Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e três

A parte mais substancial da interessante tese de doutoramento que temos vindo a sumariar diz respeito à discussão da sua componente técnica, isto é, da análise relativa à Medicina. São cerca de oitenta páginas densas, repletas de informação específica, com enorme interesse para a classe médica, porém de reduzido alcance em termos de banda desenhada propriamente dita.

Por isso, decidi passar em claro tal componente, uma vez que aqui procurei partilhar os conteúdos mais próximos do universo dos quadradinhos e dos seus heróis, neste caso Tintin e companheiros.

No entanto, aqui fica uma breve súmula dos títulos relativos aos capítulos deliberadamente “ignorados”, sem que tal represente qualquer sinal de menosprezo pelo excelente trabalho do autor. A quem se interesse pelo seu conhecimento integral recomenda-se a pesquisa do trabalho de que existe uma versão em PDF disponível na Internet.

Patologia – Doenças descritas e aludidas – Patologia infecciosa – Psitacose – Peste bubónica – Escarlatina – Raiva – Constipações, resfriados e gripe – Epidemia misteriosa: sono letárgico – Doenças dos sentidos – Lipotimias – Patologia diversa – Desculpas e alusões – Outras doenças descritas – Situações de perda de consciência. Traumatismos – Amnésia pós-traumática –  Acidentes sofridos pelas personagens – Acidentes com veículos motorizados – Explosões – Picadelas, mordeduras e ataques por animais – Feridas – Queimaduras – Lesões por electricidade – Intoxicações – Outros acidentes sofridos – Situações ambientais extremas – Sobreviver na montanha – O deserto – O mar – O espaço – Os vulcões.

Doentes e médicos – Os doentes – Pacientes psiquiátricos – Outros doentes – Tintin hospitalizado

Os médicos na obra de Hergé – Médicos que se mencionam – Dr. da Marinha Belga – Dr. Finney – Director do manicómio indu – Professor Se-Yeng – Dr. Eugénio Triboulet – Médico do General Alcázar – Médicos da Ilha Negra – Doutor Müller – Dr. Otto Schulze – Dr. Simón – Eminentes médicos da clínica onde são atendidos os sábios – Médico índio – Médico do barco – Médico do Hospital de Wadesdah – Dr. P. Grande – Dr. Rótulo, traumatólogo (osteólogo) – Médico de cabeceira do capitão em Moulinsart – Dr. Krollspell.

Alusões à profissão de médico.

A loucura e os psiquiatras na obra de Hergé.

Instituições e pessoal sanitário – Hospitais e centros sanitários – Manicómio de Rawhaipoutalah – Hospital inglês da Ilha Negra – Clínica onde são atendidos os sábios das 7 bolas de cristal – Hospital de Wadesdah – Centro sanitário da base aeroespacial – Outros centros sanitários mencionados: Hospital de Jacarta, Hospital missionário da aldeia do Congo, Manicómio do Dr. Müller em Sussex, Hospital suíço, Hospital psiquiátrico de Nova Deli. – Pessoal e material sanitário.

Farmacologia – Clorofórmio – Quinino – Aspirinas adulteradas – Sais de amoníaco – Substâncias e remédios mágicos – Soro da verdade – Pílula antialcoólica – Remédios caseiros – Adesivo – Outros medicamentos mencionados.

Medicina primitiva.

Medicinas alternativas (telepatia, superstição…).

Hábitos de vida – Estilo de uma vida saudável – A alimentação – Consumo de álcool – Tintin – Milou – O capitão Haddock e o álcool – Hábito tabágico – Drogas.

Natureza humana – A morte e o suicídio – Amor e sexualidade – Infância – Os brinquedos – Maus tratos infantis.

A vida e a obra de Hergé – O segredo de Hergé.

Valor educativo e vigência.

Curiosamente, esta parte é a única em toda a obra onde surgem reproduções de algumas vinhetas dos álbuns, rigorosamente limitadas a 10, segundo expressa e muito restritiva autorização da Moulinsart.

Com as interessantes “Conclusões” traçadas pelo Dr. Guillermo Álvarez Calatayud findaremos no próximo capítulo esta parcial recensão de um notável trabalho onde se abordou uma visão muito especial das Aventuras de Tintin, de Hergé.

La Marseillase – dois

Entre o diverso e valioso património que o meu avô José Cândido acumulou e trouxe da sua experiência pelas terras da Flandres, então em guerra, conta-se muito que não cabe nas memórias que estou a evocar nas crónicas onde transcrevo o seu Diário de combatente. Muito mais interessado na cultura, sobretudo na musical, à margem da sua participação no conflito, ele nunca descurou a mínima oportunidade de aprender e de partilhar.

