As pedras e os rostos

Graças à diligente e cíclica iniciativa de uns quantos de boa vontade, alguns dos convocados compareceram. É uma espécie de romagem não devocional, onde a tradição é construída ano a ano, nos anos em que funciona. Os que se encontram dispõem em comum de um laço assente no sentimento e na memória, o apreço pelos tempos em que percorreram salas, pátios e corredores de um antigo palácio tornado escola, onde viveram experiências pedagógicas e outras, aí cimentando conhecimento e amizade que perduram.

Deu conta e balanço final um dos organizadores, num misto de orgulho e de contrição, lembrando que escassas gerações demonstram esta partilha de amizade, como se apenas a certos anos lectivos, nos tempos pós-guerra, tenha pertencido o exclusivo da mística ali exibida. Não se trata de mera estatística mas de uma dura constatação. E concluiu ele, com realismo, que aquela associação dos antigos alunos eternamente em organização não mais faria sentido porque gente com 70 e 80 anos nunca garantirá o futuro a muito mais longo prazo. Onde estão os outros, sobretudo os mais jovens? Ficou a pergunta…

É longa e acidentada a crónica da nossa velha escola. O Liceu Nacional de Portalegre foi criado em 1851, instalando-se no antigo Palácio Achaiolli em 1887, são passados 130 anos. Em 1928 passou à designação de Liceu Mousinho da Silveira, regressando ao nome de Liceu Nacional de Portalegre em 1947, vão 70 anos decorridos. Foi precisamente essa a época em que a maioria de nós por lá passava. Mais tarde, em 1976, já como Escola Secundária Mousinho da Silveira, deixou as suas clássicas instalações e mudou para um novo edifício, no Bonfim, ali prosseguindo a missão de sempre.

Pelo Palácio Achaiolli passaram antes de nós as gerações dos nossos avós e dos nossos pais. É precisamente destes últimos tempos, os de meados dos anos 20, que aqui recupero a mais antiga imagem alusiva que possuo, precisamente a de um conjunto de alunos onde está o meu pai, o primeiro em pé à esquerda, de chapéu. Era no antigo pátio onde depois despedaçámos até ao último farrapo do seu âmago algumas bolas “faneca” de trapos (adquiridas ao fundo da “rua dos estiquetes”), ziguezagueando entre os cedros já todos desaparecidos -como a histórica palmeira!- com uma única e honrosa excepção…

Por que se limita a esses tempos pós-guerra a geração dos que agora teimam em sempre responder aos apelos da memória, se afinal nada explica a auto-exclusão de tantos, tantos outros? Nenhum de nós detém o exclusivo patrimonial das vivências liceais “lagóias” e a ninguém é vedada a participação num aberto lugar e pretexto de são convívio! Esboçar uma teoria explicativa é sempre possível e por igual falível.

Coube-nos em sorte um elenco excepcional de professores? Talvez. Fomos tocados por uma época social particularmente difícil na comunidade portalegrense que criou invulgares laços solidários? Talvez. Vivemos então, ou logo a seguir, uma experiência única no seio de um grupo absolutamente ímpar, o Amicitia? Talvez, para muitos de nós.

Somos diferentes? Não, de todo.

Que venham portanto historiadores, antropólogos, psicanalistas e sociólogos para explicarem o fenómeno. E que nós, os sobreviventes do espírito do querido Liceu Nacional de Portalegre, unidos por uma inexistente associação que jamais se oficializará, continuemos ano após ano -sabe-se lá até quando…- a dar corpo e afirmação à amizade que nasceu nos bancos de uma escola onde vivemos tempos inesquecíveis da juventude.

Isso é o que conta e vale.

Costumo a este propósito aqui deixar registo de imagens alusivas. Nunca houve tantas como este ano, mas também nunca como agora elas têm corrido as chamadas redes sociais. Redundante seria, por isso, aqui e agora repeti-las.

Portanto, serei selectivo q.b., reduzindo de forma muito personalizada o habitual registo. Escolhi três pretextos.

Com o meu irmão José Eduardo, mais novo do que eu, coincidimos num único ano lectivo no Liceu portalegrense. Apenas vivemos na casa comum de família uma dezena e meia de anos, porque depressa o destino nos separou. Como a imensa maioria dos portalegrenses -ainda hoje assim é!- foi no exílio que ele encontrou o emprego e a autonomia. Agora, nestes últimos anos, tem sido precisamente o pretexto dos regulares encontros “alfacinhas” mensais dos antigos alunos do Liceu que, afora as reuniões familiares, nos reúne. Neste recente encontro nacional e anual estivemos juntos e só isso seria já motivo de gratidão aos que tal proporcionaram.

Com o Américo Carvalho de Oliveira, de Póvoa e Meadas, reincidi em vários bancos de diversas escolas. Começou o ciclo no Liceu de Portalegre, continuou na Escola do Magistério Primário de Évora, terminando na saudosa Escola Primária das Galveias, onde ensinámos e aprendemos, convivendo numa saga que já aqui evoquei com merecido destaque –Galveias 1955-1957– em Novembro e Dezembro de 2013.

Reencontrar agora o Américo, com a sua Arcângela, foi um dos momentos mais felizes deste recente convívio. Que se repita por alguns anos, um de cada vez…

Com o José Vaz Serra é diferente a experiência, ainda que não menos gratificante. Micaelense, ele não frequentou o Liceu de Portalegre. O que o levou à cidade de Régio foi o amor, depois consolidado pelo casamento com uma portalegrense, nossa colega naqueles bancos. Foi portanto noutros pretextos que se travou o convívio pessoal com o Vaz Serra, precisamente em Mafra, no casarão militar onde em 1961 respirámos em conjunto fumos de guerra. Quem queira conhecer esses tempos, difíceis tempos, pode recorrer ao Largo dos Correios. Durou um ano inteiro, de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro, o meu relato diário dessa inesquecível gesta pessoal, que parcialmente com ele partilhei, num convívio em terra e no ar, este relativo ao meu baptismo de voo. Basta para tanto recapitular Mil novecentos e sessenta e um – o ano que quase colocou o país de pernas para o ar, escrito e publicado em 2016.

Pedras e rostos, lugares de memória e pretextos de afecto.

Que a experiência se repita, no seio de uma organização que nunca terá estatutos nem corpos gerentes.

Mas desde quando a alma precisa de burocracias? O nosso simplex é funcional.

Barrento, Belo Coelho, Tito e Florindo, presidentes, secretários, tesoureiros, vogais  e até  contínuos honorários da nossa associação, tendes um voto de confiança  unânime e por aclamação que todos decidimos, votado  em dispensável plebiscito -devidamente certificado por carimbo oficial- que ninguém poderá contestar.

Nem sequer os atacados pelos alzheimeres da vulgaridade, que até se esqueceram -imagine-se!- dos bancos do velho Liceu onde se sentaram…

Assim, piedosamente, eles nem dão por aquilo que têm perdido.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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