1917 – Há cem anos – vinte e seis

Ainda quanto ao episódio da guerra, relativo ao incidente da noite de Santo António, acentue-se o facto de em Ferme du Bois o 1.º Batalhão do nosso Regimento ter sido fortissimamente atacado pelos alemães, defendendo-se tão heróica e galhardamente que o Comandante do XI Corpo do Exército Inglês, de quem dependiam as nossas tropas, louvou estas e determinou que de futuro passassem a formar, honrosamente, à sua direita.

20 de Junho – “França. Hoje é dia de festa na mess; não posso tomar parte porque tenho música. Ontem ou hoje deverás ter recebido o retrato. Quase todos os dias – ultimamente – tem havido trovoadas“.

21 de Junho – “França. Diz ao Avozinho que mande fazer um vestido bonito para levares vestido quando fores fazer exame. Se for preciso algum chapéu ou sapatos que compre. Não sabia da promoção do Major Lacerda. O Avozinho que mande dizer onde foi colocado o Major Lacerda. Cuidado com as fogueiras de S. João e de S. Pedro“.

22 de Junho – “França. Hoje tenho música. Está um dia horrível; muita chuva e frio, parece estarmos em Janeiro. (…) O Jornal da Barraca deu hoje várias notícias interessantes; bem bom será que uma delas tenha confirmação“.

23  de Junho – “França. Como ontem tivesse estado um dia péssimo ficou a música transferida para hoje. A minha mesa de trabalho e a banca de travesseiro são dois belos objectos de arte dignos de figurar numa exposição de móveis raros. O “nobre exemplo” também teve hoje ocasião de empregar a sua actividade. O José da Boina tem feito um figurão“.

Este “nobre exemplo” não pôde ser identificado. No entanto, vão surgir  referências a tal figura em “O Tagarela” (jornal da trincheira) n.º 3, de 16 de Agosto de 1917: “Deve ser Buxa: que o mártir “Nobre Exemplo” tenha ouvido um tiro; que o pé do dito já esteja curado e por isso já use bicha.”

24 de Junho – “França. O arraial de S. João decorreu animadíssimo. Pela 1.ª vez este ano, comi morangos, mas custou cada quilo -1.000 reis. Ontem, durante o concerto, assisti a uma caçada, mas segundo o costume nada caiu. Hás-de dizer ao Avozinho para no dia 10 de Julho, anos da tua professora, comprar qualquer coisa para tu lhe ofereceres, prenda que poderá custar 2.000 ou 3.000 reis “.

25 de Junho – “França. O S. João decorreu muito desanimado. Aguardemos o S. Pedro. (…)  Já tiraste o retrato? Já recebeste o meu? Já ontem provei cerejas“.

26 de Junho – “França. O “Jornal da Barraca” continua a insistir na mesma notícia; bem bom seria, porque nesta altura era um belo derivativo“.

Neste preciso dia, 26 de Junho de 1917, assinala-se um facto muito significativo para o futuro desenrolar da guerra: a chegada a França da 1.ª Divisão norte-americana.

27 de Junho – “França. Para fazeres ideia do que esta gentinha é para fazer reclamações, basta dizer-te o seguinte: um dia destes, fizeram uma reclamação porque ao entrar em casa fazia-se barulho, evitando com isso que as galinhas pusessem ovos, pedindo uma indemnização de 150 francos. Esta só ao diabo lembra. Neste posto há várias reclamações. (…) O capelão contou hoje vários milagres; é um pobre homem“.

Com data de 27 de Junho de 1917, regista-se a existência de um documento de quatro páginas, manuscritas e datadas por José Cândido, contendo um poema crítico constituído por 16 quintilhas, quadras e sextilhas. As alusões a Zé Mendes, Zé Ribeiro ou Norton referem-se a José Mendes Ribeiro Norton de Matos, Ministro da Guerra, sendo Afonso o Dr. Afonso Costa, Presidente do Ministério e Bernardino o Dr. Bernardino Machado, Presidente da República. O tema, música e letra do “Fado do Ganga” voltam a ser uma referência, embora aqui não explícita, como no caso do poema anterior. Agora, tanto a estrutura como a semelhança formal são evidentes. Basta comparar com breves versos do Ganga:

Meus amigos, esta vida,
P’ra quem lida,
         (…)
Por isso digo
Ó meu amigo,
          (…)
Na guerra dos Alimões
Co’as nações
          (…)
Não querem acreditar
Sem toscar…

Recorda-se que o “Fado do Ganga” foi um dos mais famosos números da revista popular “O Novo Mundo”, da autoria de João Bastos, Ernesto Rodrigues e Félix Bermudes, tendo sido cantado com enorme sucesso por Estêvão Amarante.

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