coisas explicadas a seu tempo…

É a primeira vez -há sempre uma primeira vez!- que dou semelhante destaque a um comentário colocado no Largo dos Correios. Acho que o caso merece esta evidência.
No blog, quanto às abundantes recensões que ali coloco, procuro partilhar com os dedicados leitores artigos que porventura lhes tenham escapado, sobretudo publicados na imprensa diária, nos jornais que leio quotidianamente. Selecciono prioritariamente aquilo que aprecio -gostos são gostos!- embora de tempos a tempos me agrade introduzir uma ou outra “provocação”. Creio que a dialéctica é saudável desde que dela se não abuse…
Foi este o caso. No jornal i, que leio de vez em quando, foi publicado um artigo de opinião assinado por um qualificado parlamentar, pelo qual nem sequer tenho particular simpatia. Escolhi um título, personalizado, que significa a minha própria reticência perante o escrito…
Às “coisas que nem só o tempo explica” entendeu o meu prezadíssimo amigo Jorge Magalhães replicar com um elaborado comentário que muito apreciei, porque reflecte a atenção dedicada a tudo o que coloco no blog, porque revela uma posição abundantemente apoiada em testemunhos e, até, porque invoca e evoca um universo que é muito caro a ambos, o da banda desenhada.
Ao trazer à liça um mestre dos quadradinhos e uma sua obra antológica, Jorge Magalhães acrescenta à discussão um contributo que, embora ficcional, se apoia numa reflexão científica nada desprezível.
Quero agradecer-lhe essa personalizada atenção, que muito enriquece e alarga a abordagem a um tema que a todos tem vindo a preocupar.
Com um abraço de admiração e amizade ao autor, aqui fica o comentário que Jorge Magalhães entendeu dedicar a Explicações

António Martinó

 Afinal, como tinha anunciado o “oráculo” Passos Coelho, o diabo sempre veio, não no passado mês de Outubro, mas agora, em Junho, e sob a forma de um demónio ainda mais terrível: um furacão de fogo. Saberá o distinto autor deste artigo, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, portanto membro da oposição na actual Assembleia da República, o que é um furacão de fogo? Decerto que sim… Mas se tivesse lido um álbum de BD com um título homónimo em francês, “L’ouragan de feu“, escrito e desenhado pelo mestre Jacques Martin (episódio da série Lefranc, que em Portugal foi publicado na revista “Zorro“, anos 1960, ainda o sr. deputado não devia ter nascido) ficaria também a saber que um incêndio provocado por fenómenos desta natureza é praticamente incontrolável, pois propaga-se com uma rapidez fantástica, galgando todos os obstáculos, transpondo grandes distâncias em poucos minutos.

Mesmo que o nosso território estivesse muito bem ordenadinho, as matas muito limpinhas, as áreas de cultivo de eucaliptos e outras espécies inflamáveis muito bem delimitadas, reduzidas a proporções aceitáveis e longe das povoações, estas protegidas por aterros, como devia ser, os serviços florestais (que o PS, o PSD e o CDS ajudaram a desmantelar) ainda activos, na primeira linha de vigilância, a protecção civil, os bombeiros e outros organismos de defesa ambiental prontos a intervir, com a celeridade de um raio, ao menor sinal de alarme (e sem problemas de comunicações, como por vezes acontece), isso não seria suficiente para deter um furacão de fogo com vários quilómetros de extensão.

Tenho a certeza de que veria o sr. deputado esgrimir estes mesmos argumentos se o seu partido estivesse ainda no governo. Mas como não está, até se compreende o teor do seu artigo e de outros (muitos outros) que alinham pela mesma cartilha.

Bem, em defesa da minha tese, além de invocar um nome ilustre da BD, o de Jacques Martin, permito-me também citar as declarações do presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares (pessoa cuja experiência no terreno já vem de longe), respigadas da edição do jornal “Público” de 21 do corrente: “ (…) A questão é que ninguém está habituado a um incêndio com esta violência e brutalidade, em que, mais do que altas temperaturas e ausência de humidade, o inimigo foi o vento. Este criou línguas de fogo com 40 e 50 metros de altura e permitiu pequenos tufões que percorriam 300, 400 e 500 metros em redemoinho e cujas projecções atingiam três, quatro e cinco quilómetros… bastavam minutos para que qualquer local até então muito longe das chamas ficasse completamente armadilhado para as pessoas que ali passavam”.

É isso que explica o que aconteceu na fatídica EN 236-1. As pessoas que fugiam do fogo que ameaçava as suas localidades foram apanhadas, desprevenidamente, numa mortífera armadilha, julgando que o incêndio ainda estava longe dessa estrada. Muitas das que decidiram permanecer nas suas casas salvaram-se. Mas teriam os que fugiram de carro sobrevivido, também, se a estrada tivesse sido cortada?, é a pergunta que agora vale milhões. Provavelmente teriam escolhido caminhos alternativos, tanto ou mais perigosos, porque tudo aquilo era um mar de chamas, segundo disseram muitas testemunhas. E pode-se cortar o trânsito, em semelhantes circunstâncias, numa estrada nacional semeada de vias secundárias?

No “Diário de Notícias” de 21/6, um general do Exército, ex-comandante da GNR, assevera que isso é praticamente impossível: “Nos acessos principais, pode ser feito, mas nos secundários é mais complicado”. E acrescenta que a GNR não podia estar ao longo de toda a estrada. Ou podia, como contrariam alguns? Mas, nesse caso, não estariam os agentes a arriscar também a vida?

Já agora, como o PSD pretende uma comissão independente para avaliar a estratégia seguida (e eventuais responsabilidades) no combate ao incêndio de Pedrógão Grande (aquele que causou maior número de vítimas), não seria má ideia incluir nessa comissão o presidente da Liga dos Bombeiros, além de ouvir outros técnicos que estiveram no terreno e cujas opiniões são coincidentes: “O fenómeno da propagação foi fora do normal. (…) O concelho foi tomado em pouco mais de 15 ou 20 minutos” (José Domingues, comandante dos bombeiros de Castanheira de Pera). “A área que num fogo normal demora oito ou nove dias a ser consumida, neste fogo demorou menos de um dia e meio!” (Fernando Lopes, presidente da Câmara de Castanheira de Pera).

Afinal, como eu dizia no início deste comentário, Passos Coelho, armado em profeta de desgraças, não se enganou (só no mês). Mas esqueceu-se de mencionar também o Super-Homem, pois só este poderia, com o seu poderoso sopro, extinguir um vendaval de chamas como o que ceifou tantas vidas e causou tanta destruição no fatídico dia 17 de Junho.

Este não foi um fogo que ardeu sem se ver. Era o diabo e veio do inferno, conta quem lhe sobreviveu”. Isto escreveu Nicolau Santos, director-adjunto do “Expresso”, no noticiário on-lineExpresso Curto”. Se Jacques Martin ainda fosse vivo, seria o primeiro a lembrar-se do seu “L’ouragan de feu”!

Jorge Magalhães

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