Réquiem pela minha palmeira predilecta

Foi durante muito tempo, talvez anos, uma fiel companheira das manhãs.

Quando da minha janela a cumprimentava, enquanto bebia o café, ela dava-me o sinal do tempo. Dar aqui na ilha o sinal do tempo é indicar, sobretudo, a velocidade e a orientação do vento. Pela forma como, especialmente para mim, fazia ondular as suas palmas, eu sabia de onde e com que força soprava o salgado ar de Peniche.

Confesso que nem dei pela sua agonia. Foi rápida.

Amarelecendo a vasta ramagem, depressa a tombou, inerte, já em irreversível estado de coma. Até nisso foi quase humana…

Atentos à sua morte, mais diligentes foram os cuidadores do jardim que na salvação. E bem depressa, como abutres, lhe desfizeram os restos mortais.

Ficou-lhe o coto, monumental esqueleto, atestado da impotência do homem para enfrentar a praga.

Deste periférico episódio, apenas mais um e bem menos espectacular que os do centro urbano da comunidade, nos jardins ao longo da muralha e do fosso, deste episódio ficam-me a mágoa e a revolta. Mais esta do que aquela.

Quanto ao primeiro sentimento, vou esquecer, embora a custo, a morte da minha palmeira predilecta. Há mais duas no pequeno jardim fronteiro e vou passar a meteorológica incumbência a outra. O pior é que esta também já revela os sintomas da morte anunciada, no fatal amarelecimento da sua copa. Transferirei depois para a sobrevivente tal tarefa. Aparentemente, esta ainda parece sadia. Receio que seja apenas para me iludir e que depressa vá seguir o exemplo das outras.

Falei da revolta que não posso nem devo calar. Vão passados anos sobre a morte das palmeiras, largas dezenas, que eram esplendorosa imagem de Peniche, atestada pelas fotografias de belos jardins já perdidos sem remédio. Que sinal há das necessárias alternativas? Que promessas foram reveladas sobre uma válida solução que compense, a prazo, essa perda? Que foi feito até agora, para além do puro e simples abate das palmeiras? Nada!

Os toscos cotos, às dezenas, ou foram submersos em montículos de vergonhosa impotência, ou permanecem como verdadeiras testemunhas de acusação aos que preferem a oca ostentação de triviais banalidades à real eficácia de um trabalho autêntico e esforçado em prol da comunidade.

A minha fiel companheira das manhãs foi sacrificada em resultado da ferocidade do escaravelho vermelho. Os penichenses são sacrificados por incapacidades de quem partilha a cor do voraz gorgulho.

Apetecendo-me imitar Cícero, pergunto: até quando abusarão da nossa paciência?

António Martinó de Azevedo Coutinho

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