Nos 75 anos do regresso de um herói – 12

Marinho da Silva, nas páginas finais do vol. II da interessante e sucinta biografia de João de Azevedo Coutinho publicada pela Agência Geral das Colónias, em 1945, recorda um pormenor da histórica sessão no Palácio da Independência.  Eis a parte final do artigo “O Beijo Sagrado do Herói”:

“ (…) Mas, ainda mais tocante foi para a minha sensibilidade, o outro sucesso em que João de Azevedo Coutinho recebeu preito condigno e que também se ficou devendo à iniciativa da Agência Geral das Colónias com a aprovação pronta do Ministro dr. Francisco Machado e com a decidida e entusiástica cooperação do Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa. 

Celebrou-se esse acto no Palácio da Independência – no lar da Mocidade – em 14 de Março de 1942. O Prof. Marcello Caetano apresentou aos rapazes o Herói como um “Exemplo para a Mocidade”, porque (deixem reproduzir as palavras do actual Ministro das  Colónias): 

“João Coutinho não temeu: encarou os perigos de frente, fez a sua escolha e sem olhar a mais nada – avançou. Vida, honras, comodidades – não tiveram para ele significado quando se tratava de servir como soldado. Preferiu tudo à infâmia: e assim encontrou a glória!”

 Estou a ver o Conselheiro João de Azevedo Coutinho, entre o General Eduardo Marques e o Dr. Francisco Machado, a escutar as alusões a actos extraordinários da sua existência extraordinária, que Marcello Caetano, Lopes Alves e Júlio Cayolla desbobinavam à Mocidade. Nem um músculo da sua face palpitava. A mão sobre o castão da bengala, como nos instantes de perigo, não tremia. Só os olhos tinham um brilho mais intenso. Só os olhos viam para além daquela hora: – as horas gigantescas que os oradores actualizavam. 

E, no fim, quando a assistência se levantou em apoteose, João de Azevedo Coutinho – o “rompe e rasga”, destemido e com errada fama de coração duro – ergueu-se, com as lágrimas a bailar nas pálpebras. Aproximou-se da velhinha e querida bandeira do Barué, que um graduado empunhava. Aprumado, como um soldado em continência, pegou nesse pedaço de fazenda que o sol de África queimara e o heroísmo dele e dos seus companheiros sagrara – levando-o aos lábios. 

Este gesto singelo, espontâneo, místico – não mais o esqueci.

Evocando-o, comovidamente, tenho a impressão que  faço reviver o “benemérito da Pátria” – em homenagem modesta de quem nele admirou, além do glorioso militar, o homem de uma só fé, de antes quebrar que torcer: sem medo e sem mácula”.

Numa iniciativa complementar, a Agência Geral das Colónias patrocinara a publicação, pela Editorial Ática, Rua das Chagas, Lisboa, de uma brochura intitulada João de Azevedo Coutinho – Herói de África. Elementos biográficos coligidos da Nota de Assentamentos e de outros documentos oficiais, onde consta uma exemplar anotação da maioria dos fastos da vida militar do biografado, postos e respectivas datas, tempo de serviço, louvores e condecorações, outras eventualidades, assim com alguns documentos transcritos do Livro de Assentamentos do Conselho do Almirantado, registo obviamente limitado ao espaço temporal decorrido entre o seu assentamento de praça (13 de Outubro de 1880) e a sua reforma como capitão de fragata (25 de Novembro de 1910). Trinta anos de uma vida fabulosa que, de outras diversas mas apaixonantes formas, tinha prosseguido por mais de outros tantos!

Esta brochura foi entregue a todos os participantes na sessão solene

O Conselheiro João de Azevedo Coutinho estaria certamente emocionado pelas sucessivas e vibrantes demonstrações de apreço que num ritmo febril se sucederam no curto espaço desse inesquecível mês de Março. Uma destas chegou-lhe de Gunten, o quartel-general do pretendente ao trono:

Gunten, 17 – III – 42
Meu Caro João Coutinho

Felicito-me por meu Lugar-Tenente ter sido oficialmente reconhecido Vice-Almirante. Receba pois os meus mais cordiais parabéns. Minha Tia Aldegundes e Mana Filipa enviam sinceras felicitações.
Estamos lendo suas “Memórias” com imenso interesse a admiração. (…)
Desejo que o meu Querido Lugar-Tenente passe melhor de saúde e rogo a Deus o tenha na Sua Santa Guarda.

Seu Muito Amigo
Duarte”

As palavras em corpo normal são significativamente manuscritas, no final da carta dactilografada.

Entretanto, o jornal Correio de Portalegre, continuando a destacar o conjunto de homenagens a João Coutinho, avançara a 18 de Março uma oportuna sugestão:

Conselheiro Azevedo Coutinho

Por motivo da sua reintegração na Armada, como Vice-Almirante, nomeação decretada pela Assembleia Nacional sob proposta do falecido deputado Vasco Borges, têm sido prestadas a João de Azevedo Coutinho, herói e benemérito da Pátria, soldado gloriosíssimo das Campanhas de África, antigo governador de Moçambique, antigo Ministro do Ultramar e português da melhor estirpe, as mais eloquentes homenagens.
Porque elas são justíssimas, e porque João de Azevedo Coutinho está ligado a Portalegre, entre outros laços pelo do casamento com uma ilustre Senhora do nosso meio, não seria altura de Portalegre reparar a injustiça e a feia acção cometida ao apagar da esquina de uma rua o nome de João de Azevedo Coutinho que, anteriormente, com tanta pompa e festa ali gravara?

Lamentavelmente, e apesar de tentativas posteriores -algumas recentes- de repor uma justiça mínima, esta ainda tarda…

Até quando!?

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