O são futebol do avôzinho – I

O futebol indígena arrasta-se pela lama da suspeita. A competição, associada ao profissionalismo, transferiu-se dos campos de jogo para os corredores dos tribunais, para as páginas dos jornais ditos especializados e para os estúdios da televisão. Aqui, sobretudo aqui, alguns obesos e pesporrentes comentadores transformam qualquer discussão numa nauseabunda cloaca de desportivos esgotos.

As máximas olímpicas foram remetidas para o esquecimento das inutilidades. Os mais novos julgam, com a naturalidade dos distraídos, que sempre foi assim. Não foi. Houve uma época em que a televisão ainda não se tinha tornado sombrio estádio, em que os comentadores -radialistas- eram competentes e sobretudo isentos, em que os jornais eram confiáveis, informativos e honestos q.b., em que se dispensavam os vídeo-árbitros porque os homens do apito apenas se enganavam na razão da sua humana falibilidade.

Tenho saudades dos anos 40 e 50 do passado século, não por serem os da supremacia do meu clube de sempre -o Sporting- mas porque configuravam uma visão do desporto compatível com a dignidade. É claro que havia casos mas tudo se resolvia com equilíbrio, porque não estavam em causa inconfessáveis interesses, como hoje. Então, qualquer jogador de Sporting ou do Benfica pagaria para ter a honra de envergar a camisola do seu clube em vez de se preocupar com os chorudos e imorais, quase obscenos, contratos. Lembro-me bem do que o portalegrense Carlos Canário me contou a tal propósito, como ia treinar após a saída do emprego usando os transportes públicos, como as vedetas e os campeões do tempo compatibilizavam a profissão com a prática desportiva, quase, quase amadora. E eram os melhores da época, internacionais apreciados cá dentro e lá fora. Parece quase uma fábula do tempo em que os animais falavam, mas era mesmo assim.

De vez em quando folheio antigos jornais e revistas dessas épocas heróicas. Aproveitando a vulgar efeméride, apenas um vulgar mas oportuno pretexto, decidi reproduzir e aqui partilhar a revista desportiva semanal Stadium, relativa a 25 de Junho de 1947.

Esta publicação nasceu em Fevereiro de 1932, subintitulada “Revista Portuguesa de Todos os Sports”. Custava um escudo -dez tostões- e era dirigida por Carlos da Silveira. Distinguiu-se desde logo pela sua elevada qualidade gráfica, quer ao nível do design, quer da qualidade do papel e da impressão. O sucesso desta revista foi tal que em 1938 mudou o subtítulo para “O Maior Semanário Desportivo da Península”.

Os tempos da II Guerra Mundial tiveram uma forte influência em toda a imprensa e a falta de papel obrigou a revista Stadium a interromper a sua publicação entre  Março e Maio de 1941, quando já era visada pela Comissão de Censura.

O regresso da Stadium contou com a direcção de Raul Vieira, terminando a  sua primeira série em Julho de 1942. Porém, em Dezembro desse ano, a Stadium regressou com um novo formato gráfico –mais pequeno– e um novo director: Guilhermino de Matos. Custava agora vinte e cinco tostões, inflação incluída…

As melhorias gráficas e o êxito editorial mantiveram-se nos anos seguintes, sobretudo graças ao dinamismo trazido pelo chefe de redacção de revista, Tavares da Silva. A Stadium marcou os anos de 1930 e 1940 devido ao seu grafismo, à técnica de impressão, à qualidade das fotografias e sobretudo dos seus artigos assinados por jornalistas de mérito.

Desapareceu em Dezembro de 1951, época em que os jornais A Bola, Mundo Desportivo e Record já dominavam o mercado da imprensa desportiva portuguesa.

Voltando ao exemplar que cumpre hoje 70 (setenta!) anos, pode facilmente encontrar-se nele uma qualidade hoje perdida, na diversidade e profundidade com que os temas eram tratados, no complementar suplemento e no sentido pedagógico e isento dele emanado.

Hoje e amanhã, o Largo dos Correios convida os leitores para um saudável mergulho no passado, desportivamente bem mais limpo do que o presente.

2 thoughts on “O são futebol do avôzinho – I

  1. Muito interessante este texto e o seu título.
    De facto esse era o futebol dos tempos do avozinho em que se jogava por amor à camisola ou mesmo por amor ao seu bairro.
    Era o tempo do sr Carlos Canário que certamente ia a pé aos treinos porque nem havia transportes públicos. Hoje vão de “lamborguini”.
    Estamos num tempo de futebol esquisito: lamaçal? Ou coisa muito pior e malcheirosa? Escravatura pura, onde homens se vendem e compram, não falando de homens que veem sei lá de onde, sem que jamais fosse capaz de decorar os seus nomes. Quanto portugueses compõem o plantel dos ditos clubes grandes? Muito poucos. Quatro, ou cinco, se tanto.
    Só me admiro é como ainda há tantos adeptos.

    • Caro Joaquim
      Obrigado pelos teus oportunos e judiciosos comentários. Apenas quero acrescentar a este a informação de que Carlos Canário, que trabalhava longe do campo de futebol do Sporting, tinha mesmo de ir de transportes públicos, porque já havia em Lisboa eléctricos desde 1901, assim como táxis (os antigos “carros de praça” dotados de taxímetro) a partir de 1920. As próprias carreiras de autocarro surgiram em 1944, quando ele jogava.
      Hoje, de facto, os jogadores vão de Lamborghini e daí para cima…
      Um abraço amigo do
      António

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