A banda desenhada vista por Carlos Gonçalves – um

A SAGA DO “MAJOR ALVEGA” – I

O “Major Alvega” começa a dar os seus primeiros passos na banda desenhada no nosso país, com este nome, a partir da revista “Falcão” nº. 71 (1961). Mas o nome na capa da revista “O Falcão”, só apareceria alguns números depois, no nº. 301 (1966). Até aqui nem sequer era conhecido como a personagem “Battler Britton” de origem inglesa e cujas aventuras tinham sido criadas e publicadas nas revistas: “Thriller Picture Library”, “War Picture Library”, “Air Ace Picture Library”, “The Sun” e ”Told in Pictures”.

Todas elas de uma maneira geral publicavam histórias de diversas personagens e abordando vários temas: ficção científica com “Rick Random”, “Spy 13” (de espionagem), “cow-boys”, “Dick Daring” da Polícia Montada, “Robin Hood”, “Dogfigtt Dixon” sobre a Primeira Guerra Mundial, “Dick Turpin”, “Três Mosqueteiros”, “Jet Ace Logan”, etc.. As capas das revistas originais eram de uma grande beleza gráfica, embora só a partir do nº. 38, ”O Falcão” começasse a adaptar essas capas.

Os desenhos das histórias eram executados por uma grande variedade de artistas, já que a editora Almalgamated Press/Fleetway contratava os desenhadores de vários países para se ocuparem da criação das histórias. Inicialmente esta personagem foi criada por MIke Butterworth com desenhos de Geoff Champion, um grande desenhador inglês. A estreia das aventuras do aviador deu-se na revista “The Sun” em 7/1/56. “Battler Britton” irá viver dezenas de aventuras nas páginas de “O Falcão”, durante vinte anos no nosso país, focando as diversas actividades dos nazis e as suas cruéis acções militares contra diversos povos. “Battler Britton” cumpre algumas missões de ataque, quase suicidas, a todo o tipo de posições do inimigo, de modo a desmotiva-lo, mas em 1987 e com o desaparecimento da revista, suas histórias deixarão de circular.

Tal só voltará a acontecer em 1998 nas páginas da revista “Selecções BD – 2ª série”. Será uma reaparição fugaz. “Battler Britton” será de novo apresentado aos seus leitores em 2006, desta vez em edições mais luxuosas e com argumentos de Garth Ennis (um argumentista especializado em histórias de aviação) e com desenhos de Collin Wilson, numa comemoração dos 50 anos da sua criação.

 MÁRIO DO ROSÁRIO, SEU EDITOR

Mário do Rosário trabalhava como profissional na Estação Marítima da Rocha de Conde D’Óbidos, como observador meteorológico. Em finais dos anos 50, soube que havia um lugar como letrista manual para colaborar na primeira série da revista “O Falcão”. A estudar desenho de arquitectura, resolve aceitar a tarefa em paralelo e entra no mundo da banda desenhada, ocupando-se das legendas dos balões daquela revista. Gabriel Ferrão era o director da publicação.

No final da primeira série é decidido que a publicação passaria a ter outro aspecto, formato e conteúdo, pelo que o seu director irá manter-se em funções até ao nº.20 dessa nova série. Depois resolve sair, deixando o lugar ao Mário do Rosário, tarefa que este executaria em conjunto com a de letrista, durante cinco anos. Em 1965 a empresa detentora do título da revista, decide acabar com a sua publicação, pois já não era rentável continuar a editá-la.

Será então que Mário do Rosário se irá associar a um amigo, ficando como detentor do título e continua a publicação de “O Falcão”.
Anthímio de Azevedo, também ele funcionário do Serviço Meteorológico Nacional será o tradutor de serviço e “pai” do “Major Alvega”, já que será ele quem terá a ideia de nessa altura rebaptizar a nossa personagem e criar-lhe um passado credível… luso-britânico, nascido no Ribatejo, português por parte paterna, inglês pela materna e estudante em Coimbra… de comum acordo com Mário do Rosário e num rasgo de génio a ideia foi original e prontamente aceite pelos leitores da revista, tornando-se o “Major Alvega” uma figura importante no campo da banda desenhada. As traduções pertenciam também a vários colaboradores, tais como João Fernandes, Peres Ramos e Augusto Abelaira de parceria com outros colegas, Carlos Cunha, Helena Cunha, Santos Carvalho e Manuel Cordeiro.

Já a partir de 1961 Mário do Rosário era também responsável pelas legendas do suplemento desse jornal, o “Pim-Pam-Pum”, do “Século Ilustrado”, do “Modas e Bordados” e também das tiras diárias do próprio jornal “O Século”, mais tarde. Essas tarefas foram cumpridas durante doze anos. Em finais de 1971 e juntamente com o Henrique Pavão, este editor passa a dirigir igualmente a revista “Jacto”, uma nova aposta no campo das histórias aos quadradinhos, traduzindo e ocupando-se das legendas dos trabalhos publicados naquela revista. Nos princípios dos anos 70, será a década que terá um aumento substancial de publicação de tiras de banda desenhada nos jornais diários e semanais.

Em 1972 e na continuação da publicação da revista “O Falcão”, as aventuras do “Major Alvega” eram destacadamente as mais célebres e a personagem começava já a atravessar uma fase de grande sucesso, tornando-se célebre e fruto das várias discussões entre jornalistas. Desgostoso pelo caminho por onde o “herói” se encontrava comprometido e as discussões que criava (os temas eram a guerra do Vietnam, a ditadura militar no Brasil, a tragédia da nossa guerra colonial…), Mário do Rosário no acto de revolta, resolve “matar” a personagem no seu nº. 617, na história com o título de “Os heróis também morrem”… Só a partir do nº. 786 da publicação o “Major Alvega” voltaria, embora sem honras de ter o nome na capa de novo, o que seria rectificado no seu nº. 794.

