Sermão de Santo António aos Corredores

 

Caros Irmãos Corredores

A vós me dirijo hoje, cansado como estou de pregar aos peixes que pela vossa cidade abundam e que já me não ouvem pacientes como noutros tempos, os da minha juventude, em que eram estes sítios uma famosa ilha. Também já falei aqui a pecadores e a pescadores, que não são exactamente a mesma gente, de má conduta uns tal como de boa postura são os outros.

Falo-vos hoje, caros Irmãos corredores, e muito vêm a propósito estas palavras sobretudo agora que vos soube em amena reunião dita de convívio e amizade, como convém aos de mente sã em corpo são. Mas confesso-vos que alvoroçado estou pelo público retrato que dela ficou da autoria de um de vós mesmos.

Deus ex machina, assim falaram os antigos gregos a propósito dos efeitos teatrais em que uma solução cénica inesperada fazia terminar a função de forma mirabolante. Deus ex machina, assim vos falo eu da tal prova que ficou da vossa dita confraternização, quando um artefacto parece  fazer improvável e dominadora aparição naquilo a que chamais -a declaração é vossa!- um encontro de amizade e convívio. Quando a natural relação humana é assim dominada pela machina algo me parece errado e descabido. Bem sei, porque também os conheço, que alguns críticos e corajosos protestos os mais prudentes de entre vós logo deixaram expressos. Mas debilmente outros emitiram a opinião e desculpa de que, apesar de tudo, valeu a humana relação, sobrepondo-se à machina.

Acautelai-vos, a tal vos exorto, acerca do papel e do valor dessa machina, ponderando se é ela vossa fiel servidora ou se dela sois meros escravos. Em mim, porque não fui testemunha, resta uma preocupante dúvida sobre o vosso sincero comportamento a tal propósito.

A machina, tal como uma arma mortal, é apenas um instrumento que pode ser colocado tanto ao melhor dos serviços como à pior das tramas. À mão do homem que a comanda pertence o seu destino, orientando num ou noutro sentido a sua oposta e contraditória vocação.

E aquilo que vou  em sociedade observando sobre a machina assusta-me e  o espectáculo  que  o vosso recente convívio me proporcionou constatar mergulha-me numa confusão de sentimentos. Sois inteligentes e por isso a prudência manda que façais uma paragem para necessária e útil reflexão. Antes que a machina vos domine devereis dominá-la.

Pensai e reflecti, caros Irmãos, na pertinente inquietação que aqui e agora vos deixo.

Vou voltar aos peixes.

Irmão António de Lisboa

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