Quem não quer ser lobo não lhe frequenta a toca

Numa daquelas crónicas semanais em que António Lobo Antunes se revela e expõe de forma íntima, falou das tristes memórias do seu liceu e dos professores que ali o atormentaram. Foi precisamente na passada quinta-feira, coincidindo com o dia em que, pela enésima vez, um grupo de malta se reunia para (também) falar do seu liceu e dos professores que ali aturou e vice-versa.

Estes antigos liceais não acham que o seu antigo estabelecimento de ensino tivesse sido o lugar mais pavoroso e sinistro que frequentaram. Nem sequer se atrevem a classificar os professores lá encontrados como inenarráveis. Mesmo o de Matemática, gordo e careca, embora sem bata, entregava-nos as notas quase todas negativas, é certo, mas sem nos culpar pelo cinema, alternativo ao estudo, a que assistíamos no Cine-Parque. O de Inglês, talvez uma luminária como o de Lobo Antunes, não nos ditava os pontos com um feroz vozeirão, porque vinham já policopiados da Secretaria. O de Desenho, que até era pintor nas horas vagas -quase todas-  corrigia com benevolente indulgência as canecas tortas que interpretávamos à vista desarmada. O de Francês não podia criticar o nosso sotaque porque nunca perdeu o dele, bem carregado, minhoto até dizer basta. Ginástica também não a tínhamos de jeito, embora a razão fosse bem outra, a de nem sequer termos ginásio, mas um minúsculo cubículo mal arejado e pior iluminado com o tecto quase a tocar a chão cimentado. Até no contínuo diferimos, porque os nossos eram três, dois Carrapiços e um Azeitona, talvez diversos na funcional autoridade mas desprovidos de malas duvidosamente recheadas como o Ribeiro da crónica de Lobo Antunes…

Nunca qualquer de nós subscreveria aquelas ácidas linhas. É igualmente certo que a nenhum de nós passaria pela cabeça algum dia ganhar o Nobel. Também ganhá-lo ao preço de admitir que toda a Humanidade parece conspirar contra nós seria preço bem elevado, convenhamos.

(como declaração de interesses, quero aqui deixar a opinião pessoal -que vale o que vale mas é esta- de que Lobo Antunes mereceria o Nobel da Literatura mais do que José Saramago e ponto final na questão)

Ia eu dizendo que coincidiu o dia, numa daquelas convergências que o acaso tece, em que Lobo Antunes falou do seu Liceu Camões com professores e contínuo dentro e em que uma dezena e meia de outros tipos falaram do seu Liceu Nacional de Portalegre, com professores, contínuos e colegas incluídos nesse pacote de recordações. Mais, e aqui cessam as coincidências, Lobo Antunes provavelmente virará os seus ódios pessoais de estimação contra abomináveis memórias de outros sítios e outros vis protagonistas e nós saudavelmente reincidiremos uma e outras vezes no mesmo tema. Como aliás vimos fazendo há anos.

Sabemos que Lobo Antunes adora uma máxima que aliás confessa ter canibalizado a George Orwell: O passado é a coisa mais imprevisível do mundo, não pára de se transformar. Aqui concordo com ambos. Acho que todos nós, os “lagóias” do grupo concordaremos. Senão, como encontraríamos sempre novos motivos para recordar, novas fotografias para revelar, novos episódios sempre rigorosamente inéditos para contar!?

O Liceu Nacional de Portalegre é um lugar mágico que todos frequentámos, inesgotável pretexto (ou será uma desculpa?) para nos reencontrarmos. Fizemo-lo há escassos dias e agora voltámos a fazê-lo. É preciso mais algum argumento para provar a Lobo Antunes, um ser inteligente e culto, que um liceu pode formar homens normais e não geysers em botão, como afirmou?

O Florindo, para além de organizador do evento e arauto das respectivas convocatórias, é o repórter de imagem sempre de serviço e dedicado mensageiro da sua produção. As fotografias do nosso convívio chegaram-me a casa antes de mim…

Com um “cúmplice” tão dedicado e pontual, sinto-me obrigado a corresponder com uma atempada divulgação, não apenas para que a recordação de mais um saudável convívio chegue depressa aos outros participantes como, também, a todos os restantes colegas e amigos que há pouco engrossaram o habitual elenco “sectorial” alfacinha no encontro “nacional” do Clara Jardim.

Se não tivesse acontecido a provocação de Lobo Antunes, que dominou este preâmbulo das imagens, quero declarar alto e bom som que lhes chamaria “De Metro a Metro“, precisamente porque começa a acaba nas profundezas mecânicas da capital a ordem sequencial das fotografias, numa sábia escolha do seu autor. Quem sabe, talvez inspirada nas atrás citadas crónicas…

António Martinó de Azevedo Coutinho (texto)
Florindo Sajara Madeira (imagens)

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