O colonialismo português – II

O custo económico, social e político da participação de Portugal na guerra foi elevadíssimo: agitações, greves, fome, desemprego, a ditadura de Sidónio Pais, prisões, repressões sangrentas, desequilíbrios orçamentais, ameaças de bancarrota. Contudo, efectivamente, no fim da guerra, Portugal sentava-se entre os grandes à mesa de conversações e assegurava a continuidade do Império Colonial, além de ter recuperado o pequeno território de Quionga, no Norte de Moçambique, de que a Alemanha se tinha apoderado em 1894. Mas os Aliados não consentiram que Portugal beneficiasse das reparações de guerra, embora lhe exigissem que pagasse as respectivas dívidas.

Havia impérios africanos antes da chegada dos europeus – um dos mais antigos é o Egipto – e eles continuaram a existir e a expandir-se bem depois da chegada dos portugueses e outros europeus (veja-se o Império Vátua em parte de Moçambique, ou o Império Etíope). Estes impérios africanos recorriam à guerra para se expandirem e, quando lhes parecia necessário, à repressão sangrenta para se manterem. E, se é uma verdade que por definição nenhum império foi democrático, mesmo quando o centro imperial o era – assentando numa relação hierárquica entre uma metrópole centro do poder e uma periferia subordinada -, também é certo que nenhum império conseguiu durar apenas com base na violência e na repressão. Se devemos estudar melhor a violência nos impérios – do ponto da repressão de cima, mas também da resistência de baixo -, isso deve ser feito de forma comparativa. Fazer de um qualquer império uma espécie de mal absoluto e permanente é uma posição política, ou até moral, eventualmente legítima, mas que não pode servir de base a uma análise histórica rigorosa, desde logo porque é anacrónica. Durante boa parte da história da humanidade construir um império era uma coisa normal, gloriosa até, e moralmente defensável.

Tudo o que se escreva que possa ser confundido com tornar os portugueses de hoje colectivamente culpados de uma guerra com várias décadas parece pois uma opção política que só pode dificultar uma análise histórica rigorosa. Que houve crimes de guerra nas guerras da descolonização parece inegável e o contrário é que seria estranho. Há que estudar cuidadosamente a sua escala e evolução, de um lado e do outro. Eles não se anulam, e é legítimo a quem quiser fazer os juízos políticos e morais que entender sobre o assunto. Mas a preocupação específica do historiador deve ser perceber o que se passou e, tanto quanto possível, esclarecer as motivações dos vários actores da época, em função do seu contexto, dos seus valores, dos seus objectivos. Fazer das guerras e da violência a única realidade importante, mesmo no período a partir de 1961, seria, no entanto, um exagero. Não se trata com isto de defender o Império Português, mas de o perceber melhor na sua complexidade, sem esquecer a violência mas também todo o contexto restante, sem ignorar o papel do Estado Português e das suas forças, mas também sem ignorar o papel cada vez mais importante dos actores locais. Tratar de conhecer melhor antes de condenar será o mais adequado comentário ao interesse que quase de súbito parece ter nascido em torno do colonialismo e do racismo praticados por Portugal.

 Nesta introdução recorri a diversos autores, nomeadamente ao historiador francês René Pélissier, um dos mais isentos e respeitados especialistas da história colonial e militar portuguesa, assim como da história dos países lusófonos africanos.

 

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