1917 – há cem anos – trinta

A data de 8 de Julho de 1917 assinala em Portalegre o início da publicação, na imprensa local, de listas de mortos, feridos e intoxicados com gás, pertencentes ao Regimento de Infantaria 21. Depois de textos iniciais eivados de algum ligeiro e irónico “patriotismo”, surge agora e triste realidade das baixas.

A Plebe” encabeça e lista com o título metafórico, e dramaticamente contraditório, de “Quadro de Honra”. O jornal, com regularidade, passará a divulgar relações, por vezes extensas, de nomes familiares às comunidades locais. As baixas referidas nesta data são: “Mortos no combate 11-12 (naturalmente, de Junho último!) – 1.ª companhia, 404 – Francisco Gonçalves; 1.ª, 690 – António Carrilho; 1.ª , 886 – José Dias; 3.ª, 258 – Gabriel Paulo. (…) Mortos no combate de 12-13 (idem!) – 1.ª companhia – Tenente Mário Augusto Teles Grilo; 1.ª, 1.º cabo 558 – António Carrilho Gonçalves; 1.ª, 1.º cabo 506 – Severino Estrela; 1.ª, 1.º cabo  575 – João Augusto Fernandes; 1.ª, 603 – Galiano Aires; 3.ª, 116 – Manuel Tomaz; 3.ª, 457 – António Pires Barqueiro Júnior; 4.ª, 1.º cabo 250 – Domingos António Penha; 4.ª, 1.º cabo 126 – José Vaz Sardinha; 4.ª, 1.º cabo 440 – José Faustino; 4.ª, 1.º cabo 412 – António Pratas; 4.ª, 1.º cabo 117 – João Soeirinho; 1.ª, 743 – Manuel António Cardoso.

Na sua edição deste mesmo dia, “O Distrito de Portalegre” inclui uma lista similar. Porém, além de nesta figurar mais um morto, José Martins, não há menção de qualquer posto, número ou data de falecimento. Para mais, alguns nomes revelam significativas diferenças: Francisco Gonçalves é aqui referido como Francisco Gavancha; Mário Augusto Teles Grilo é Mário Augusto Telo Grilo; Galiano Aires é António Galiano Arez; Domingos António Penha é António Penha; António Pratas é António Prates… Tratando-se de informação de tamanho melindre e exigindo, por isso, o máximo rigor, pasma-se em como tais disparidades se tornaram possíveis!

Ainda no mesmo dia (os três jornais coincidiam então na sua publicação dominical!) “A Rabeca” divulga a lista das baixas em França, relativas aos combates entre 11 e 13 de Junho. Esta relação é quase igual à publicada pelo seu colega “Distrito”, apenas concedendo razão à “Plebe” quanto ao nome Domingos António Penha. Esclarecedor!

Voltando ao “front”, retoma-se a série de postais ilustrados dali remetidos pelo capitão José Cândido Martinó à sua filhita Benvinda:

9 de Julho – “França. Durante o dia de ontem e parte do de hoje houve feriado. Hoje tivemos revista e marcha. Paralelo à estrada deslizava um canal com margens muito bonitas“.

10 de Julho – “França. Tens continuado a tomar alternadamente a fosfiodoglicina e a emulsão? Isto é, no tempo quente a fosfio. E no tempo fresco a emulsão? Consta que brevemente vamos mudar de localidade; talvez para o primitivo acantonamento. Bem bom será que assim seja porque estes ares não são nada saudáveis!…“.

Com efeito, nesta data de 10 de Julho de 1917, a ocupação plena, pelo C. E. P., da totalidade da frente de combate atribuída determinou uma nova instalação do seus comandos. Neste dia, ficou concluída tal operação, com o Quartel General Central em Saint Venant e o da 1.ª Divisão em Lestrem, no Chateau de la Cigale.

11 de Julho – “França. O vestidinho novo para o teu exame já está pronto e ficou bonito? O que é que ofereceste à tua professora no dia dos seus anos? Então o teu retrato quando chega?“.

12 de Julho – “França. Faz hoje um mês que houve grossa traulitada. Os campos estão lindíssimos. Esta região corresponde ao nosso Minho. Não há um palmo de terreno por cultivar, excepto a terra de ninguém, porque esse terreno está semeado de ferro e aço“.

13 de Julho – “França. Recebi ontem os jornais, e gostei muito da poesia da “Plebe”.(…) Na nossa Brigada também temos um periódico muito interessante pois publica piadas muito engraçadas“.

14 de Julho – “França. Hoje foi um dia de grande maçada, mal tendo tempo para te escrever. Cheguei à minha pobre cabana num estado lastimoso.”.

Nesta dia 14 de Julho de 1917, em Portalegre, Benvinda concluiu a sua habilitação do 1.º Grau de Instrução Primária, com a classificação de “optimamente habilitada”, na Escola Mista do Centro Democrático.

15 de Julho – “França. Pela manhã tive exercício, à tarde tive música e agradou muitíssimo. Depois da música fui convidado para um grande jantar onde me diverti também bastante. É muito à pressa que te estou escrevendo“.

One thought on “1917 – há cem anos – trinta

  1. Como eu gosto de ler estas recordações que felizmente sua querida Mãe guardou e o Martinó tem a gentileza de connosco partilhar . Sempre grata por seus belos escritos . Beijinho

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