1917 – há 100 anos – vinte e dois

15 de Maio – “França. Hoje tenho concerto musical onde já fui por várias vezes. Hoje convidámos para jantar na nossa “Mess” o professor, professora e a família.  A “Mess” está cada vez mais aumentada e não há meio de me ver livre da direcção de tal espiga“.

Neste dia 15 de Maio entra nas trincheiras o 2.º Batalhão português, precisamente o B. I. 22. A banda de música não o acompanha. No entanto, como claramente se deduzirá dos próximos testemunhos do seu maestro, a situação de todo o efectivo vai agravar-se significativamente.

16 de Maio – “França. O jantar oferecido ontem esteve animadíssimo e divertido. Veio mais uma professora, que por sinal canta muito bem. Hoje pela 1.ª vez  fui dar um passeio a cavalo; dei uma volta duns 25 Km“.

17 de Maio – “França. Ontem, durante mais de uma hora usei máscara e capuz e fizeram-me chorar, mesmo sem eu querer. Hoje está um dia muito desagradável; chuva e frio, apesar de ser 5.ª Feira de Ascensão. Em França é um dia muito festejado e ninguém trabalha“.

Como se pode depreender, um ataque por gás fez-se sentir e obrigou ao uso de máscaras.

18 de Maio – “França. Hoje foi o dia de maior trabalho que tenho tido; principiei às 9 horas para só terminar às 9 da noite. Não sei se já te disse que é coisa rara ver uma mulher ou menina com brincos. Em todas as Villages há nos cruzamentos de estradas – principalmente – uns Calvários lindíssimos e muito bem arranjados, com árvores próximas“.

19 de Maio – “França. Faz hoje precisamente 4 meses que me despedi de ti e retirei de Portalegre. Tivemos hoje uma grande revista. O sítio por onde passei é lindíssimo, fez-me lembrar a nossa Serra de Portalegre. Comprei uma travesseira, uma banheira e uma bacia para me lavar; as três coisas reunidas cabem num bolso do casaco. Trago os pés em mísero estado“.

20 de Maio – “França. O quanto isto era frio no Inverno é agora lindíssimo. Amanhã continuo a minha peregrinação“.

Continuaram a verificar-se os motins no Exército francês, sobretudo na Champagne.

10 de Maio – Portalegre: “O tempo tem estado muito bom; ainda aparecem as cerejas, mas eu já provei os primeiros morangos, poucos e pequeninos. Também agora tenho escola aos Domingos, das 10 horas da manhã até às duas da tarde“.

23 de Maio – (dois postais) “França. Nos dias 21 e 22 não pude escrever. (…) A região que atravessei é lindíssima e muito pitoresca. Pela 1.ª vez vi grandes barcos deslizando na água puxados por parelhas de cavalos.[É óbvia a aproximação física da frente de combate, que o C. E. P. vai progressivamente ocupar, nos sectores que lhe estão reservados]França. Cheguei bem. À nossa chegada houve grande arraial que se prolongou por bastante tempo. Vi porcos voadores. Não podes fazer ideia do quarto onde fiquei e da cama em que me deitei; e principalmente da bacia onde lavei a cara. Os lençóis eram da cor das botas. Enfim, vai havendo saúde e francos. Ainda não chegaram as malas, por isso vejo-me seriamente atrapalhado“.

O grande arraial e os porcos voadores, metáforas com que José Cândido “ilude” a censura, correspondem obviamente a bombardeamentos (artilharia?) e a aviões alemães.

24 de Maio – (dois postais) “França. O arraial continua cada vez mais animado. Olha-se para tudo isto com um desprendimento extraordinário. (…) Enfim, haja saúde e que Deus te proteja“; “França. Faço votos para que continues a ser aplicada a fim de te preparares para seres uma menina educada e apresentável; pois que a instrução é mais necessária que a própria alimentação, sem a qual não podemos viver“.

25 de Maio – (dois postais) “França. Não me canso de admirar a vegetação e a paisagem destes sítios. As andorinhas são muito mais bonitas que as que aparecem em Portugal“; “França. O arraial continua animadíssimo. À noite, também deitam foguetes de lágrimas. Ontem assisti a uma grande caçada a um grande pássaro que não se deixou apanhar”.

26 de Maio – (dois postais) “França. Ontem, durante quase todo o dia, assisti a verdadeiras caçadas aos pássaros mas nenhum se deixou apanhar. O Joaquim chegou ontem à tarde mas as malas ainda não chegaram. Se visses o quarto e a cama onde me deito fugias horrorizada. O arraial e foguetório cada vez mais animados. Durante a manhã choveu bastante.“;França. Fiquei deveras satisfeito com os teus progressos, prova evidente da tua aplicação e boa vontade em te instruíres. A instrução é o melhor bem que qualquer pessoa pode possuir, principalmente uma pessoa dotada de bons sentimentos e bom coração. Nunca como agora eu reconheço o quanto a instrução faz falta a qualquer pessoa que tenha de desempenhar qualquer cargo de alguma representação“.

Os “arraiais“, o “foguetório nocturno” e as “caçadas aos grandes pássaros” constituem expressões metafóricas de fácil descodificação…

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