Amigos de Peniche

Ao escritor e jornalista madeirense José Viale Moutinho deve-se, entre muitos outros trabalhos, um destinado ao Diário de Notícias, consistindo na recolha e organização de um notável conjunto de lendas e episódios locais, de Norte a Sul de Portugal, depois publicado como sucessivas separatas do jornal, em 2003.

Dedicado a Peniche, foi ali apresentado o histórico caso dos “amigos da onça” que constitui, para quem não o conheça com algum rigor, um injusto e imerecido labéu aplicado às gentes da Cidade do Mar, que involuntariamente se limitaram a fornecer o contexto geográfico…

Hoje, na passagem de mais uma vulgar efeméride do acontecimento, aqui se recorda o esclarecedor depoimento de José Viale Moutinho. Por mera curiosidade, junta-se um outro, colhido com a devida vénia no interessante e apreciado blog de Paula Freire intitulado Notas Soltas & Coisas Doces.

Aqui fica a simbólica comemoração de uma data marcante, pelo equívoco, numa terra admirável onde conto com verdadeiros amigos.

Peniche é uma península conhecida pela prática do surf na praia dos Supertubos; por ser uma vila piscatória com comida maravilhosa associada a essa actividade; pela ilha das Berlengas com o seu Forte de S. João Baptista onde se filmaram algumas cenas do filme “O Conde de Monte Cristo”; pela lindíssima renda de bilros que a todos encanta; e, entre outras coisas, por alguns episódios ligadas à História de Portugal, como a famosa fuga de Álvaro Cunhal da prisão situada na Fortaleza ou o período do domínio espanhol que ficou marcado por uma expressão que ainda hoje se utiliza, embora de forma depreciativa, e que é a que nos interessa: “Amigos de Peniche!”

Reza a História que D. Henrique morreu sem deixar descendência ao trono de Portugal. Por isso, alinhavam-se na sucessão três netos de D. Manuel: Filipe II, Rei de Espanha; D. Catarina de Bragança e D. António, Prior do Crato. Sendo o primeiro mais apoiado pela corte portuguesa, a força logo se fez sentir através de uma entrada via Alentejo, comandada pelo Duque de Alba, tendo o monarca espanhol sido declarado também Rei de Portugal.

Inconformado com a situação, D. António Prior do Crato recorre a Isabel Tudor, de Inglaterra, para que o auxilie na devolução do trono aos portugueses. A monarca inglesa disponibiliza-lhe, então, um exército de 12.000 homens constituído essencialmente por mercenários, sendo que o Prior não sabia disso. Assim, a 26 de Maio de 1589, os penichenses vêem desembarcar na praia do sul o “exército” comandado pelo General John Norris, enquanto Francis Drake seguia por mar, para se situar em Lisboa, aguardando pela chegada, por terra, da tropa desembarcada em Peniche. Esta avançou sem rei nem roque e foi devastando e roubando as terras por onde ia passando.

Entretanto, os rumores que chegavam a Lisboa faziam notar que “os amigos de Peniche” estariam a chegar.

Chegados à entrada da capital, acamparam no Monte das Oliveiras, sendo que os canhões situados no Castelo de S. Jorge, por ordem de D. Gabriel Niño, começaram a disparar. A surpresa, desta vez, caiu para o lado do John Norris que não estava à espera desta recepção, pois D. António Prior do Crato havia assegurado, por forma a obter o auxílio que buscava, que não haveria necessidade de combater. Consequentemente, o acampamento foi desviado para a Boa Vista e para o Bairro Alto, de onde se retirou para a Esperança, acabando por se refugiar em Cascais e depois partir.

Dentro das muralhas do castelo, crescia a ansiedade dos “antonistas” que não viam chegar “os amigos de Peniche”. Frustradas as esperanças, os “antonistas” ficaram com a desilusão para sempre ligada àqueles amigos que não tiveram interesse em ajudar os portugueses a recuperar a sua independência, mas antes fazer uma escaramuça para humilhar o reino espanhol.

Volvidos séculos, a expressão ganhou um contorno mais doce e, agora sim, ligada às gentes de Peniche – que nada têm a ver com a injusta expressão que se lhes cola (ou colou). E mais doce não poderia ser, pois transformou-se num bolo! Os “Amigos de Peniche” são uns pastéis que lembram os de feijão. São feitos com farinha, ovos e amêndoa e podem ser saboreados em qualquer pastelaria de Peniche.

Paula Freire – Blog Notas Soltas & Coisas Doces  

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