Entre essa inestimável herança encontrei uma publicação sobre La Marseillase, sob a forma de um caderno excelentemente documentado acerca da canção patriótica que se tornaria o hino nacional francês. Publicada em 1915, portanto há mais de um século, tal edição é hoje histórica. Muito ilustrada, relata toda a gesta dessa fabulosa canção incluindo ainda uma outra, similar e igualmente significativa, Le Chant du Départ.

Músico, o meu avô encontrou nessa publicação como em muitas outras que coleccionou um complemento da sua própria formação. O interesse desses documentos parece-me óbvio e actual, pelo que aqui os irei partilhando.

Pela sua extensão, divido entre hoje e amanhã a reprodução do caderno Images Historiques, da autoria de René Brancour, numa edição de Henri Laurens, Paris, 1915, sob o título La Marsellaise et Le Chant du Départ.

Para o efeito, digitalizei cuidadosamente essas páginas, complementando-as com a evocação sonora da outra canção patriótica.

La Marseillase – um

La Marseillaise (A Marselhesa, em português) é hoje o hino nacional da França. Foi composto em 1792 por um capitão de Engenharia da divisão de Estrasburgo, Claude Joseph Rouget de Lisle, músico auto-didacta, como canção revolucionária.

Tal aconteceu a pedido do prefeito de Estrasburgo, Philippe-Frédéric de Dietrich, dias depois da declaração de guerra ao imperador da Áustria, em 25 de Abril de 1792. O canto deveria ser um estímulo para encorajar os soldados no combate de fronteira, na região do rio Reno.

Um célebre quadro, pintado em 1849 por Isidore Pils, evoca o momento em que Claude de Lisle entoa em sociedade a sua criação musical.

Algum tempo depois, a canção chegaria a Paris com os soldados federados marselheses, que a cantaram durante todo o percurso. Ao que parece, foi precisamente em 30 de Julho de 1972, passa hoje a efeméride, que foi ouvida pela primeira vez em público na capital da França.

Desde então, passou a ser associada à cidade de Marselha. No dia 4 de Agosto o jornal La Chronique de Paris evocou o canto dos marselheses, e seis dias depois este seria entoado durante a famosa tomada do Palácio das Tulherias. Estava oficializado!

Em 20 de Setembro de 1792, o exército revolucionário comandado pelo general Dumouriez venceu a Batalha de Valmy, travada contra a nobreza francesa e os seus aliados austríacos e prussianos, que tentavam derrubar o regime instaurado em 1789. Na ocasião, Servan de Gerbey, ministro da Guerra da França, escreveu a Dumouriez: “O hino conhecido pelo nome de La Marseillaise é o Te Deum da República“. Foi a consagração definitiva.

Finalmente, em 14 de Julho de 1795, foi instituído pela Convenção como hino nacional.

Ninguém para o Sindicato

Pode parecer chocante, até mesmo perverso, um tipo que até foi dirigente sindical proclamar a intenção de que se deve evitar tal organismo… Nada disso. O que quero afirmar é precisamente o oposto, isto é, que ninguém -seja quem for!- pode travar o Sindicato.

Esta provocação pessoal tem a ver com a contradição interna que a FENPROF ostenta no seu último Jornal. Alinhando na moda, aplica a moderna ortografia proclamada pelo “acordo” e, ao mesmo tempo, viola tal submissão.

Aqui deixo a prova. Naquela página, ao lado de setores (será setôres, gíria corrente de senhores doutores?), o título diz-nos que a Luta dos aposentados não pára! Ora isto é, e os zelosos senhores da Fenprof não o podem ignorar, um flagrante erro segundo os mestres “acordistas”. Pára nunca, mas mesmo nunca, leva acento!!!

Por isso eu escrevi, conforme eles deveriam (!?) ter escrito: ninguém para o Sindicato.

Ora bolas, senhores setôres da FENPROF, tenham vergonha na cara e deixem de vez de escrever letivo, retrospetiva, ação, anteprojeto e outras cretinices do mesmo estilo.

Quando estão restringidos pelas normas oficiais actualmente vigentes nas escolas admite-se a aceitação passiva das violências ortográficas por ora impostas aos professores e alunos, que remédio… Mas em liberdade, sobretudo liberdade sindical, como é isso possível!?

Depois, escapam-se-lhes os títulos para a verdade. O subconsciente tem mesmo força!

De facto, ninguém o para.