A folia do surf

Nestes tempos e nestas paragens já nada nos devia surpreender. Porém, de vez em quando, isso ainda acontece. Esta notícia do jornal, há escassos dias, parecia crónica surrealista. Mas não é.

José Pinho, da livraria Ler Devagar e coordenador do Folio, não foi o único a ficar incrédulo perante a magna decisão da maioria no colectivo da Comunidade Intermunicipal do Oeste ao desviar a verba destinada a financiar a próxima edição do Festival para a promoção do surf. Por outras palavras vai ser deitado dinheiro ao mar, num grotesco fingimento de engodo…

Para já, a primeira lembrança que me ocorre é política. Remete-me para os terríveis tempos da II Guerra Mundial, quando Londres era devastada pelas bombas voadoras nazis. Winston Churchill, uma vez mais, convocara a sua Inglaterra para um redobrado esforço de guerra, que exigia medidas imperiosas para a sobrevivência do povo e da Nação britânicos. Então, a dada altura, o responsável da Cultura do seu Governo abordou o primeiro-ministro, conformado com a expectativa: – “Lá vamos ter de cortar na Cultura!” Resposta imediata de Churchill: – “Nem pense nisso! Então estamos a fazer esta guerra para quê!?

Agora, nesta (relativa) paz em que vivemos, a visão dos governantes do Oeste surge como míope, rigorosamente incapaz de enxergar a dimensão do que está em causa.

É claro que ninguém poderia ter a veleidade de comparar o incomparável, mas espera-se de quem governa, se não que detenha o génio, que possa pelo menos dispor de um mínimo bom senso. Porém, para estes intermunicipalizados autarcas, a onda do surf pode com naturalidade assumir a forma de um tsunami que engula os livros amuralhados em Óbidos e os próprios Nobel. É tudo ao contrário do que seria lógico.

Nem sequer é difícil adivinhar a constituição da maioria que votou o tsunami. Integra, pela certa, os que aceitam o eterno adiamento das obras de uma biblioteca pública de que a sua terra precisa como de pão para a boca. Que fizeram aí construir um específico Centro de Alto Rendimento para a modalidade surf, tornado afinal um dispensável e inútil elefante branco… E que ainda não perceberam -nunca perceberão!- que o surf pode e deve receber o complemento da cultura para se valorizar e fixar.

O Oeste vai aplicar os 250 milhares de euros desviados precisamente da cultura para a promoção do surf, assim nos diz a lamentável notícia. Gostaria, no mínimo, de ter a certeza de que este investimento garantirá tal objectivo, mas tudo leva a admitir mais um  vulgar desperdício. Perante o que tem vindo sistematicamente a acontecer, Cascais, Figueira da Foz e Ericeira/Mafra (para citar apenas estes três claros exemplos!) a curto prazo roubarão ao Oeste a primazia das ondas do surf. E perderemos tudo, as pranchas em Peniche e na Nazaré, mais os livros do Folio em Óbidos.

Acontecerá então, tarde e a más horas pela mão de gente pouco responsável e inculta, a folia do surf

António Martinó de Azevedo Coutinho

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