1917 – há 100 anos – vinte

25 de Abril – “França. Ontem cheguei muito maçado do tal passeio. Actualmente uso pulseira gravada. Se puder hei-de fazer-te presente de tal preciosidade, que deverá ter grande valor estimativo como recordação da minha peregrinação por estas paragens“.

A pulseira em causa é de metal com “correia” em mola de bicha, do mesmo material. Tem a inscrição, gravada, “1.ª B I  Martinó  I. 22  C. E. P.”.

26 de Abril – (5 postais) “França. Ontem passou-se entre a dona da minha casa e os impedidos uma cena que me fez rir. Ela, uma dama já velha, arrebitada e muito misteriosa, quer semear o quintal sem gastar cinco reis e então, num francês aportuguesado, não larga os ordenanças e impedidos, dizendo num tom de velha gaiteira “ai portuguais bons garçon, tres bom pour travail…”. Esta madrugada uma das muares soltou-se e foi para a horta em passeio matinal mas tanto brincou sozinha que desenterrou algumas batatas que os rapazes já tinham semeado. Passado um bocado lá andavam os pobres soldados, levados pelas palavras doces da madame a arranjar o que a menina mula tinha feito de noite e mais ainda porque agora, 15 horas, ainda a velha cheia de folhos anda dando ordens aos rapazes. Um deles, muito maroto e com certeza a fazer joguinho a alguns “sous”, dizia-lhe, no meio do sorriso agarotado dos outros: “madama portugais bon garçon, compri? Beaucoup travaiores, compri?” Então a madame toda inchada, por ver que cada vez tinha mais terreno cavado, dizia “ui, ui, compris, tres bon garçon”; mas enquanto a madame se derretia com elogios iam eles dizendo (então em bom português): “sim, namora-me que ainda não almocei” e a seguir já todos diziam: “isto já não bone…” A velha então saiu um pouco da sua avareza e chamou-os para lhes dar um copinho de vinho a que dava o nome de Porto, mas que com certeza aqui mesmo foi feito! N. B. para todos se compreenderem o melhor possível, ela falava um francês aportuguesado e eles um português afrancesado, e que mais engraçada tornava a cena“.

27 de Abril – “França. Ontem fui com a música tocar a uma terra que ainda não conhecia. A banda agradou bastante. Hoje tenho uma grande marcha; das 7 da manhã às 5 da tarde“.

20 de Abril – Portalegre: “Até que enfim, depois do mau tempo que houve, apareceu um tempo lindíssimo que nos tem consolado já há bastantes dias“.

28 de Abril – “França. Ontem cheguei muito maçado; andei 25 Km. (…) O Avozinho que mande dizer como ficou resolvida a importância com que contribuíste para a assistência religiosa em campanha. Hoje tenho um grande passeio e no domingo há uma grande festa militar onde também vou. Já há oito capelães militares em França; no nosso regimento está um“.

 29 de Abril – “França. Tenho os pés em mísero estado; não calculas as grandes caminhadas que ultimamente tenho feito. Estou em vésperas de dizer adeus à velhota“.

30 de Abril – “França. A festa militar foi muito concorrida e bonita. Chegou hoje o alferes Santos Lima que trouxe recomendações do Avozinho. Ontem esteve um dia bastante quente.”

Balanço da correspondência no mês de Abril de 1917. De França: 44 postais, dos quais o do dia 18 é uma aguarela; 10 são de tema infantil, 3 patrióticos, 12 de paisagens, 4 com animais (gatos) e os restantes 14 do tipo romântico. De Portalegre: três cartas e um postal, este do tipo infantil.

2 de Maio – “França. Já fiz as minhas despedidas à velhota. Também já cá está o Dr. Guerreiro, mas ainda não estive com ele. O tempo melhorou bastante“.

No dia 3 de Maio de 1917, em Arras, um forte ataque dos ingleses (Operação Alberich) quebrou a Linha (alemã) de Hindenburg.

3 de Maio – “França. O calor apertou a valer; já estou mais preto do que quando regressei de Tancos a Portalegre. Melhorei alguma coisa“.

4 de Maio – “França. Eu e o Alferes Pereira recebemos hoje uma caixa de amêndoas de Portalegre que o Dr. Malato nos enviou como lembrança da Festa Pascal“.

Francisco António Malato, nascido em Portalegre em 3 de Abril de 1883, foi ordenado padre em 1904, depois de formado em Teologia pela Universidade de Coimbra. Foi cónego capitular da Sé de Portalegre e Vigário Geral da Diocese. Nos anos 20 comprará a Tipografia Leonardo, que põe ao serviço da Diocese com a nome de “Nun’Álvares”. Foi localmente um dos fundadores e animadores do Corpo Nacional de Escutas. Morreu a 18 de Dezembro de 1962.

5 de Maio – (dois postais) “França. A revista militar foi muito bonita; os oficiais ingleses gostaram, principalmente do desfile. Ao atravessarmos uma village, a rapaziada das escolas formou alas. Vínhamos tocando uma marcha sobre motivos duma canção francesa muito vulgar (alguns compassos escritos!). O calor tem sido horrível. O quanto à chegada era de frio é agora quente; se assim continuar não sei onde isto irá parar. (…) Quando pela manhã chego às janelas, os pombos e galinhas saltam para o parapeito para me cumprimentar. Tenho que lhes oferecer alguma coisa para lhes agradecer a visita, bastante matinal, às vezes. Julgo que amanhã há outra revista muitíssimo mais importante que a de hoje“.

Neste dia 5 de Maio de 1917, inserida na Ofensiva Nivelle, aconteceu a importante Batalha do Chemin des Dames.

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