A publicação da revista continuará até ao nº. 1286, onde termina, embora a última aventura do “Major Alvega” tenha surgido no nº. 1285, depois de ter mudado de editor a partir do nº. 1273. Mário do Rosário cedeu a edição da revista a outro proprietário. Mário do Rosário virá a falecer o ano passado, no dia 16 de Agosto de 2016, depois de uma doença prolongada. Encontrava-se num lar. Uma das suas facetas, provavelmente desconhecidas da maior parte dos apreciadores de banda desenhada, é que Mário do Rosário era também um grande apreciador do desporto automóvel, tendo um dia, decidido organizar uma corrida de automóveis antigos, todos eles com pelo menos 20 anos de construção. Teria sido um sucesso nessa época, tal acontecimento. Quanto à sua personalidade como editor viria a ficar bem patente pelo excelente serviço que viria a prestar à 9ª Arte. Provavelmente, como muitos outros editores, letristas, argumentistas e desenhadores, pouco serão recordados pela sua importância. Mas esta será apenas uma pequena lembrança do que nos deixou.

 A CENSURA NAS EDIÇÕES DE BANDA DESENHADA

Como qualquer editor de uma revista de banda desenhada que se preze, Mário do Rosário teve algumas dificuldades com a Censura da época. Outros tiveram o mesmo problema, com algumas raras excepções. Mário do Rosário não seria caso único e num número do “Pim-Pam-Pum” uma história que estava para ser publicada nesse suplemento, seria proibida porque um padre ajudava um povo a derrubar uma ditadura militar fascista num país imaginário da América do Sul.

Por exemplo em “O Falcão” e numa das aventuras do “Major Alvega” teve uma legenda censurada onde se lia: “EFFERRAA. FRA! EFFERREE; FRE!”, etc.. Nessa cena o “Major Alvega”, o nosso “herói” aviador, lançara o grito académico ao derrubar um avião inimigo… Como o censor não percebeu o seu significado, à cautela cortou a legenda.

Em outra cena e com a mesma personagem, depois de numa das suas aventuras ter sido preso pelos japoneses e metido num campo de concentração, consegue mais tarde evadir-se e ajudar alguns indianos, também presos no mesmo campo, a fugir com ele. Foi proibida integralmente a publicação desta história, porque não podíamos dar a ideia aos leitores que todos os indianos também eram bons…por essa altura tínhamos perdido Goa, Damão e Diu… Nem todas as cenas censuradas se passavam com as aventuras do “Major Alvega”…

Numa simples história de “cow-boys” e na sede de um jornal semanal que era publicado numa pequena cidade do Texas naquela altura, o proprietário do semanário atravessava alguns dissabores económicos. Resolve por isso publicar uma notícia falsa, mas que iria ajudar na venda de mais exemplares salvando-o da crise financeira. A história seria proibida na sua publicação, pois de modo algum se poderia dar a entender aos jovens que a imprensa poderia publicar qualquer notícia falsa (mesmo que fosse numa história aos quadradinhos) …

 ANTHÍMIO DE AZEVEDO  FOI O “PAI” DO “MAJOR ALVEGA”

Anthímio José de Azevedo era um dos tradutores da revista “o Falcão” e também um apaixonado por tudo o que se encontrava ligado ao campo da Meteorologia. Acabaria por se tornar célebre na televisão devido aos seus aparecimentos diários, comentando o estado do tempo, sendo conhecido como o “Sr. Meteorologia”.

Nasceu na Ponta Delgada, na Ilha de S. Miguel, Açores, no dia 27 de Abril de 1926, vindo a falecer no dia 17 de Novembro de 2014, com 88 anos de idade. Depois do liceu em Ponta Delgada, formou-se em Ciências Geofísicas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ingressando mais tarde no Serviço Meteorológico Nacional e no Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, antecessores do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, onde viria a desenvolver uma grande parte da sua actividade profissional e onde acabaria também por ser um dirigente destacado pelas suas capacidades e conhecimentos. Nas décadas de 60 e 70 dirigiu os serviços meteorológicos da colónia portuguesa Guiné-Bissau, tornando-se mais tarde um perito da Organização Meteorológica Mundial, coordenando e organizando o novo serviço nacional de meteorologia, na formação dos seus quadros.

Faz parte do seu currículo a escrita e a tradução de livros científicos, nomeadamente no campo da meteorologia, tendo ao mesmo tempo um certo interesse particular por fenómenos climatérios e suas mudanças. Acabaria por ocupar o lugar de director do serviço de meteorologia dos Açores. Aposentado, manteria a sua actividade na divulgação das previsões meteorológicas, na estação de televisão TVI, entre 1992/1996.

A tradução de histórias aos quadradinhos seria uma das suas ocupações paralelas e tanto quanto sabemos e observámos ao ler as aventuras, soube desempenhar esse papel a contento do editor Mário do Rosário e também dos leitores, já que cabe a ele também uma parcela do êxito, ao decidir alterar a nacionalidade do “Major Alvega” e com esse pequeno truque, despertar nos leitores mais jovens da altura, um sentimento de patriotismo tão em voga nessa década, devido à guerra colonial. Ao mesmo tempo ajudaria também a manter a sobrevivência da revista, já que o sucesso da personagem seria um factor económico a considerar.   

Carlos Gonçalves

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