Não se é feliz sozinho

Lembro-me muito do saudoso padre Anacleto, que já nessas alturas difíceis de crise social e económica na nossa cidade de Portalegre todos unanimemente considerávamos um santo homem. Uma das suas máximas predilectas ensinava-nos que não se é feliz sozinho.

Hoje, no Dia Internacional do Brincar, lembro-me do padre Anacleto, professor de Moral, e dos seus ensinamentos.

Confesso humildemente que nunca tinha dado pela existência de tal comemoração. Foi o título impresso com destaque na página do jornal aqui reproduzido (um pouco abaixo) que me alertou para isso. Aliás, nestes tempos em que tudo se comemora, por que não dedicar alguma importância à brincadeira? Não estamos todos saturados de coisas excessivamente sérias? Pensando melhor, talvez brincar seja uma coisa séria…

Acredito com absoluta sinceridade que brincar é algo sério, mesmo muito sério. Ou devia sê-lo.

O World Play Day (Dia Internacional do Brincar) foi criado na 8.ª Conferência Internacional de Ludotecas em Tóquio, no ano de 1999, por iniciativa da então presidente da International Toy Library Association (ITLA) – Freda Kim. Em 2001, numa reunião do Secretariado da ITLA em Florença, definiu-se a data – 28 de Maio: o World Play Day coincide assim com o dia de aniversário da ITLA.

O Dia Internacional do Brincar celebra o artigo 31.º da Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas, reforçando que brincar é um direito. Relembra que o brincar é uma fonte inesgotável de alegria, uma actividade fundamental para o desenvolvimento do ser humano, essencial para a saúde física e mental. Acho este fraseado algo incompleto. Por mim, diria que brincar é um direito mas devia ser também um dever.

Um dever que muitos responsáveis não cumprem. Quando os pais fornecem aos seus filhos um smartphone, um tablet ou, mais modestamente, um spinner, acho que caminham no sentido inverso ao desejável, remetendo cada descendente para o seu próprio e crescente isolamento. Brincar é colectivo e, relembro, não se é feliz sozinho.

Brincar não é somente ver televisão, jogar computador ou descobrir novas funcionalidades do tablet ou do telemóvel. Brincar é ter a oportunidade de criar, explorar, inventar e, acima de tudo, é uma oportunidade única do desenvolvimento no seio do colectivo. Brincar contribui para o estímulo de aspectos fundamentais e transversais para toda a vida, como é o caso da comunicação verbal e não verbal, para a gestão de conflitos e da capacidade para os resolver, com recurso à negociação. Permite também desenvolver o trabalho em equipa e a cooperação, bem como o auto-controlo e a capacidade de abdicar da exclusividade das próprias ideias, em prol das decisões colectivas, devidamente negociadas. Brincar, em suma, é praticar a tolerância.

Brincar permite à criança  não apenas conhecer o seu corpo e a forma como o pode utilizar para dele tirar partido nas brincadeiras, como também lhe possibilita o conhecimento dos seus gostos, afinidades e preferências. Esta prática do auto-conhecimento gera, posteriormente, níveis de auto-confiança e de auto-estima mais adaptativos à vida real. Permite-lhe, ainda, reconhecer os seus pontos fortes e fracos, as suas potencialidades e os seus limites.

Brincar é uma forma de comunicação. Muitas vezes, e creio que isso aconteceu connosco (pelo menos com a minha geração!) projectamos nas nossas brincadeiras medos, dúvidas e ansiedades. Esta projecção permitiu-nos não apenas uma visão “de fora” para os  problemas íntimos, podendo fornecer-nos uma ajuda ou pistas para a respectiva resolução, mas também deu sinais aos nossos pais e professores sobre como nos podiam ajudar a obter um pleno desenvolvimento. Sem as nossas brincadeiras, nunca eles teriam acesso a tais tipos de expressão emocional.

Brincar implica regras, quer sejam de segurança, cada vez mais imperiosa, quer sejam impostas pelos pais ou professores, pelo espaço onde se brinca ou pela própria convivência social. No meu tempo, não podíamos jogar à bola na via pública… Quantas vezes tivemos de fugir dos polícias!

Partilhar brincadeiras permite-nos ter e fazer amigos, quantas vezes amigos para a vida toda. Não se é feliz sozinho.

E quem não é feliz a fazer algo de que gosta?

Brincar, que me desculpem, não passa exclusivamente pelas modernas tecnologias viradas para o individual.

Com saudade, lembro os brinquedos que guardei da minha infância. Eram, afinal, um produto da tecnologia da época, antes do transistor, da internet, do próprio plástico, imagine-se!

Lata, celulóide, arame, cartão, vidro e madeira. Isso bastava-nos e fazia-nos felizes.

Brincávamos uns com os outros.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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