas e as forças comunitárias locais estiverem à altura da iniciativa agora assumida pelo Governo.
O futuro de Peniche como Cidade do Mar, assim como o orgulho de se ser penicheiro e de o mostrar aos outros, podem ganhar-se ou perder-se nesta oportunidade, dificilmente repetível.
O dia de ontem pode e deve ser uma grande data para Peniche.
Oxalá seja!

António Martinó de Azevedo Coutinho

Peniche vai ter o 15.º museu nacional

 Governo reafirmou esta quinta-feira intenção de criar
museu da resistência contra a ditadura na Fortaleza de Peniche.
E destinou 3,5 milhões de euros para a recuperação deste monumento nacional.

O museu nacional da resistência contra a ditadura, que vai recuperar os três edifícios da antiga prisão política do Estado Novo na Fortaleza de Peniche, vai ser o 15.º museu da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC). O museu e a valorização da fortaleza, onde ficará instalado, viram esta quinta-feira ser-lhes atribuída, num Conselho de Ministros especial, uma verba de 3,5 milhões de euros para a recuperação de todo este monumento nacional, que inclui estruturas desde o século XVI, e para o respectivo projecto museográfico.

O Conselho de Ministros confirmou assim a dimensão nacional do museu a instalar na fortaleza – onde neste momento existe apenas um museu municipal com diversas temáticas -, notícia que já tinha sido avançada pelo PÚBLICO, depois de o grupo consultivo nomeado pelo ministro da Cultura ter apresentado as suas soluções para o futuro da Fortaleza de Peniche.

Museu da resistência ou da repressão?

Após a conferência de imprensa que se seguiu ao Conselho de Ministros na Fortaleza de Peniche, o ministro da Cultura esclareceu o modelo orgânico ao PÚBLICO, afirmando que a tutela será da DGPC, o organismo da cultura que reúne monumentos e museus.

Depois de Évora e Conímbriga, que se juntaram recentemente ao clube dos museus nacionais, será agora a vez de Peniche. Mas enquanto os dois últimos já fizeram parte da rede nacional tutelada pela DGPC, Peniche dá um salto raro na estrutura museológica portuguesa, passando de municipal a nacional e alterando substancialmente o seu programa.

Na conferência de imprensa, o ministro da Cultura Luís Filipe de Castro Mendes disse que o Governo espera inaugurar o museu em 2019, antes do final da legislatura. Pedro Marques, ministro do Planeamento e das Infra-estruturas, que também estava presente, explicou que estas verbas saem do programa Portugal 2020 e que ainda esta quinta-feira iriam sair “os avisos das candidaturas”.

À margem da conferência de imprensa, Paula Silva, directora-geral do património, disse que quer começar ainda este ano as obras nos edifícios da prisão e da própria fortaleza, chamando a atenção para o estado de degradação dos pavilhões A e B, que não estão musealizados, ao contrário do pavilhão C, onde se encontra o núcleo dedicado à resistência ao fascismo do actual museu municipal. Nas coberturas, apontou, é possível descortinar o ferro do betão armado que não devia estar à vista.

Fortaleza de Peniche deverá ser um museu nacional da resistência

O ministro da Cultura esclareceu que o nome do museu não é definitivo e que vai agora ser discutido no âmbito do projecto de recuperação da fortaleza, acrescentando em tom de brincadeira que Maria Manuel Leitão Marques, ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, igualmente na conferência de imprensa, tinha acabado de sugerir o nome de Museu da Liberdade. O museu foi, aliás, designado de várias maneiras durante a conferência de imprensa, tendo a ministra começado por chamar-lhe, no início do encontro com os jornalistas, “museu nacional dedicado à luta pela liberdade e democracia”.

A verba de 3,5 milhões de euros é resultante de uma avaliação do estado de degradação do monumento feita pelo Instituto da Construção da Faculdade de Engenharia do Porto, a pedido da DGPC, e revelada pelo ministro à Lusa também há dez dias. Apesar de a verba não coincidir com a avaliação de 5,5 milhões feita há mais tempo pela Câmara Municipal de Peniche, o seu presidente, António José Correira, disse aos jornalistas após o anúncio do Governo que está “muito satisfeito”. “A verba não tem de coincidir porque os 5,5 milhões tinham já algum investimento para algumas funcionalidades.” Pedro Marques tinha esclarecido que a verba de 3,5 milhões é para três anos, incluindo já 2017.

“Um lugar vivo”

O Conselho de Ministros reuniu-se em Peniche precisamente no dia em que se comemoram 43 anos da libertação dos últimos presos políticos de Peniche, concretizada dois dias depois da Revolução de Abril. Antes da reunião, o primeiro-ministro António Costa, rodeado dos seus ministros, fez uma visita guiada por alguns presos políticos e pelo presidente da câmara ao monumento, tendo passado por diversas celas, nomeadamente pela de Álvaro Cunhal, o secretário-geral do PCP já desaparecido.

Domingos Abrantes, que aqui esteve preso duas vezes num total de dez anos e que chegou um mês depois da famosa fuga de Cunhal e mais nove presos em 1960, contou junto ao muro exterior por onde se deu a evasão como naquela noite um guarda que ajudou os presos comunistas na fuga se sentiu “enganado” pelo número inesperado de fugitivos e abandonou os últimos quatro à sua sorte. António Costa, cujo pai já falecido esteve preso no Aljube e em Caxias mas não em Peniche, não fez declarações oficiais aos jornalistas, mas disse, dentro da confinada cela de Cunhal, que é a homens como Domingos Abrantes que devemos a liberdade. “Acho fundamental manter esta memória viva porque como infelizmente a História nos tem recordado quando nos esquecemos, tendemos a repetir aquilo que nunca mais pode ser repetido”, disse, citado pela Lusa.

Se a fotografia com os ministros foi feita no Baluarte Redondo, a estrutura mais antiga da fortaleza, já a que juntou o primeiro-ministro com as várias dezenas de presos políticos convidados para o evento foi tirada no Pátio da Cisterna, o espaço do pavilhão C onde os presos passavam o seu tempo de recreio.

Quem quer passar a noite numa prisão da Pide?

Ex-preso, Gaspar Barreira, um cientista que faz parte do grupo consultivo nomeado depois de o Governo ter recuado na intenção de adaptar a fortaleza a uma pousada, lembra-se de serem proibidos de se aproximarem das janelas e de estas terem vidros foscos. Só se ouviam as ondas do mar, as gaivotas e o som das traineiras. Há cinco ou seis anos, deixou de ter pesadelos em que continuava preso e já não sabe se sofreu muito ou pouco: “Não gostava que isto fosse uma coisa dos coitadinhos, um muro das lamentações. Claro que estiveram presas 2400 pessoas em Peniche mas a repressão tinha mais aspectos do que prisão e tortura. A situação da mulher, por exemplo, era extremamente gravosa.”

Sobre o anúncio do Governo depois de o grupo de trabalho ter apresentado as suas conclusões há dez dias, ficou muito surpreendido com a rapidez. “Era isto que nós esperávamos, conseguir reverter o programa de privatização de parte do espaço, mas não esperava uma resposta tão rápida, extrema e eloquente.” Conta que ainda se pensou numa pousada da juventude, mas não era rentável. Espera que se construa um auditório, que a câmara de Peniche não tem, e que possa surgir uma incubadora de empresas ligadas à economia do mar ou que se instalem aqui alguns ramos de investigação nesta área, porque este deve ser “um lugar vivo”.

 Isabel Salema/Público

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