Lembranças de Guernica

Há meia dúzia de dias passou mais uma efeméride, a 80.ª, sobre um dos mais dramáticos episódios da sangrenta Guerra Civil de Espanha, o bombardeamento de cidade basca de Guernica.

Nesse 26 de Abril de 1937, segunda-feira, acontecia mais um dia de mercado naquela pequena cidade. Pelo meio da tarde, os sinos das igrejas locais tocaram a rebate. Logo surgiu dos ares um avião que sobrevoou a povoação e lançou as primeiras seis bombas. Depois, durante três intermináveis e infernais horas, vieram outros e outros e contaram-se mais de quarenta bombardeiros alemães das esquadrilhas da Legião Condor, aliada das tropas de Franco. O massacre foi de tal modo violento e trágico que a cidade praticamente desapareceu do mapa. Homens, mulheres, velhos, crianças e até gado tinham sido metralhados sem dó nem piedade…

Pablo Picasso, pintor espanhol exilado mas profundamente comprometido com os destinos do seu povo, foi sensibilizado pela tragédia que motivaria uma das suas mais conhecidas obras.

De grandes dimensões, 3,5m x 7,8m, este painel constitui um doloroso símbolo do terror provocado pelo bárbaro bombardeamento. Na sua uniforme tonalidade de negros, brancos e cinzentos, com raros traços amarelados, a obra reproduz os sentimentos do ódio legítimo perante uma violência inominável. Num dos seus estilos peculiares, Picasso reproduz aí metafóricas imagens do povo, dos animais, das construções atingidas e desfeitas pelas bombas. A conseguida imitação duma técnica de colagem, sobrepõe, descobre ou oculta representações justapostas numa perspectiva original. Os coloridos uniformes, na ausência de outras tonalidades, valorizam e contrastam os planos, os fragmentos anatómicos e as próprias iluminações, produzindo uma nauseante e quase absurda sensação de morte.

Picasso criou esta tela imortal no próprio ano da tragédia que a motivou, 1937. Exposta primeiro em França, foi depois transferida para a segurança que os Estados Unidos podiam garantir, durante a II Guerra Mundial. O pintor determinou que ela se destinava à sua querida Espanha natal, mas apenas quando esta fosse uma nação democrática. Assim, em 1981, Guernica deixou o seu exílio no MOMA, de Nova Iorque, e rumou para Madrid, onde pode ser admirada no Centro Nacional de Arte Rainha Sofia.

Parece ter sido verdade que, em 1940, quando o pintor vivia exilado em Paris e esta cidade estava sob ocupação nazi, um oficial alemão, perante uma fotografia que reproduzia o grande painel  Guernica, perguntou a Picasso se tinha sido ele o autor daquilo. O artista, então, terá energicamente respondido: -“Não! Foram vocês!

De uma das minhas idas a Madrid, trouxe daquele museu uma placa de cerâmica impressa com a Guernica. Dei há pouco com ela partida em duas, resultado das atribulações das mudanças. Colei-a e acho que agora reproduz com mais fidelidade a violenta ruptura da normalidade quotidiana que o episódio significa…

Mesmo com um ligeiro atraso cronológico, não quis que passasse em claro a lembrança do indizível horror.

Para que jamais se repita.

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