1917 – há cem anos – vinte e nove

Datados de 7 de Julho de 1917, o capitão José Cândido Martinó guardará uns versos, manuscritos e assinados, com o título, ao cimo da página, de “Fado do Ganga”.

“Meus amigos, o Zé Mendes
Vê s’entendes
Vem à França passear
Gastando grossa massa
P’ra que a heróica populaça
Alguma não possa armar.

 Mas ir ao front é que não
Que o caso não é p’ra graças
(Espera lá por isso)
Deixa-se ficar gozando
E os outros marimbando
Não quer saber de desgraças

Com Florentino ao lado
Mostrando todo o seu gagá
D’automóvel ou a pé
Cada vez ‘stá mais inchado.

Por isso eu digo
Oh meus amigos
Cada vez isto vai pior
É preparar um bom cacete
De marmeleiro é o melhor.

Na escola, de granadas
Simuladas
Fez-se rubro como a chama
Que se fosse a valer
Não tinha p’ra s’esconder
Ali ao pé uma cama

Mas encheu-se de coragem
E fez de grande valente
Porque se fosse a valer
Não havia de p’rigo ter
Lá ia o Grilo na frente

Já no 14 ele deu
Provas de grande valor
Fugindo ao calor
No sítio onde se meteu.

Por isso eu digo
Oh meus amigos
Etc.

             7-7-917 

Na mesma página continuam os versos, depois da data e assinatura de J. C.:

“Rapazes da minha terra
Cá na guerra
Sejamos todos unidos!!
S’algum de nós voltar
A Portugal, vá ajustar
Contas com esses bandidos.

Vendidos como carneiros
Contra o voto da nação
Por artes e artimanhas
Nos trouxe a tal ambição.

 P’ra baixo é que é dar
Sem ter dó nem piedade
(Carrega-lhe)
Lembre as dores que sofreu
E os camaradas que perdeu
Dar p´ra baixo até rachar.

                  7-7-917″

O Zé Mendes aqui referido é José Mendes Ribeiro Norton de Matos, Ministro da Guerra, e o Florentino é o Cap. Florentino Martins, seu ajudante. A propósito do “Fado do Ganga” veja-se uma anterior referência.

Neste mesmo dia, 7 de Julho de 1917, o Rei de Inglaterra, George V, visitou a linha de batalha e o sector português, em Fauquembergues, elogiando as nossas tropas e agraciando o general Tamagnini com a Comenda da Ordem do Banho.

E prossegue o envio dos postais ilustrados…

7 de Julho – “França. Recebi ontem carta do Sr. Garção -ourives- em que me fala muito de ti. Ontem tivemos que mudar de casa de jantar porque nos enviaram bastantes caroços de azeitonas de Elvas. Ontem à noite também vi dois foguetes de lágrimas lindíssimos. Os pirotécnicos são artistas primorosos“.

8 de Julho – (dois postais) “França. A madrugada de 7 para 8 ainda foi pior que a de 12 para 13 do mês passado. À 1 da madrugada tive de me vestir e abandonar a minha barraca. Às três da madrugada desencadeou-se uma formidável trovoada acompanhada duma chuva torrencial. A noite estava escuríssima, e ouvia-se o tropel dos cavalos seguindo várias direcções, além do rodar dos carros conduzindo munições. Os relâmpagos, os trovões, as detonações, o vento e os foguetões para iluminar o espaço causavam pavor! É uma coisa estupenda a tal guerra. Enfim, quando a tormenta amainou, resolvi voltar para a barraca. O trajecto é relativamente curto, mas vi-me seriamente embaraçado para o vencer. O terreno estava encharcado e o piso escorregadio. Como a planície é grande, quando faziam relâmpagos, iluminavam duma maneira pavorosa o caminho que seguia… Vi-me dentro da barraca completamente encharcado e resolvi meter-me na cama. O meu companheiro de barraca, com a atrapalhação, vestiu as ceroulas às avessas e calçou umas botas altas. Um tipo em ceroulas e com botas de montar é muito interessante. É a 2.ª vez que cavo e tenho de avançar para a retaguarda“.

A ironia, embrulhada em “tranquilizadoras” metáforas, continuava…

Acrescente-se aqui, com esta mesma data de 8 de Julho de 1917, um documento interno de serviço: “C. E. P. 8-7-917 Ao Sr. Chefe da Banda da 1.ª B. I.  Em aditamento ao Art. 2.º da º n.º 8 de hoje, comunico a V.a S.a que a Banda de sua mui digna chefia deve acompanhar amanhã, tanto na ida como no regresso o 1.º B.º desta B.S. para a reunião a que o citado art. se refere – do seu acantonamento de Penin Mariage para Vieille Chapelle e vice-versa, para o que deverá comparecer em Penin Mariage às 15 horas. Pelo 2.º Comandante,  António Rodrigues Azevedo, Cap. (?)”.

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