Serviços mínimos aqui no Largo

A partir de amanhã e durante os próximos tempos, coisa de dois meses mais ou menos, o Largo entra de férias. Vai assegurar, como é regimental, serviços mínimos.
Manter-se-ão, semanalmente, as séries em curso, a saber:
Segundas-feiras – Hergé, Tintin e a Medicina;
Quartas-feiras – A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves;
Sextas-feiras – 1917 – Há cem anos.
Como sempre, dar-se-á conta de eventos que sejam conhecidos e considerados dignos de divulgação. Também uma ou outra recensão de imprensa merecedora de partilha será transcrita.
Fora isso, ficar-se-á atento ao imprevisto, augurando que tenha um sentido positivo… E mais o que aprouver.
De resto, o coordenador vai procurar aproveitar o ar livre, o sol, a areia e o mar deste Oeste privilegiado pela Natureza. E pôr em dia livros, filmes e música em atraso.
Boas férias!
                                                                                                         Largo dos Correios

1917 – há cem anos – trinta

A data de 8 de Julho de 1917 assinala em Portalegre o início da publicação, na imprensa local, de listas de mortos, feridos e intoxicados com gás, pertencentes ao Regimento de Infantaria 21. Depois de textos iniciais eivados de algum ligeiro e irónico “patriotismo”, surge agora e triste realidade das baixas.

A Plebe” encabeça e lista com o título metafórico, e dramaticamente contraditório, de “Quadro de Honra”. O jornal, com regularidade, passará a divulgar relações, por vezes extensas, de nomes familiares às comunidades locais. As baixas referidas nesta data são: “Mortos no combate 11-12 (naturalmente, de Junho último!) – 1.ª companhia, 404 – Francisco Gonçalves; 1.ª, 690 – António Carrilho; 1.ª , 886 – José Dias; 3.ª, 258 – Gabriel Paulo. (…) Mortos no combate de 12-13 (idem!) – 1.ª companhia – Tenente Mário Augusto Teles Grilo; 1.ª, 1.º cabo 558 – António Carrilho Gonçalves; 1.ª, 1.º cabo 506 – Severino Estrela; 1.ª, 1.º cabo  575 – João Augusto Fernandes; 1.ª, 603 – Galiano Aires; 3.ª, 116 – Manuel Tomaz; 3.ª, 457 – António Pires Barqueiro Júnior; 4.ª, 1.º cabo 250 – Domingos António Penha; 4.ª, 1.º cabo 126 – José Vaz Sardinha; 4.ª, 1.º cabo 440 – José Faustino; 4.ª, 1.º cabo 412 – António Pratas; 4.ª, 1.º cabo 117 – João Soeirinho; 1.ª, 743 – Manuel António Cardoso.

Na sua edição deste mesmo dia, “O Distrito de Portalegre” inclui uma lista similar. Porém, além de nesta figurar mais um morto, José Martins, não há menção de qualquer posto, número ou data de falecimento. Para mais, alguns nomes revelam significativas diferenças: Francisco Gonçalves é aqui referido como Francisco Gavancha; Mário Augusto Teles Grilo é Mário Augusto Telo Grilo; Galiano Aires é António Galiano Arez; Domingos António Penha é António Penha; António Pratas é António Prates… Tratando-se de informação de tamanho melindre e exigindo, por isso, o máximo rigor, pasma-se em como tais disparidades se tornaram possíveis!

Ainda no mesmo dia (os três jornais coincidiam então na sua publicação dominical!) “A Rabeca” divulga a lista das baixas em França, relativas aos combates entre 11 e 13 de Junho. Esta relação é quase igual à publicada pelo seu colega “Distrito”, apenas concedendo razão à “Plebe” quanto ao nome Domingos António Penha. Esclarecedor!

Voltando ao “front”, retoma-se a série de postais ilustrados dali remetidos pelo capitão José Cândido Martinó à sua filhita Benvinda:

9 de Julho – “França. Durante o dia de ontem e parte do de hoje houve feriado. Hoje tivemos revista e marcha. Paralelo à estrada deslizava um canal com margens muito bonitas“.

10 de Julho – “França. Tens continuado a tomar alternadamente a fosfiodoglicina e a emulsão? Isto é, no tempo quente a fosfio. E no tempo fresco a emulsão? Consta que brevemente vamos mudar de localidade; talvez para o primitivo acantonamento. Bem bom será que assim seja porque estes ares não são nada saudáveis!…“.

