1917 – Há cem anos – vinte a quatro

Os bilhetes postais ilustrados de José Cândido Martinó (França) para a filha Benvinda (Portalegre) e as respostas desta continuaram pelo mês de Junho de 1917.

1 de Junho – (três postais) “França. Como já ontem te disse, fui tocar a uma terra bastante bonita. (…) Fomos e viemos de automóvel.”; “França. Também tive ocasião para ver os restos de algumas casas. Voltei para o mesmo sítio onde esteve a “Mess“. “; “ França. Quando retirávamos, encontrei uma música inglesa, que estava tocando ao marchar, e compunha-se de: à frente estava o tocador de bombo tendo dos lados 6 caixas (tamboris), seguiam-se 6 flautas e uns 12 flautins; cada executante tinha suspensa uma corneta (bluques). Executaram vários trechos, sendo o último o hino inglês; depois disto cada músico empunhou a respectiva corneta e tocaram o recolher, que por sinal é muito semelhante ao do nosso exército. Tudo executado com muita correcção e aprumo. O compasso era marcado pelo tocador de bombo que fazia várias habilidades com as duas macetas.”; “França. O tocador de bombo cruzava as baquetas, colocava-as na posição horizontal, vertical, etc., mas tocando sempre e cheio de grande importância. Os tocadores de caixa também faziam palhaças com as baquetas. O maestro de tal música estava ao lado dos executantes, mas sem fazer a mais leve indicação nem um gesto. À frente, e a certa distância, estavam os dois oficiais de serviço. Havia vários mirones a apreciar o interessante e original concerto”.

2 de Junho – “França. Disseram-me que ontem tinham caçado um dos tais pássaros; tive bastante pena de não ter visto“.

Desta data, 2 de Junho de 1917, consta um Boletim do Corpo Expedicionário Português relativo à entrega de 500 francos, remetidos por José Cândido ao pai,  Manuel Maria Martinó, Portalegre e datado de “Em campanha, 2 de Junho de 1917”.

Também deste dia, de Portalegre (Quinta Robinson) foi enviado a José Cândido Martinó um postal, com carimbo de Censura, agradecendo-lhe a lembrança  e retribuindo com um afectuoso abraço, do “amigo dedicado Manuel do Carmo Peixeiro”.

3 de Junho – “França. O museu foi enriquecido com mais uns exemplares novos. Continuo habitando a minha barraca, que é muito superior à de Tancos (…) O Joaquim foi ontem fazer compras à cidade que brevemente tenciono visitar“.

4 de Junho – “França. Tem-se estranhado bastante que em França ainda não haja enfermeiras portuguesas; assim como a acção nula da Cruzada das Mulheres Portuguesas. Os pássaros continuam a aparecer aos bandos mas não se deixam apanhar“.

Neste dia 4 de Junho de 1917, o nosso Batalhão de Infantaria 35 sofreu um forte raid alemão, que conseguiu repelir.

5 de Junho – “França. Recebi ontem o lindo postal com a 2.ª prova escolar que me enviaste. Gostei e fiquei muito satisfeito por verificar o quanto tens progredido. Brevemente enviarei mais 500 Fr. O dinheiro que aí for juntando é para mais tarde fazeres uma visita na minha companhia a França“.

Entre 7 e 14 de Junho aconteceu a Batalha de Messines. Depois de uma grande explosão de minas, as forças britânicas “limparam” o terreno para a seguinte importante ofensiva.

7 de Junho – “França. Ontem houve uma formidável trovoada acompanhada de muitíssima chuva; é a primeira desde que estou em França. Não pudemos jantar no retiro dos pacatos porque ficou tudo encharcado. Como a parte exterior da barraca é de ferro zincado, a chuva ao cair fazia um charivari medonho.”.

8 de Junho – (dois postais) “França. Fui ontem dar um passeio de que gostei muitíssimo. É uma cidade muito bonita com belos prédios e grandes edifícios. O interior da Catedral é imponente e com vitrais como ainda não tinha visto melhor. (…) Não calculas o estado em que vi alguns prédios; é tudo obra dos passarões“. [A cidade será Béthune, um pouco a sul, a localidade importante que mais perto se encontra da linha das trincheiras, junto ao sector de Ferme du Bois?]; “França. Vi belíssimas cerejas, mas a 4 francos cada quilo; batatas a 2,50 cada quilo e um peixe qualquer a 8 francos cada quilo, e tudo assim. França. Tirei novamente uma fotografia que depois te enviarei. Hei-de voltar qualquer dia à mesma terra; é perto e fui a pé com o secretário do ex-ministro do trabalho. Daqui a pouco tempo, Portugal muda-se para França“.

9 de Junho – “França. Quando ontem (dia 7) fui passear, contava assistir à Procissão do Corpo de Deus mas foi adiada para Domingo; se tiver vagar, volto lá novamente. A estrada parece uma sala: é varrida, alcatroada, regada e desinfectada. Tive conhecimento que a Fábrica das Rolhas fechou. É uma grande calamidade para Portalegre. Pobre gente; deve haver muita miséria. Quando alguém vá a casa pedir esmola, vai dando alguma coisa“.

Sobretudo desde fins de Abril de 1917, toda a imprensa de Portalegre vinha dando conta da crise laboral na Robinson e, ao mesmo tempo, tomando a iniciativa (nomeadamente “O Distrito” através do seu redactor Armando Neves) de instituir a “Sopa para os Pobres”, destinada a minorar as graves dificuldades do operariado no desemprego. O próprio industrial George W. Robinson associar-se-á ao meritório e colectivo empreendimento que vai mobilizar toda a comunidade portalegrense.

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