Os lagóias e os estrangeiros

A infografia acima, divulgada há dias no jornal Público, despertou-me a indignação que já sentia como uma afronta aplicada pelos dois maiores partidos políticos à minha terra e às suas gentes, os meus conterrâneos. O Poder Local deveria merecer de organizações políticas onde assentam necessariamente alguns dos pilares da Democracia uma prática coerente de respeito cívico. Porém, sobrepondo a satisfação das suas clientelas aos interesses e aspirações de cada específica comunidade, alguns partidos usam agora despudoradamente nas eleições autárquicas a lógica que têm aplicado com algum êxito estatístico nas legislativas. A contabilidade partidária assim o exige… E a honra!?
Tomei a iniciativa de, em legítima defesa da cidadania pessoal ofendida, redigir o texto seguinte, enviado ao jornal portalegrense Alto Alentejo que generosamente o acolheu, ontem, nas suas páginas. Manifesto por isso ao seu responsável editorial a gratidão devida pela solidariedade que permitiu a partilha pública da minha indignação.
E aqui reproduzo o texto.

SER CULTO É SER DO SÍTIO
(os lagóias e os estrangeiros)

Um dos meus amigos, o tripeiro Hélder Pacheco, usa com frequência e a propósito um estribilho muito sábio: Ser culto é ser do sítio.

Esta noção de cultura é tudo menos rasteira, bem ao contrário do que se possa pensar. A cultura que implica é a do afecto e das íntimas memórias, a de se saber de que lado sopra o vento, até onde chega a sombra daquela árvore nos dias de calor ou até quanto do frio nos protege a dobra de esquina da nossa rua e quando ladra e porquê o cão da vizinha. É ainda saber de cor os vernáculos nomes das ruas e  travessas para além dos que estão inscritos nas placas oficiais assim como as alcunhas que correspondiam aos apelidos escritos nos registos civis dos nossos colegas nos bancos da escola ou do liceu. Ser culto, sendo do sítio, é conhecer os sonhos da comunidade tornados pesadelos pelos azares da fortuna ou pelos disparates dos homens. E é também partilhar desejos e aspirações, aspirar ao progresso sempre adiado, desejar até mesmo os impossíveis, acreditando em amanhãs de eterna felicidade.

Ser culto em Portalegre é aceitar o destino do grande plátano e sofrer com ele o peso dos anos e dos ramos, acreditar na princesa moura escondida nas grutas da Penha, subir aos altos de São Mamede, confiando em que um dia aquela ermida será outra vez levantada. Ser culto em Portalegre é sentir na pele o terrível som da sereia no castelo rompendo os escuros da noite algures iluminada pelo horror das chamas. Ser culto em Portalegre é evocar os saudosos fumos da fábrica da rolha, jurando que eram tudo menos mascarra e poluição. Ser culto em Portalegre é beber água da Fonte do Rossio na persistente convicção de que ela vem, ainda, da nascente ali próxima. Ser culto em Portalegre é teimar em que talvez voltemos à estação numa camioneta dos Murta para aí apanhar o comboio até Lisboa, via Entroncamento.

Ser culto na minha terra é sobretudo sentir em cada rosto um amigo e não um simples conhecido, em cada pedra da calçada um convite e não um risco, em cada parede uma referência e não um obstáculo, em cada pôr-do-sol que morre atrás do monte a certeza da sua ressurreição pela encosta fronteira abaixo. Ser culto em Portalegre é ser, de facto, do sítio. É ser lagóia.

Ser culto em Portalegre é ser de Portalegre, tão simples como isso. Ser de Portalegre é ter-se aí nascido por acaso ou ter-se aí escolhido viver por convicção. Sermos de Portalegre é estatuto de honra que não perdemos quando por acidente a trocamos por outra terra. Mas não se pode fingir ou improvisar, nem sequer por decreto, sermos de Portalegre.

 

No cumprimento da organização estabelecida pelo estatuto de democrática liberdade que vivemos, aproxima-se mais um cíclico pleito eleitoral, o do Poder Local. Crescentemente, as comunidades perceberam que os ideais democráticos não se esgotam nos domínios partidários e encontram propostas que ultrapassam estes. Leio o fenómeno com simpatia, sobretudo quando os próprios partidos parecem fazer gala de absurdas decisões. O Poder Local é, cada vez mais, um palco de contradições e o ciclo eleitoral que se aproxima parece ultrapassar todos os limites do bom senso. Os órgãos da comunicação social fazem-se eco de intenções que trituram os delírios da imaginação, como o do maciço regresso dos “dinossauros” autárquicos ou o da despudorada e oportunista troca de emblemas partidários…

Para Portalegre, os dois maiores partidos políticos nacionais propõem candidatos alheios ao concelho, um par de “incultos” cidadãos, estrangeiros nos antípodas da condição lagóia. Não estão em causa, nem poderiam estar, a sua qualidade humana e a sua capacidade científica, nem mesmo a sua eventual competência técnica, ainda que esta funcione como abstracta teoria do tipo pau-para-toda-a-obra.

Sinto-me tentado a colocar a questão num plano de recíproca confiança, tratando-se do Poder Local, aquele que tudo tem a ver, democraticamente, com cada sítio específico, as suas gentes e a sua própria cultura.

Não existiria em Portalegre, cidade e concelho, nenhum militante, simpatizante ou independente de confiança -um só!?- que merecesse junto das entidades partidárias responsáveis o suficiente crédito para justificar a honrosa candidatura?

Ou, responsabilizando ao invés os militantes ou simpatizantes portalegrenses de cada um dos dois maiores partidos nacionais, não haveria entre estes um -um só!?- disponível para confiantemente aceitar tal desafio?

Em qualquer dos casos, ou em ambos, a colocação destas legítimas premissas conduz-nos a um embaraçoso silogismo, de onde não saem prestigiados tanto os partidos em causa como os seus militantes.

O Poder Local terá vocação para muita coisa mas nunca para agência de empregos. Não existe a carreira profissional de presidente de Câmara Municipal e a própria legislação que limitou os seus mandatos confirma tão acertada medida. O sofisma agora praticado afronta o espírito da lei, revelando como quase sempre acontece as imperfeições legislativas. Ou teriam estas -porque aprovadas pelos próprios partidos- sido intencionais?

 

Vivo e voto em Peniche. Vai ser aqui renhida a luta eleitoral pela democrática conquista do Poder Local, onde se contam candidatos partidários e independentes. Embora tenha as minhas próprias convicções não posso prever qual será o vencedor, futuro presidente da Câmara Municipal daquela que é agora a minha terra adoptiva.

Mas detenho uma absoluta certeza, a de que esse autarca é culto. Todos os candidatos são penichenses, sem “estrangeiradas” promiscuidades.

Neste particular, que não é assim tão insignificante como isso, é bem maior e mais grave o dilema dos meus queridos conterrâneos portalegrenses.

Não os invejo pelos riscos de cidadania, a autêntica, que correm.

E, nesta emergência, cumprirá talvez o seu triste fado a nossa maltratada Portalegre.

Ou talvez não.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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