Nos 75 anos do regresso de um herói – 14

Nos princípios do mês de Maio de 1942 ocorrera em diversas localidades do País uma vaga de greves, duramente reprimidas, em protesto contra a continuação do auxílio material à Alemanha, o aumento dos bens essenciais de consumo e a incapacidade governamental de assegurar a regularidade do sistema de racionamento, dominado pela especulação e pela corrupção.

Entretanto, por diversas vezes, neste período, foi levantada pelo conselheiro João de Azevedo Coutinho a questão da Companhia de Moçambique, à qual estava ligado por diversos tipos de interesses, do moral ao material. O termo do prazo da concessão dos poderes majestáticos que lhe tinham sido concedidos pelo antigo decreto de 1891, as limitações criadas pelo Acto Colonial e pela própria Constituição Política de 1933, tinha tudo convergido numa profunda alteração dos seus estatutos e organização. Nessa altura estava transformada numa holding, com a participação de várias sociedades e de interesses sobretudo nacionais e ingleses.

Para além das homenagens recebidas uma outra, desde há muito preparada com o maior cuidado, esperava ainda Azevedo Coutinho. Será na nobre cidade do Porto, em cuja área residiam muitos dos que em África tinham servido sob as suas ordens. Uma comissão que integrava personalidades e instituições portuenses das mais categorizadas acaba por marcar para 26 de Junho essa grande festa de homenagem a João Coutinho.

Este chegará ao Porto na manhã desse dia, tendo viajado no comboio rápido e sendo esperado na estação de S. Bento por muitas individualidades, entre as quais os Srs. governador civil, presidente da Câmara Municipal, comandante da I Região Militar, chefe do Departamento Marítimo e outras autoridades civis e militares, além de inúmeros populares. Depois, retirou-se para descansar um pouco, num automóvel onde teve a companhia do entretanto nomeado seu oficial às ordens, o conde de Vilas Boas, um velho camarada de armas em Moçambique.

A sessão solene teve lugar à noite, no salão árabe do Palácio da Bolsa, que recebera no passado figuras como Roberto Ivens, Brito Capelo, Mouzinho de Albuquerque e Alves Roçadas. Azevedo Coutinho, emocionado, vê então à sua volta alguns dos antigos companheiros de armas, para além das individualidades de maior prestígio social e intelectual do Porto.

Falaram o presidente da Câmara Municipal, Prof. Dr. Mendes Correia, o comandante Quelhas Lima e o chefe do distrito, Dr. António Pires de Lima, todos enaltecendo a figura e a obra, invulgares, do homenageado.

Da reportagem constante do Diário de Notícias de 27 de Junho de 1942, regista-se aqui a parte final, relativa às palavras de Azevedo Coutinho:

O vice-almirante João de Azevedo Coutinho, escutado de pé pela assistência, disse que as manifestações de carinho que tem recebido, e às quais o Porto se associou, não são para ele, mas sim para os seus gloriosos companheiros de campanha, cujos nomes recordou saudosamente. Evocou os pioneiros da conquista e ocupação do Império, apontando-os como orgulho dos portugueses.
– São eles -disse- e não eu, figura apagada, que com os fatos desbotados pelo sol e pelas chuvas e as figuras cansadas pelas provações que aqui se perfilam.
E terminou exclamando:
– Salvé a cidade do Porto! Viva Portugal e o Império!
A assistência, que aplaudira calorosamente todos os oradores, fez nesta altura a João de Azevedo Coutinho uma ovação apoteótica”.

O jornal A Voz, no dia 7 de Julho, publicará uma notícia do seu correspondente em Portalegre, datada de 1:

Conselheiro João de Azevedo Coutinho

A nobre cidade do Porto prestou uma grandiosa homenagem ao insigne português Sr. Conselheiro João de Azevedo Coutinho, que foi proclamado benemérito da Pátria pelo Parlamento, o herói das campanhas de África, o alentejano prestigioso, filho do nosso distrito e que à nossa terra veio buscar para sua esposa a nobre fidalga portalegrense D. Maria Inês de Barahona.
Após os seus feitos heróicos a Câmara Municipal honrou a cidade dando o seu nome a uma das suas ruas.
Proclamada a República, uma Comissão Administrativa da Câmara Municipal mandou arrancar as placas e substituí-las por 19 de Junho, nome sem finalidade nenhuma na nossa terra.
Já tratámos em correspondência para A VOZ deste assunto; renovamos hoje o pedido à Câmara Municipal da digna presidência do respeitável portalegrense Dr. Afonso Sampaio, para que mande reparar esta tremenda injustiça reconduzindo ao seu lugar as placas com o nome do grande marinheiro que com a sua heroicidade fez estremecer de júbilo todos os filhos de Portugal”.

O pedido ficou, mais uma vez, sem resposta. Uma espécie de maldição parece pairar sobre o assunto…

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