A VOZ EMUDECIDA DE PENICHE

Há uma boa dúzia de anos, ou talvez um pouco mais, em diversas e sucessivas oportunidades “protestei” por escrito contra o facto de ambos os jornais que por essa altura existiam na minha terra natal marcarem férias precisamente durante a mesma precisa quinzena e assim privarem os leitores, no momento, da crónica ou relato do sucedido na sua própria zona de intervenção e, no futuro, limitarem ou iludirem os estudiosos no acesso à memória histórica da comunidade.

É como se tivesse acontecido uma interrupção temporária ou “apagão” na vida local, porque aquilo que fica como memória futura é o que em cada momento se regista e se arquiva.

Tal falha acabou por ser compensada por uma espécie de “recapitulação” do que entretanto sucedera de essencial, após a cíclica e anual retoma das publicações.

Recordei Portalegre e os seus dois semanários existentes por essa época, o Fonte Nova e O Distrito de Portalegre. O primeiro, laico, tinha então vinte e tal anos de existência e o segundo, propriedade da Diocese, bem mais de um século. Aliás, desde que me lembro, nunca a minha cidade teve menos de dois jornais, sempre semanários, e, durante algumas décadas, mesmo três. A consulta dos volumes que a Biblioteca Municipal deles guarda permite conhecer os factos e as personalidades, enfim, a existência colectiva datada e sequencial no quotidiano em décadas e décadas de vivências locais.

Em Peniche não se verifica este fenómeno ou, no mínimo, ele não atinge tal dimensão. Bem pelo contrário.

Desde que frequento esta cidade, como visitante de há uns trinta anos até hoje e agora em permanência, sempre aqui existiu um jornal, quinzenário, A Voz do Mar. Na maior parte desse tempo foi dirigido por um bom amigo e colega, entretanto falecido, o saudoso Prof. António Alves Seara. Mais recentemente, há uns dez anos, foi mudado o director, decisão que em absoluto competiu aos seus responsáveis editoriais.

A Voz do Mar é propriedade da Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia de Nossa Senhora da Ajuda da Cidade de Peniche e autoclassifica-se como um quinzenário regionalista que se propõe defender os interesses do concelho e das regiões vizinhas. Logicamente, assume-se como órgão apartidário de inspiração cristã. Após alguns considerandos públicos, constantes do seu Estatuto Editorial, manifesta explicitamente o compromisso de respeitar os princípios deontológicos e a ética profissional inerentes à prática de um jornalismo digno.

Nem seque me atrevo a duvidar deste rol de declarações e de intenções. A minha desconfiança acerca da importância e da eficácia comunitárias do jornal radica não nos pressupostos teóricos mas na concreta aplicação prática.

Nem sequer separo as suas manifestas carências intrínsecas em qualidade e quantidade informativa de uma responsabilidade externa, comunitária. Com efeito, uma cidade e um concelho que de há muito aceitam ser informados (e formados!) por um quinzenário que faz oscilar o seu nível entre o catequético boletim paroquial e o panfletário boletim municipal têm afinal o que merecem. À persistente (ou indolente?) falta de exigência da comunidade corresponde portanto um jornal que não se sente obrigado a um esforço mínimo de melhoria e de progresso. A ausência de títulos concorrentes assegura-lhe a tranquilidade, numa espécie de paz dos cemitérios da comunicação social…

A Voz do Mar, como único e exclusivo órgão de imprensa escrita de Peniche, não é apenas um produto de consumo interno porque lhe cabe, ainda que involuntariamente, o papel de embaixador cultural e informativo da cidade e da concelho, estatuto em que mais se evidencia a sua manifesta vulgaridade.

No passado fim de semana, 21 e 22 de Abril, aconteceram em Peniche alguns eventos de inegável qualidade: uma participada Jornada do Núcleo local da Amnistia Internacional que trouxe até nós um invulgar leque de oradores, tratando de temas da mais flagrante importância e actualidade, um notável passeio aberto com pretexto numa visita guiada da Associação Patrimonium pelos Azulejos de Peniche de Cima e a apresentação pública da tese de mestrado de Adriana Alves sobre Turismo Cultural em Peniche, trabalho com manifesto interesse e potencial aplicabilidade locais.

A edição do quinzenário A Voz do Mar relativa a 28 de Abril não contém um título, uma imagem, uma linha, uma palavra sequer, sobre qualquer destes acontecimentos. Para o jornal, para quem o redige e para quem o dirige, nada disso existiu. Quem no futuro procure nessa fonte (!?) recolher informações sobre o acontecido em Peniche naqueles dias nada, rigorosamente nada, ali encontrará a tal propósito. Será como se aqueles eventos não tivessem sido realizados. Surreal mas autêntico…

Este é um banal exemplo, normal paradigma no entanto da miopia informativa, da vesga política cultural, do real entendimento (censório ou devido a pura “distracção”?) praticado por quem subscreve salutares princípios deontológicos. As miserandas e clássicas desculpas de falta de espaço, de sobreposição de tarefas, de insuficientes quadros redactoriais ou de falhas informáticas já não colhem como noutros tempos…

É assim que o jornal vai prosseguindo o seu percurso, embrulhado num grafismo rudimentar, divulgado ao sabor de um lento, pastoso e sempre ultrapassado ritmo, cultivando sistemáticas, laudatórias e quase reverenciais personificações, pleno de cediços conteúdos opinativos e, sobretudo, de um serviço informativo parcial e selectivo.

A Voz do Mar emudece ou gagueja, perante a  utilitária aceitação -quem sabe se até mesmo com aplauso!?- de audiências que assim, através deste pragmático modelo, se sentem servidas ou realizadas.

Porém Peniche, como em tantos outros campos ou sectores da sua vida comunitária, mereceria muito mais.

E melhor.

António Martinó de Azevedo Coutinho

One thought on “A VOZ EMUDECIDA DE PENICHE

  1. Desde sempre A Voz do Mar: foi um veiculo de ( des)informação do centro paroquial de Peniche,isto porque quando a noticia chega aos seus poucos leitores, já passou tanto tempo,que a noticia passou a ser uma não noticia .
    E penso que não evolui devido há sua linha de censura, que não publica escritos de colaboradores que manifestam opinião que eventualmente possa colidir com a sua linha editorial religiosa .

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