Com efeito, nesta data de 10 de Julho de 1917, a ocupação plena, pelo C. E. P., da totalidade da frente de combate atribuída determinou uma nova instalação do seus comandos. Neste dia, ficou concluída tal operação, com o Quartel General Central em Saint Venant e o da 1.ª Divisão em Lestrem, no Chateau de la Cigale.

11 de Julho – “França. O vestidinho novo para o teu exame já está pronto e ficou bonito? O que é que ofereceste à tua professora no dia dos seus anos? Então o teu retrato quando chega?“.

12 de Julho – “França. Faz hoje um mês que houve grossa traulitada. Os campos estão lindíssimos. Esta região corresponde ao nosso Minho. Não há um palmo de terreno por cultivar, excepto a terra de ninguém, porque esse terreno está semeado de ferro e aço“.

13 de Julho – “França. Recebi ontem os jornais, e gostei muito da poesia da “Plebe”.(…) Na nossa Brigada também temos um periódico muito interessante pois publica piadas muito engraçadas“.

14 de Julho – “França. Hoje foi um dia de grande maçada, mal tendo tempo para te escrever. Cheguei à minha pobre cabana num estado lastimoso.”.

Nesta dia 14 de Julho de 1917, em Portalegre, Benvinda concluiu a sua habilitação do 1.º Grau de Instrução Primária, com a classificação de “optimamente habilitada”, na Escola Mista do Centro Democrático.

15 de Julho – “França. Pela manhã tive exercício, à tarde tive música e agradou muitíssimo. Depois da música fui convidado para um grande jantar onde me diverti também bastante. É muito à pressa que te estou escrevendo“.

Sermão de Santo António aos Corredores

 

Caros Irmãos Corredores

A vós me dirijo hoje, cansado como estou de pregar aos peixes que pela vossa cidade abundam e que já me não ouvem pacientes como noutros tempos, os da minha juventude, em que eram estes sítios uma famosa ilha. Também já falei aqui a pecadores e a pescadores, que não são exactamente a mesma gente, de má conduta uns tal como de boa postura são os outros.

Falo-vos hoje, caros Irmãos corredores, e muito vêm a propósito estas palavras sobretudo agora que vos soube em amena reunião dita de convívio e amizade, como convém aos de mente sã em corpo são. Mas confesso-vos que alvoroçado estou pelo público retrato que dela ficou da autoria de um de vós mesmos.

Deus ex machina, assim falaram os antigos gregos a propósito dos efeitos teatrais em que uma solução cénica inesperada fazia terminar a função de forma mirabolante. Deus ex machina, assim vos falo eu da tal prova que ficou da vossa dita confraternização, quando um artefacto parece  fazer improvável e dominadora aparição naquilo a que chamais -a declaração é vossa!- um encontro de amizade e convívio. Quando a natural relação humana é assim dominada pela machina algo me parece errado e descabido. Bem sei, porque também os conheço, que alguns críticos e corajosos protestos os mais prudentes de entre vós logo deixaram expressos. Mas debilmente outros emitiram a opinião e desculpa de que, apesar de tudo, valeu a humana relação, sobrepondo-se à machina.

Acautelai-vos, a tal vos exorto, acerca do papel e do valor dessa machina, ponderando se é ela vossa fiel servidora ou se dela sois meros escravos. Em mim, porque não fui testemunha, resta uma preocupante dúvida sobre o vosso sincero comportamento a tal propósito.

A machina, tal como uma arma mortal, é apenas um instrumento que pode ser colocado tanto ao melhor dos serviços como à pior das tramas. À mão do homem que a comanda pertence o seu destino, orientando num ou noutro sentido a sua oposta e contraditória vocação.

E aquilo que vou  em sociedade observando sobre a machina assusta-me e  o espectáculo  que  o vosso recente convívio me proporcionou constatar mergulha-me numa confusão de sentimentos. Sois inteligentes e por isso a prudência manda que façais uma paragem para necessária e útil reflexão. Antes que a machina vos domine devereis dominá-la.

Pensai e reflecti, caros Irmãos, na pertinente inquietação que aqui e agora vos deixo.

Vou voltar aos peixes.

Irmão António de Lisboa